Com uma oposio dbil e vacilante, o Brasil pode estar caminhando para um regime de partido nico, no pior estilo mexicano. Mas tudo depender de Lula.

Carlos Newton

Nos ltimos meses, jornais e revistas do Brasil e do exterior tm especulado sobre a realidade poltica do Brasil, que mediante o fenmeno Lula parece conduzir para uma situao de partido nico, como aconteceu no Mxico, de 1929 a 2000, no primado do PRI, o Partido Institucional Revolucionrio.

Esta a opinio do cientista poltico Bolvar Lamounier, ao advertir que o Brasil realmente est correndo o risco de se tornar um pas de partido nico, dominado por uma coalizo de governo nico, tese partilhada por grande nmero de analistas, em funo do enfraquecimento da oposio.

A revista norte-americana Newsweek, emartigo sobre as eleies no pas, j assinalou que “o popular presidente Luiz Incio Lula da Silva fez tudo o que a lei permitia, e at um pouco mais (j que foi multado algumas vezes), para destacar sua protegida, a candidata Presidncia Dilma Rousseff (PT)”. E acrescentou: “O resultado o surgimento de um fenmeno poltico, poucas vezes visto na poltica vulcnica da Amrica Latina, de um governo praticamente hegemnico”.

curioso constatar que essa caminhada para o partido nico ocorre paradoxalmentequando o pas enfrenta uma verdadeira inflao partidria, que parece interminvel. A relao oficial do Tribunal Superior Eleitoral registra a existncia de 27 legendas funcionando e recebendo generosos recursos pblicos do Fundo Partidrio.

Mas j aparecem outros 33 partidos em processo de organizao a nvel nacional, dos quais nove legendas j conseguiram registro em Tribunais Regionais Eleitorais, mas ainda esto pleiteando o registro nacional. Uma dessas siglas, curiosamente, a velha UDN, Unio Democrtica Nacional.

Outra legenda em formao tenta reviver o Partido Social Democrtico (PSD), que at o ms passadoera denominado Partido Democrtico Brasileiro (PDB), liderado pelo prefeito de So Paulo, Gilberto Kassab, que pretendia us-lo como trampolim jurdico e burlar a lei, desfiliando-se ao DEM, entrando no PDB,para depois, numa terceira etapa, fundi-lo ao PSB e aderir ao governo Dilma Rousseff. Mas a manobra ficou to acintosa e ridcula, que agora parece que a criao do PSD ser mesmo para valer, e ningum mais sabe se vai apoiar o governo, ficar contra ou pousar em cima do muro.

E a nova UDN, o que ser? Nada. Ambos (PSD e UDN) so pastiches, como o atual PTB, nada a ver com o antigo partido criado por Vargas. So meras tentativas de recriar o passado, mas como farsa, jamais como realidade.

No meio dessa abundncia partidria e eleitoral, h tambm o Partido Militar Brasileiro e o Partido Novo (PN), que teve o estatuto publicado no “Dirio Oficial da Unio” no dia 17 de fevereiro, e pode ser chamado tambm como Partido dos Empresrios. Pelo visto, s falta o Partido dos Banqueiros, mas estes nem precisam de legenda, pois j mandam no Brasil e no mundo.

Por fim, existem tambm outras 15 organizaes polticasconsideradas partidos sem registro, que se aliam a outras legendas, como a influente UDR (Unio Democrtica Ruralista), o esfuziante PBM (Partido Brasileiro da Maconha) e os ultrarrevolucionrios PCML (Partido Comunista Marxista-Leninista) e a LBI (Liga Bolchevique Internacional).

Com tantas legendas, literalmente para dar e vender, a ameaa do partido nico de fato existe no Brasil, sobretudo devido flagrante fraqueza e timidez da oposio, que no tem lderes nem consistncia. O senador tucano Acio Neves e o democrata Jos Agripino at que tm se esforado, mas no conseguem repercusso, embora no falte assunto, pois a corrupo e a negligncia com os recursos pblicos h tempos se tornaram rotina na vida poltica, englobando os trs Poderes. Ontem, Aecio estreou na tribuna do Senado, criticando o PT, mas a repercusso junto ao eleitorado mnima.

Como diz Caetano Veloso, so Podres Poderes. Ningum sabe qual o pior, se o Executivo, o Legislativo ou o Judicirio. Alis, nunca antes neste pas a podrido dominou tanto, nos trs Poderes e nos trs nveis administrativos: municipal, estadual e federal.

No caso do governo federal, temos um partido de trabalhadores que realmente est sustentado por uma baseintegrada pelo que h de pior na poltica: Jos Sarney, Romero Juc, Eduardo Cunha, Joo Paulo Cunha, Edson Lobo, Henrique Eduardo Alves, Geddel Vieira Lima, Waldemar Costa Neto, Ivo Cassol, Gim Argello, Newton Cardoso, Paulo Maluf , Zequinha Sarney, Jader Barbalho (que j vem a) e companhia ilimitada, digamos assim, porque no se trata de uma sociedade annima de corruptos, mas de uma formao de quadrilha totalmente declarada.

E aparecem sempre novos valores, como o governador Agnelo Queiroz (PT), envolvido em denncias de Caixa 2 de campanha,e os ministros Carlos Lupi (PDT) e Orlando Silva (PCdoB), que usam verbas pblicas para beneficiar correligionrios. E j amos esquecendodo octogenrio ministro Pedro Novais (PMDB), aquele que pagou a festa no motel com recursos da Cmara.

Mas a oposio no aproveita essa realidade que salta vista de qualquer observador. Nota-se claramente que o fenmeno Lula esmagou a oposio. um sinal dos tempos. Se acontecessem tantas trapalhadas em qualquer outro governo, seria facilmente derrubado. Imagine-se, por exemplo, Juscelino Kubitschek criando um mensalo ou mandando injetar recursos pblicos num banco falido como o PanAmericano, de Silvio Santos? No se seguraria uma semana.

Mas a consolidao de um regime de partido nico, que seria um desastre sem precedentes para este pas,depende Lula. Se ele for o candidato do PT em 2014, uma realidade. Se for a presidente Dilma, outra realidade. Se os dois ainda estiverem unidos, uma realidade. Se at l os dois tiverem rompido e Dilma enfrentar Lula nas urnas, filiada a outro partido, outra realidade. Traduzindo: tudo depende de Lula. Para a oposio, ele ainda uma esfinge, dizendo: Decifra-me ou te devoro.

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