Como dizia Rubem Braga, a poesia é necessária

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AOS VIVOS

Bernardo Vilhena

(dedicado a Waly Salomão, na Coyote 23)

Não gosto dos mortos sérios
respeitáveis.
Sou mais chegado
aos mortos escrachados
debochados
que riram muito de tudo
de todos
e muito mais de si mesmos

Gosto de mortos
que aproveitaram a vida
arriscaram a vida
trataram-na com desdém

Gosto dos mortos
que amaram mulheres
amigos, vinho e poesia

Gosto dos mortos
que viveram e deixaram viver.
Saíram do sufoco
sem sufocar ninguém

Gosto dos mortos
que fizeram da vida um aprendizado
viveram o presente
flertaram com o passado
e lutaram para tornar menos duro
o tal do futuro

Gosto dos mortos que foram otários
ficaram por cima
ficaram por baixo
tiraram onda
foram capachos
sem se importar com o disse me disse
com o acho não acho.

Gosto dos mortos
que fizeram do riso uma arma
da música um bálsamo
da palavra um aviso

Gosto dos mortos vivos
não imortais, não zumbis
mas aqueles que cada um de nós
guarda com carinho uma frase
uma expressão de face
um conselho de amigo.

Gosto dos mortos
que enfrentaram perigos
venceram desafios
perderam feio
e ganharam bonito
que nos ensinaram
a perdoar, a conviver
a libertar

Gosto dos mortos
que nos livraram dos medos
dos preconceitos, da miséria
da ignorância

Gosto dos mortos modernos
que nos fizeram perder o medo do inferno
que transformaram tentação em sensação
como se o alfabeto recuasse uma casa
e a vida avançasse duas

Gosto dos mortos ativos
que nos ensinaram a ficar vivos
mesmo que estejamos pobres
sozinhos, deserdados.

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