Com toda certeza, os militares já deveriam ter desembarcado do governo há muito tempo

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Charge do Custódio (www.custodio.net)

Pedro Castelo Branco e Lier Pires Ferreira
O Globo

Em texto publicado na revista “Época”, no dia 17 de janeiro, o jornalista Luiz Fernando Vianna fez uma dura crítica à participação do Exército brasileiro no governo Bolsonaro. Embora seja excessivo e desproporcional dizer que o “Exército volta a matar brasileiros”, é certo que a inépcia do governo em lidar com a pandemia da Covid-19, particularmente após o morticínio de Manaus, tende a atingir o prestígio das Forças Armadas.

A presença ostensiva de militares no governo vem levando a corporação a ficar quase tão maculada quanto no período da ditadura militar. Ao final da gestão Bolsonaro, será difícil reconstruir a imagem das Forças Armadas que os militares palacianos estão ajudando a destruir.

IMAGEM MACULADA – Quanto mais Bolsonaro associa as Forças Armadas ao governo, mais asfixia a idoneidade conquistada junto à população. Os militares já deveriam ter desembarcado do governo há muito tempo.

Aliás, jamais deveriam ter embarcado num governo de um presidente autocrático, que não tem nenhum projeto para o país, a não ser o favorecimento dos seus interesses pessoais e os de sua família. Bolsonaro é tudo, menos nacionalista.

Nacionalista é o presidente da Índia, Ram Nath Kovind, que deu uma duríssima lição ao governo brasileiro, negando, num primeiro momento, os dois milhões de doses da vacina Oxford/AstraZaneca que Bolsonaro buscou adquirir enquanto desprezava a eficácia da CoronaVac, chamando-a de “vacina chinesa do Doria” e afirmando que seus usuários iriam “virar jacaré”.

CORRESPONSÁVEIS – O presidente do Brasil e os militares brasileiros no governo são corresponsáveis pela tragédia sanitária do país, agravada pela cloroquinazação da saúde pública. Uma vez que se entra na política, não dá para tirar o corpo fora. A conta sempre chega!

Hoje, infelizmente, é cada vez mais difícil desvincular a imagem das Forças Armadas dos militares que integram o governo. Querendo ou não, particularmente quando estão na ativa, eles carregam a imagem da instituição, pondo em risco o legado refeito após a redemocratização.

As Forças Armadas são o último recurso da soberania nacional. A participação maciça de militares no Executivo federal, onde existem mais de seis mil membros da Marinha, do Exército e da Aeronáutica, da ativa e reserva, faz com que as Forças Armadas deixem de ser vistas como uma instituição de Estado e passem a ser associadas ao governo. Neste caso, um governo capitaneado por um presidente visivelmente contrário à democracia, à ciência e à vida.

UM CÁLCULO ERRARO – A corporação militar possivelmente não sairá incólume da gestão Bolsonaro. Os militares fizeram um cálculo político errado. Era previsível que sua participação no governo resultaria no comprometimento de sua idoneidade.

Ao contrário do que vemos nos Estados Unidos, onde o comando militar se opôs às tentativas autogolpistas de Trump e seus asseclas, no Brasil as Forças Armadas perdem oxigênio. Em que pese à opinião contrária de muitos de seus membros, como é caso do comandante do Exército, Edson Pujol, quanto mais Bolsonaro asfixia a caserna, retirando seu oxigênio, mais as Forças Armadas correm o risco de entrar para a história como uma instituição que participou de um governo desastroso, considerado por muitos um dos piores do país.

10 thoughts on “Com toda certeza, os militares já deveriam ter desembarcado do governo há muito tempo

  1. Desgraçadamente, os “Militares estão coesos com o Governo Federal”, conforme o comentário acima, de José Roberto.

    O sonho dos desvalidos, oprimidos, desempregados, miseráveis, pobres, analfabetos, seria as FFAA estarem solidárias com o POVO, e não fazer de nós seus inimigos.

    O Zé ainda aplaude esta decisão, comprovando que mais temos inimigos na trincheira, que aliados à nossa disposição ou os “calabares” de sempre, os traidores do povo e do país.

  2. Não podemos confundir militares oportunistas dos verdadeiros militares de carreira.
    Bolsonaro soube escolher a dedo o seu vice Mourão. Que tem na mente uma revanche de 64. O tempo passou. Atualmente o Tio Sam só aprova golpes mascarados de legalidade através do legislativo ou do judiciário.
    Isso ocorreu no Paraguai, na Bolívia, no Equador e em 2016 no Brasil.
    Com tanto barraco ocorrendo semanalmente a cúpula militar com certeza já está ciente de que precisa sair à Francesa para não se comprometer por inteiro.

    • Bendl !!!
      Você participou do golpe e contribuiu para eleição deste crápula. Te recordas disso? Eu mesmo te avisei várias vezes sobre este engodo . Tua arrogância não te permitiu acreditar. Bom saber que despertastes. Parabéns.

      • Quinane,

        Que golpe tu me acusas, de eu ter participado?!

        Votar no Bolsonaro e querer que ele vencesse o PT era a vontade da maioria dos eleitores, que elegeu o ex-militar e ex-depurado federal por esta razão, a maior de todas.

        Agora, se eu fui enganado, assim como milhões de brasileiros, faz parte do processo democrático errar o candidato.
        E foi o que aconteceu, lamentavelmente.

        Discordo, veementemente, que fui arrogante à época.
        Querias que eu votasse em quem?
        Haddad?
        Ciro?
        Meirelles?
        Tá brincando, Quinane.

        Um alerta:
        a eleição de Bolsonaro jamais poderá ser assim classificada, que foi um golpe!
        O cara foi eleito pela maioria dos eleitores, e de acordo com a vontade das pessoas que se dirigiram às urnas e lá depositaram seus votos.

        Eleger Bolsonaro não foi golpe, para com isso!
        Golpe é o que está sendo feito conosco por parte dos nossos governantes, poderes legislativo e judiciário, que não moveram uma palha para colaborar com este caos que a pandemia nos colocou, somadas às crises política e econômica!

        Fosse eu arrogante, e eu continuaria defendendo Bolsonaro, conforme seus robôs e sectários neste blog, e não teria me arrependido de votar no atual presidente.

        Agi exatamente com humildade, e reconhecimento pelo erro que cometi.
        No entanto, esta tem sido a sina do povo:
        votar errado, e depois ter de chorar na cama porque lugar quente.

        Aguardo teus comentários sobre os candidatos na próxima eleição.
        Vamos ver quem tu nos indicará como o melhor deles.

        Abraço.

  3. Não é Bolsonaro quem associa as Forças Armadas ao seu governo. São as Forças Armadas que se associaram a uma pocilga de governo.

    Não adianta os agrojornalistas tentarem limpar a barra dos militares. Estes mantém uma relação orgânica com Bolsonaro. São CÚMPLICES. Não pecam por omissão, mas por AÇÃO.

    Não conseguiram se livrar desta mancha em suas reputações.

    • EM TEMPO:

      Continuo aguardando algum militar de alta patente dar as caras (não vale anonimato) e vir a público criticar a atuação do generaleco vagabundo e invertebrado da ativa que ocupa o cargo de Ministro da Saúde.

      Enquanto não o fizerem, o silêncio da corporação significa aprovação e consentimento com o descalabro deste sabujo vagabundo.

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