Como dizia Rubem Braga, a poesia é necessária. Drummond, mais ainda.

Paulo Nührich

Diariamente leio vocês e igualmente divulgo entre meus amigos que busquem ler o site da TI. Este domingo, 27 de maio, estaremos lembrando a publicação que ocorreu no “Diário de Notícias” feita pelo poeta Carlos Drummond de Andrade. Ele publicou o

“Apelo”, que foi um texto dirigido ao marechal Castello Branco em defesa de Nara Leão, após a entrevista dada por ela dias antes, quando criticou duramente os militares e a revolução de 1964. Circulavam informações que a vontade dos militares seria prender a grande cantora Nara Leão.

A publicação ocorreu em 27 de maio de 1966. Em tempos de Comissão da Verdade considero muito importante e necessário sua publicação.

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APELO

Carlos Drummond de Andrade

Meu honrado marechal
dirigente da nação,
venho fazer-lhe um apelo:
não prenda Nara Leão (…)
A menina disse coisas
de causar estremeção?
Pois a voz de uma garota
abala a Revolução?
Narinha quis separar
o civil do capitão?
Em nossa ordem social
lançar desagregação?
Será que ela tem na fala,
mais do que charme, canhão?
Ou pensam que, pelo nome,
em vez de Nara, é leão? (…)
Que disse a mocinha, enfim,
De inspirado pelo Cão?
Que é pela paz e amor
e contra a destruição?
Deu seu palpite em política,
favorável à eleição
de um bom paisano – isso é crime,
acaso, de alta traição?
E depois, se não há preso
político, na ocasião,
por que fazer da menina
uma única exceção? (…)
Nara é pássaro, sabia?
E nem adianta prisão
para a voz que, pelos ares,
espalha sua canção.
Meu ilustre marechal
dirigente da nação,
não deixe, nem de brinquedo,
que prendam Nara Leão.

(Poema enviado pelo comentarista e poeta Batista Filho)

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