Comissão da Mentira

Sebastião Nery

Quando o presidente Ernesto Geisel, em janeiro de 1976, demitiu o general Ednardo D’Avila do comando do II Exercito por causa das mortes de Vladimir Herzog e Fiel Filho nas dependências do DOI-CODI paulista, um dos quatro comandantes nacionais do Exército procurou o general Reinaldo Melo de Almeida, comandante do I Exercito no Rio e filho do grande escritor e político brasileiro José Américo de Almeida:

– Não se demite um general pelo telex. Precisamos dizer isso ao Presidente. Vamos ao ministro Silvio Frota e ele falará em nosso nome.

– Mas quem assumirá a Presidência da República?

– Não se trata de derrubar. Trata-se de criticar como ele agiu.

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GEISEL

O general Reinaldo não concordou :

– Nós todos conhecemos o Presidente. Ele está lá porque o Exercito o pôs. É o nosso delegado. Age em nosso nome. Na hora em que tentarmos desautorizá-lo, em hipótese nenhuma ele vai aceitar a reprimenda. E a conseqüência inevitável será a crise e a medida de forças.

– Então, o que vamos fazer?

– Nada. Respeitar a delegação, o poder e a decisão do Presidente. Até para salvar a nação. No Brasil, nunca houve crise de poder sem que o povo fosse para as ruas. Se provocarmos uma luta pelo poder, o povo irá fatalmente para as ruas.

Parou um pouco, pensou e concluiu:

– E eu não vou mandar metralhar a Central do Brasil e o Fundão.

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DILMA

O Brasil está vivendo uma grave encruzilhada. A coragem, determinação e autoridade da exemplar presidente Dilma Rousseff criaram a Comissão da Verdade, para uma tarefa histórica e inadiável : apurar e documentar as violências, torturas, assassinatos, desaparecimentos, praticados pelos governos, pelo Estado brasileiro, de 1945 até hoje, sobretudo durante os 20 anos da ditadura militar, de 1964 1984.

Já que os principais centros de tortura e morte estavam instalados nos quartéis das Forcas Armadas ou das Policias Militares por elas comandadas, é inevitável que as historias dos gritos, do sangue e dos cadáveres escorram por baixo dos negros e pesados portões militares.

E cada dia, nos jornais, começam a surgir entrevistas, protestos, artigos de militares tentando inviabilizar a Comissão da Verdade e criar uma Comissão da Mentira. Mas a Historia é implacável. Por mais que consigam por algum tempo enterrá-la, ninguém a sepulta para sempre.

E um dia o castigo virá, inexorável.

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GONDIM

Bom seria se todas as historias fossem bravas como a do general Reinaldo ou apenas rídículas como a do ”Adelita”, o general Lira Tavares, que conto a seguir. Ninguém ia querer inviabilizar a Comissão da Verdade.

Dia 6 de fevereiro de 1969, cinco da tarde. Na rua Buenos Aires, no Rio, encontram-se os governadores Aluizio Alves, do Rio Grande do Norte, e Pedro Gondim, da Paraiba. O AI-5, assinado pelo general Costa e Silva em 13 de dezembro, continuava cortando cabeças e apavorando o país de norte a sul.

Aluizio Alves surpreendeu-se com a euforia de Pedro Gondim:

– Tudo bem com você, Gondim? Jogaram o país num despenhadeiro de boatos. Ninguém mais tem segurança de nada. Não se pode trabalhar.

– Aluizio, eu resolvi meu problema. Fui logo a Deus. Procurei o general Lira Tavares , ministro da Guerra, amigo de meu pai. Ele foi muito atencioso comigo. Ele me disse: – “Olhe, governador, como paraibano, também sou seu governado. Desde a infância, sempre fui amigo de seu pai. Gostava muito dele. Não se importe com os rumores. Deixe os boatos circularem. Volte para a Paraiba e cuide de nosso Estado. Eu lhe asseguro que nada acontecerá. Se o senhor tiver que ser cassado, também eu serei.

– Ele lhe disse isso?

– Disse isso e mais ainda. Estou viajando agora para João Pessoa, tranqüilo. Vou tapar a boca dos que dizem que vou ser cassado.

Viajou. No dia seguinte, 7 de fevereiro, Pedro Gondim, o filho do amigo do general Lira Tavares e governador da Paraiba, foi cassado.

O general não foi cassado e ganhou a Embaixada do Brasil em Paris.

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