Com o Flu, o clamor e o humor da multidão em delírio

Pedro do Coutto

A torcida do Fluminense, confiando no time, no técnico Murici e na vitória na decisão de domingo, deu ao povo do Rio uma rara demonstração de amor ao clube, de sacrifício nas filas e de entusiasmo na voz e no coração, comprando todos os ingressos colocados à venda. Marcou as áreas de venda com o clamor e o rumor de uma multidão que vai se repetir no desfecho do Engenhão contra o Guarani. Jogamos para a vitória, depende só de nós, vamos firmes para a luta. Os tricolores formam a terceira torcida do Rio e a segunda do país. Explico: no RJ, ficamos atrás só de Flamengo e Vasco.

Em termos nacionais, só atrás do Flamengo. O Vasco não tem público fora do estado. A torcida do Corintians domina apenas em São Paulo. A do Atlético em Minas. A do Internacional no Rio Grande do Sul. Romper fronteiras e limites regionais só as do Fla e do Flu. Frase, aliás, deixada pelo jornalista Mario Filho, irmão de Nelson Rodrigues, tricolor como ele, fundador do Jornal dos Sports, a quem o país deve, de fato, a construção do Maracanã.

Mas esta é outra questão. Pertence ao passado. Como ao passado pertencem as decisões históricas que assisti em 41 na Gávea, em 46 em São Januário, em 51 no Maracanã, em 59, 64, 69, 70, 84. São tantas que, confesso, não me lembro de todas. Mas foram marcos da minha vida, nesta véspera de voltar meus olhos para o Estádio João Havelange, Arena do Engenhão. Havelange, além de nome de estádio, é presidente de honra e grande benemérito atleta do Fluminense. O ex-presidente da FIFA dá seu nome ao segundo coliseu do esporte do Rio. Fica para sempre. Como ficou Mario Filho, nome eterno do Maracanã, teatro e templo do futebol.

Mas enquanto dezenas de milhares de torcedores apaixonados passavam mais de 48 horas ma fila, revezando-se, à busca da esperança e da emoção, mais uma vez os cambistas e os suspeitos de sempre entravam em ação. Os ingressos esgotaram-se nas bilheterias aos preços oficialmente fixados. Porém a procura continua e os tíquetes que podem conduzir à sensação de felicidade, ou promessa dela, como escreveu Contardo Caligaris, tempos atrás na Folha de São Paulo ao abordar a psicologia do torcedor apaixonado, vão reaparecer nas mãos de exploradores dos outros. Na tarde de ontem, sábado, na manhã de hoje nas ruas do Engenho de Dentro, subúrbio carioca, cenário e desfecho da Taça do Brasileiro. Vão emergir e atender a uma reserva ilegal de mercado. Isso revela o que sempre sustentei, nos tempos em que trabalhei no Correio da Manhã. A televisão não tira público dos estádios. Ao contrário. Acrescenta.

Um processo inevitável já que os estádios não podem aumentar sua capacidade e a população não para de crescer. Quando o Mário Filho foi inaugurado, para a Copa de 50, o Rio possuía 2 milhões e 500 mil habitantes, segundo o IBGE. Sua população hoje, 60 anos depois, é de 6 milhões e 400 mil pessoas. O televisamento era – e sempre foi – a solução lógica. Basta partir da seguinte comparação: um milhão de pessoas querem ver o desfecho deste domingo. O Estádio João Havelange só pode acolher no máximo de 42 mil a 45 espectadores. A televisão, na realidade, democratiza os espetáculos. Todos eles. Esportivos ou artísticos. A diferença entre o esporte e a arte é o desfecho imprevisível, de um lado, e a representação pré-estabelecida de outro.

Vamos em frente. Está chegando a hora. Na TV ou no Engenhão os corações tricolores batem e seguem firmes. Na arte, na técnica, na emoção do time vamos todos escrever mais um capítulo, em três cores, da bela história da Rua Álvaro Chaves, nas Laranjeiras. História eterna.

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