Com os heróis da Lava Jato encurralados, o fenômeno político perde força

TRIBUNA DA INTERNET | Quem tenta inviabilizar a Lava Jato ...

Charge do Bonifácio (Arquivo Google)

William Waack
Estadão

A frase que ressoa com força no topo da Procuradoria-Geral da República e entre vários ministros do STF é a seguinte: “A Lava Jato não vai acabar, mas vai acabar o lavajatismo”. Como toda encarniçada luta política, também nesta briga-se, em primeiro lugar, por impor uma narrativa.

A que vigora entre quem tem força política ou posição institucional para enfrentar a “Lava Jato” é a de que a força-tarefa de Curitiba se desenvolveu como grupo político com agenda própria e capacidade de dominar decisões das esferas políticas, nisto incluindo Executivo e Legislativo. Mas, para sorte do País, o grupo de procuradores, juízes e policiais da Lava Jato se perdeu no meio do caminho, e cabe agora dar um jeito nisso.

VISÃO CONTRÁRIA Os principais expoentes da força-tarefa enxergam exatamente o contrário. Em especial a decisão de terça-feira do presidente do STF de impedir buscas no gabinete do senador José Serra em Brasília – atendendo à queixa do próprio presidente do Senado – foi por eles qualificada como tentativa de “dificultar a investigação de poderosos contra quem pesam evidências de crimes” (Deltan Dallagnol, procurador da força-tarefa).

Era algo já previsto na literatura que consumiram: deixados entregues a si mesmos, sem controles externos (como o do Ministério Público), os políticos só produziriam medidas para se proteger e garantir seus interesses (lícitos ou ilícitos). Desnecessário dizer que, para o grupo da Lava Jato, o STF sempre foi visto como parcialmente entrelaçado aos diversos interesses políticos, incluindo ilícitos.

O grupo de Curitiba faz questão hoje de se distanciar do “lavajatismo”, uma denominação que, no seu mínimo denominador comum, expressa um anseio punitivista que ignora consagrados princípios legais contanto que se peguem corruptos.

POTENCIAL ELEITORAL – É difícil entender a eleição de Jair Bolsonaro sem a repercussão social e política do “lavajatismo”, mas seu potencial eleitoral para 2022 é um ponto de interrogação cujo tamanho aumenta à medida que transcorre o tempo desde que o ex-juiz Sérgio Moro – de longe a maior expressão da Lava Jato – deixou o Ministério da Justiça.

Moro embarcou na política aparentemente sem um plano claro. Deixou-se levar pelas circunstâncias de um jogo que ele não dominava e elas o obrigaram ao famoso “salto no escuro” – que foi a saída do governo, uma atitude que hoje parece muito mais de preservação do que de ataque. As armas de Moro para atingir Bolsonaro até o momento revelaram-se pouco contundentes, enquanto as do STF contra ele (onde se arguirá a suspeição do então juiz) ainda surgirão.

Ocorre que as circunstâncias estão fazendo com que ele desenvolva um discurso de candidato, postura que não quer (ainda?) assumir.

CENTRO DEMOCRÁTICO – Onde é convidado a se pronunciar, Moro começa hoje falando de economia, de melhoria do ambiente de negócios, de segurança jurídica e de reformas estruturantes. Evita qualquer postura que o possa associar a radicalismos do espectro político. Defende “união”, “harmonia” e um por enquanto vagamente definido “centro democrático” como linha de atuação.

Não parece disposto de forma alguma a assumir a herança do “lavajatismo”, na medida em que seus heróis de ontem são hoje figuras encurraladas do ponto de vista político e institucional, e na linha do tempo estão longe ainda de um novo teste das urnas. Parece intuir que só o combate à corrupção e o apego à lei e à ordem não trarão vitória eleitoral, diante de um momento político no qual as profundas consequências da dupla crise econômica e de saúde pública estão apenas começando.

A Lava Jato ainda produz ações de repercussão, como a deflagrada contra o senador José Serra, mas que surgem como eco de um passado tornado rapidamente longínquo diante da percepção de quais são os piores problemas da atualidade. O “lavajatismo”, que era também um ânimo de mudança, está perdendo sua principal referência.

6 thoughts on “Com os heróis da Lava Jato encurralados, o fenômeno político perde força

  1. Lava Jato!? Deveria ser Lava Lento. Levaram anos, muitos anos, e não descobriram nenhum prova contra o Lula. Equipe e recursos não faltaram,e agora querem prorrogação. Tudo jogo de cena para demonstrar imparcialidade. Aécio, Alquim, Será, Romero Jucá e muito outros podem dormir tranquilos.

    • Ronaldo
      Tua é FAKE ou foi atacado pelo Alzheimer?
      Nem morador ou cachorro de rua acredita nisto que a petralhada esquizofrenia diz\ do caso do ladrão condenado!

  2. Exxtranho artigo; “ignora consagrados principios legais”; como por exemplo a prisão após segunda instancia que foi solenemente estuprada pelos ignóbeis do stf?!!!
    Ou será o “abuso de autoridade”; ou ainda tirar o COAF do Ministério da Justiça ou ainda “intimidar quem quer fazer seu trabalho com o “abuso de autoridade”?!!!
    A nossa sorte(?) é que o Covidão mostrará que ninguém será mais preso após o HC para tirar o corrupto das grades nas prisões preventivas.
    E o Bolsonaro é um reles aproveitador político que viu o momento ideal na indignação do povo brasileiro contra a corrupção e não só as dos petralhas não; e sim qualquer partido.
    O Bolsonaro só consegue a reeleição se for para segundo turno com qualquer (qualquer) candidato do pt.; fora isso está fora, pois é mais do mesmo.

  3. Para “esculachar” o que resta do Brasil, vem esta censura pelo stf que vai desaguar em que todos ficarão tolhidos, com medo.
    Exemplo disto foi o Paulo Francis que mesmo com a verdade de suas palavras, não conseguiu provar e “se ferrou”.
    E com o “silencio”, os hediondos corruptos, não se preocuparão mais com o que os amigos e parentes escutarão nos restaurantes, escolas e praça pública; pois, tudo ficará no mais perfeito “silencio”.

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