Comentarista recomenda a todos: No hospital, cuidado com “a prescrição”

 Ofelia Alvarenga

Um parente ia fazer colonoscopia e endoscopia digestiva. Internou-se.  Estava lá, na papeleta, que ele deveria receber dois tipos de soro, glicosado e Ringer Lactato, em paralelo.

A auxiliar de enfermagem, mocinha simpática, bonitinha e prestimosa, trouxe os dois soros. Um deles deixou sobre a mesinha e disse: “Quando este terminar (o que já estava correndo), venho botar o outro, o soro é para ser usado em paralelo”. Meu parente:  “Em paralelo é junto, os dois ao mesmo tempo”. E ela: “Não, é primeiro um e depois o outro”. O parente, engenheiro: “Não, isto que você falou é sequencial”. A mocinha, a essa altura um tanto sem jeito, foi lá dentro ‘verificar a prescrição’, voltou e botou os dois soros para gotejar em harmonia.

Se a mocinha não fosse tão mocinha teria ouvido Belchior, em “Paralelas”, e saberia que os dois soros só poderiam estar um ao lado do outro.

 Este é apenas um dos exemplos do que ocorre com essa categoria, a dos auxiliares de enfermagem, da qual os doentes precisam tanto. Sim, porque os médicos operam, passam visita, mas quem está no dia e noite com o paciente, quem faz o hospital andar são eles.

Não sei quanto ganham em média. Trabalham 12h X 24h ou 12h X 36h, acho, não estou bem informada. Mas no dia ou nos dias de folga aproveitam o descanso remunerado aqui para trabalhar ali. Ou trabalham em outro hospital ou fazem o que se chama de ‘enfermagem’ particular. Parecem viver um estresse sem tamanho. Porque dão banho, mudam roupa de cama e do paciente, ‘pegam’ a veia,  trocam soro, dão injeção, distribuem remédios, verificam pressão arterial e temperatura axilar.

E aí, por conta do estresse natural da profissão e da desinformação do tipo ‘em paralelo e sequencial’, graças aos cursinhos ligeiros que os habilitam ao ofício, fazem trocas estranhas ou absurdas.

Em um dos três melhores hospitais do Rio, pouco antes de dormirmos (meu parente havia operado a vesícula), o auxiliar de enfermagem entrou no quarto com a medicação noturna. “Trouxe sua injeção para tal coisa, seu Capoten e o Ancoron. “Ancoron?”, eu e meu parente perguntamos em uníssono. E ele: “É, Ancoron, está na prescrição”. “Mas eu (ele) não tomo (toma) Ancoron!”, falamos juntos mais uma vez, eu e meu parente. O auxiliar de enfermagem: “Está na prescrição, o senhor não quer tomar, vou ver lá dentro”. Foi e voltou pedindo desculpas: “Ainda bem que falei com o senhor o nome do remédio. Não é Ancoron. O rapaz da farmácia (?) não entendeu a letra do médico”. Era o segundo dia de internação.  E por aí foram as demais horas que passamos no hospital.

Aprendemos que quando eles dizem pressão 13 X 8 esta é uma ‘pressão tranquilizadora’. Mas eu e meu parente desconfiamos que nem sempre todos sabem verificar a pressão ou têm paciência para levar a missão a cabo. Bombeiam e soltam o ar do aparelho com tamanha velocidade que é impossível ver ponteirinho batendo. Mesmo assim sorrimos complacentes quando ouvimos “13 X 8”.

E o termômetro? Ele esquenta tão pouco embaixo do braço do paciente que precisaria usar um viagra mercurial para subir.

Nós nos acostumamos com quase tudo, até a pedir que trocassem o soro que estava acabando para não botar outro no meio da noite. Ficamos bem.

Meu pai teve mais sorte, no sentido curioso do atendimento.  A auxiliar de enfermagem que o atendeu após uma cirurgia era freira. Ela chegou ao quarto, começou a descer a coberta. E meu pai, que havia feito operação de próstata (adenoma benigno) por via transuretral, alarmou-se: “Irmã”, disse ele, tentando impedir que ela levantasse o lençol, “eu estou todo descomposto”. E ela, sem deter a mão: “Não se preocupe, meu filho. Tudo o que Deus faz é bonito”.

***

PS – Helio Fernandes, cadê você? Prometeu voltar a escrever depois do carnaval, já vamos para o Sábado de Aleluia, e nada. Estamos esperando, ansiosos.

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