Com indisfarçável prazer, Mourão assiste à derrocada de seu ex-amigo Bolsonaro

Opinião: Artigos, Editoriais, Colunistas e Debates | Folha

Mourão se distrai no caderninho para se abstrair de Bolsonario

Carlos Newton

Já falamos muito aqui na Tribuna da Internet sobre a reunião ministerial do dia 22 de abril, mas o tema é inesgotável. Além daquela impressionante apresentação do presidente Jair Bolsonaro, que mais parecia à beira de um ataque de nervos, como se fosse personagem do genial cineasta Pedro Almodóvar, é preciso notar também as participações especiais de três outros grandes membros do elenco – o chefe da Casa Civil, Braga Netto, o vice-presidente Hamilton Mourão e o então ministro da Justiça, Sérgio Moro.

O general Braga Netto ainda teve algumas falas, tentava organizar a bagunça, funcionava como uma espécie de primeiro-ministro, digamos assim, mas o ex-juiz Moro e o vice Mourão entraram mudos e saíram calados, embora suas posturas sempre fossem muito significativas. Afinal, como o mestre chinês Confúcio dizia em relação à imagem, também um olhar pode ser mais expressivo do que mil palavras.

OS TRÊS PERSONAGENS – Mourão e Braga tinham comportamento semelhante quando Bolsonaro viajava naquelas frases agressivas, ameaçadoras e desconexas – os dois faziam olhar de paisagem, era como se não estivessem ali.

Só de vez em quando é que fitavam o delirante presidente. A diferença é que Braga demonstrava impaciência, enquanto Mourão exibia um discreto sorriso irônico. É claro que o vice-presidente está assistindo à derrocada de seu ex-amigo Bolsonaro com indisfarçável satisfação, um sentimento natural para quem foi tão humilhado como ele, a ponto de ser impedido de ocupar a Presidência durante a longa recuperação de Bolsonaro na terceira cirurgia.

Na reunião, Mourão tinha um caderninho que o livrava de ficar olhando para Bolsonaro. Entre um faniquito e outro, Mourão fingia fazer alguma anotação e conseguia se abstrair. Mas o ministro Braga Netto, que ainda não usa o caderninho salvador, tinha de se socorrer mexendo no celular, e seu constrangimento na reunião era indisfarçável.

UM CINISMO TOTAL – Entre os principais personagens, detectava-se um clima de cinismo e hipocrisia, dois sentimentos que parecem caracterizar esse governo. O ex-juiz Moro destoava dos demais. Ficou praticamente o tempo todo na mesma posição, com o semblante fechado, os braços cruzados e sem jamais olhar para Bolsonaro, nem mesmo nos momentos de maior agressividade do presidente. Moro comportou-se com a dignidade de sempre, era um personagem à parte naquele palco iluminado e sem estrelas.

Em suma, é preciso dizer que o ministro Celso de Mello prestou um inestimável serviço público.ao permitir a divulgação da quase totalidade da reunião ministerial do dia 22 de abril,  Quem assistiu ao vídeo ficou conhecendo Bolsonaro melhor e passou a ter certeza de que ele não tem o menor equilíbrio para presidir esse país.

Aliás, tinha tudo para dar certo. Sua ascensão ao poder foi cercada por um fortíssimo clima de esperança que ele não soube cultivar ou manter. Agora, desde o início deste ano ele se arrasta pateticamente no Planalto, como um zumbi político caminhando contra o vento, sem lenço e sem documento, como dizia Caetano Veloso.

18 thoughts on “Com indisfarçável prazer, Mourão assiste à derrocada de seu ex-amigo Bolsonaro

  1. Se podemos ficar estarrecidos com o comportamento de quem – literalmente continua a babar por um criminoso miliciano e boçal na presidência -, igualmente podemos ficar estarrecidos com a visão – ou falta de -, de pessoas esclarecidas que votaram num ladrão/contrabandista e criminoso desde há mais de 30 anos, quando da sua passagem efêmera e terrorista pelo exército.
    .
    Acordem!

    Esse criminoso que aí está – como muitos já perceberam -, ideologicamentenão é de direita ou de esquerda: é só um psicopata covarde amante da tortura. Um mentiroso patológico. E não se tornou o que é de 2018 pra cá. Não mesmo!

    Podemos e devemos repudiar a ditadura milico-servil de 1964/85(…?), mas temos de ser muito ignorantes pra não reconhecer que havia diferença entre um Geisel e um “Nini”; entre um Batista Figueiredo e um Ustra. E se formos comparar os generais-ditadores com os generalecos que batem continência para o boçal que ocupa mas não exerce o cargo de presidente da República – chega a ser tragicômico.

  2. Essa situação do Mourão faz lembrar um pouco do Temer esperando pela queda da pilantra Dilma, da quadrilha lulopetista.

    De modo mais ou menos semelhante ao que ocorria com o Temer, Mourão também tem sido escanteado pelo Bolsonaro desde o início de seu desgoverno.

    Porém agora parece um pouco pior, pois Bolsonaro tem 3 filhos praticamente selvagens, que são antissociais, reacionários e neofascistas. E esses maus elementos participam vergonhosamente, de forma bastante ativa, no controle do navio vagabundo de Bolsonaro, rechaçando inclusive Mourão de exercer algumas tarefas; ou até tentando humilhá-lo publicamente.

    O próprio Bolsonaro também tem aprontado poucas e boas para o Mourão, conforme percebe-se o tempo todo.

    Mas talvez Mourão – que é gaúcho – esteja realmente conseguindo agir de forma bem mineira (quietinho, mansinho e “comendo pelas beiradas”) e aguardando pela inevitável queda do psicopata Bolsonaro.

    O Brasil não tem bola de cristal, mas consegue perceber muita coisa no ar.

  3. No começo imaginei tratar-se de matéria com alguma novidade … enganei-me, trata-se de lançar futricas com o objetivo único de lavar o ato farsesco do Excelso de Mellda … “é preciso dizer que o ministro Celso de Mello prestou um inestimável serviço público.ao permitir a divulgação da quase totalidade da reunião” … não CN, tudo que ele fez foi infringir a lei para sabotar um governo democraticamente eleito.

    Dr Moro afirmou que, nessa reunião, o Presidente o pressionou para interferir na PF … o próprio silêncio do ex-ministro o desmente … comprova que Bolsonaro não se dirigiu a ele especificamente … caso tivesse feito, ele (Moro) responderia como toda autoridade faz quando interpelado por um superior. Tudo isso não passa de uma farsa golpista da qual o “juiz de merda”, segundo Saulo Ramos, participa com um furor indígno do alto posto que ocupa.

  4. Li e não sei aonde, que por ocasião da vitória nas eleições de 2018 Bolsonaro exclamou: “tô fudido!”, mas hoje sabemos que quem está mesmo somos nós. Esta criatura vive do confronto, incapaz de apaziguar e unir a população em prol do país.

    Hoje preside?! uma turba de fanáticos e de conflito diário de modo que evita – por não saber – o que dizer a população sobre o SUS, hospitais, desemprego, como sairemos desta. Não oferece perspectiva nenhuma: zero.

    Um inútil, apenas.

  5. Não compreendo o que leva uma pessoa a desejar alucinadamente o poder. Hitler, Mussoline, Kadafi, Sadam Hussein e seus filhos degenerados – todos tiveram o fim que mereceram. Nero, que até a mãe assassinou, morreu numa emboscada da sua própria Guarda Pretoriana.
    Mesmo com todos esses exemplos, há babacas em nossos plagas que alimenta esse sonho nefasto: o poder sem limites.

    • Sapo de Toga,
      boa tarde!

      entre luz e sombra
      debate-se o homem.
      a que mais alimenta
      o governa, consome.

      ao fomentar tortura e ódio
      – quem no ilusório poder –
      perde a própria humanidade.
      perde nessa existência
      a chance de evoluir, crescer.

      entre luz e sombra
      debate-se o homem.
      a que mais alimenta
      o governa, consome.

      batista filho

  6. Politicamente, infelizmente para os que votaram nele, Bolsonaro está parecendo aquela serpente que entrou no comportamento Ouroboros e começou a comer as sua própria cauda. Suicídio político.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *