Com o voto manipulado da Venezuela, o impopular Maduro continua a se segurar no poder

Seção eleitoral vazia durante eleições legislativas na Venezuela. Foto: Cristian Hernandez / AFP (Crédito: )

O povo já está desistindo das eleições e somente 42% votaram

Isayen Herrera e Anatoly Kurmanaev
New York Times

As eleições regionais da Venezuela no domingo foram distorcidas por um campo de jogo desigual, violência e injunções contra líderes populares, declararam os monitores da União Europeia na terça-feira.

Mas a mera presença de observadores internacionais independentes, a primeira em 15 anos a testemunhar uma votação venezuelana, sublinhou a profundidade com que o presidente Nicolás Maduro se firmou no poder na Venezuela desde que assumiu o cargo em 2013.

REPRESSÃO DURA – Depois de anos reprimindo a dissidência com força e subvertendo os vestígios das instituições democráticas da Venezuela, Maduro aperfeiçoou um sistema político em que não tem mais tanto medo do escrutínio internacional ao competir contra oponentes filtrados pelo governo, de acordo com analistas locais.

Ao proibir a candidatura dos líderes mais proeminentes e populares, dividindo os partidos da oposição, encorajando a apatia dos eleitores e mantendo uma minoria leal dependente de esmolas do governo, Maduro pode ganhar eleições sem recorrer a fraudes diretas – mesmo com mínimo apoio popular.

O Partido Socialista, no poder, conquistou pelo menos 19 dos 23 governos da Venezuela, bem como a maioria das prefeituras, apesar de presidir uma economia destruída e ter o apoio, aparecendo como pesquisas, de apenas 15% da população. Um em cada cinco venezuelanos fugiu do país sob o governo de Maduro, de acordo com um estudo das principais universidades do país.

OPOSIÇÃO DIVIDIDA – A varredura do partido no poder foi grandemente auxiliada pelas divisões dentro da oposição.  Alguns líderes oposicionistas boicotaram a votação, como a maioria deles fez em outras disputas recentes. Os que optaram por participar dividiram votos com facções que fizeram pactos com Maduro ou adotaram uma linha mais branda contra o presidente, para utilizar a liberalização econômica que ele ensaia nos últimos anos.

A missão de observação da União Europeia disse na terça-feira que não poderia considerar a votação de domingo livre ou justa, em parte por causa das vantagens de que goza o partido no poder e da disparidade de forças.

 “Há uma situação política associada à grave situação socioeconômica que provocou o êxodo de milhões de venezuelanos”, disse na terça-feira Jordi Cañas, representante do Parlamento Europeu na missão de observadores, em entrevista coletiva na capital Caracas.

URNAS ELETRÔNICAS – Os observadores europeus consideraram “confiável” o sistema de processamento eletrônico de votos do país. Mas os Estados Unidos, que não reconhecem o governo de Maduro, consideraram uma eleição profundamente falha, mas elogiaram os candidatos da oposição que decidiram participar para manter os poucos cargos democráticos que ainda ocupam.

Nas resultados eleitorais em Caracas, no domingo, muitos eleitores expressaram pouca confiança na justiça da eleição, mas disseram que decidiram comparecer de qualquer maneira, em alguns casos porque viram seu voto como sua última ferramenta na luta por mudanças.

“Sei que todo o processo é controlado”, disse Blas Roa, 55 anos, carpinteiro de Caracas, que votou pela primeira vez desde 2015. “Mas se eu não votar, não vou fazer nada.”

APATIA POLÍTICA – A maioria dos venezuelanos não se importou. Apenas 42% dos eleitores votaram, o menor comparecimento em qualquer eleição nas últimas duas décadas. Após 20 anos de governo socialista, poucos no país ainda nutrem esperanças de uma mudança radical, concentrando-se em incorporar novas liberdades protegidas para melhorar seus precários meios de subsistência.

Essa apatia induzida pelo governo acabou sendo a maior arma de Maduro nas vantagens eleitorais , disse Freddy Superlano, que concorreu a governador no estado de Barinas, que já foi um grande bastião do Partido Socialista e residência do fundador do partido, Hugo Chávez.

O resultado teria sido diferente, disse Superlano, se as facções da opção tivessem deixado de lado suas dúvidas e montado uma campanha combinada. “Estamos lutando não contra o candidato, mas contra todo o poder do Estado”, disse o oposicionista.

(Artigo enviado por Duarte Bertolini)

2 thoughts on “Com o voto manipulado da Venezuela, o impopular Maduro continua a se segurar no poder

  1. Lá o voto é em papel.
    Dos 23 estados o partido do Maduro venceu em 20.
    Como pensar que é uma ditadura num país onde as Forças Armadas, o Judiciário, o Legislativo e a população elegem este partido?
    Ele é ruim?
    Todo povo tem o governo que merece. Exatamente como nos brasileiros votamos em Bolsonaro.

  2. Que trapaceiro esse jornalista do NYT… dizer que o povo venezuelano está desistindo de votar insinuando a culpa seria do descredito de mudanças do governo socialista… Ora! O país está sofrendo com embargos e bloqueio dos EUA que mais afetam a população que o governo.

    E outra. No Chile mais de 50% não compareceram para votar (sabia?) a culpa é da democracia chilena(???)

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