Como eram as campanhas

 Carlos Chagas                                    

Senão todos os municípios do país, mais da metade Jânio Quadros visitou, em sua campanha presidencial  de 1960. A bordo de um DC-3 cedido pela Varig, acompanhado de políticos da região que visitava, mais  uma penca de jornalistas, ele chegava à média de cinco palanques por dia. O avião descia em qualquer campo de futebol e, na medida do possível, o candidato encerrava a jornada numa capital ou cidade grande, onde milhares de pessoas o aguardavam. Nos estados do Sudeste e do Sul, não raro utilizava-se de um trem especial, parando em cada pequena estação sempre com o mesmo discurso, já decorado por nós, repórteres. 

Sua mensagem era centrada no combate à corrupção e na necessidade de os ladrões da coisa pública (não se falava ainda de colarinho branco) irem parar na cadeia. Denunciava o uso que os governos faziam da Previdência Social e criticava a forma com que o Banco do Brasil financiava a produção industrial e a agricultura, para ele apenas em favor das grandes  empresas. Apelava para a classe média mas não esquecia o trabalhador do campo ou das fábricas, todos sacrificados, que ele iria redimir. Apesar de adversário ferrenho do então presidente Juscelino Kubitschek,  jamais pronunciou seu nome de forma pejorativa, nem mesmo nas entrevistas que concedia aos montes, durante os prolongados vôos. Naquela época o trajeto  entre Fortaleza e o Rio, por exemplo, levava de oito a nove horas. 

Depois de mais ou menos uma hora discursando, com uma oratória raras vezes igualada em nossa crônica,  tínhamos de ficar atentos. Quando Jânio  se voltava para o fundo do palanque lotado, abrindo os braços para uma humilde dona Eloá, sua mulher, aproximar-se, era hora de corrermos para o aeroporto. A  senha,  uma só: depois de beijar a sacrificada senhora, ele repetia: “Eloá me pediu para dirigir a última palavra à mulher brasileira, a verdadeira dona da vassoura…” Ao mesmo tempo um auxiliar pressuroso já havia colocado uma, na sua mão direita,  que ele acenava inúmeras vezes para despertar  frenéticos urros  da multidão. 

Naquela hora já deveríamos estar em táxis, caronas, motocicletas  ou quaisquer  outros meios para chegarmos ao aeroporto antes dele. Tínhamos que entrar e esperar, porque quando Jânio entrava, mandava fechar imediatamente a porta da aeronave, com os motores funcionando.  Quem se atrasava ficava, como aconteceu com o secretário particular José Aparecido de Oliveira, deixado para trás em Quixadá, no Ceará. Levou  dois dias para reunir-se outra vez à comitiva, por falta de meios… 

Essas histórias e muitas outras se contam para os mais jovens terem noção do  Brasil daqueles idos. Cinco, seis ou mais matérias eram  preparadas por cada um de nós durante as viagens, redigidas em pequenas máquinas de escrever portáteis.  No último pouso do dia, depois do derradeiro comício, cabia-nos buscar o posto telefônico local, já que a maioria dos hotéis, mesmo nas capitais, careciam, nos quartos,  de telefones disponíveis para ligações interestaduais. Formava-se uma fila de jornalistas, entrando pela madrugada, com uma compensação: os que ficavam por último perderiam mais  horas de sono, mas  tinham ouvido as notícias  dos concorrentes, todas transmitidas aos berros porque nem microondas existiam, quanto mais satélites. Era normal  a telefonista de Manaus chamar a de Belém, esta a de Fortaleza, aquela  a de Recife, Salvador e finalmente o Rio ou São Paulo, sede dos jornais. Imagine-se a qualidade do som diluído nas linhas telefônicas e captado sabe-se lá como. 

Certa vez Jânio decidiu passar um dia inteiro no Rio, já ex-capital federal mas centro político nacional. Hospedava-se no Hotel Glória e, de manhã bem cedo, foi à missa na Igreja da Glória. Comungou, contrito, em seguida voltou ao hotel para  demorado  café com empresários. Um erro de agenda marcava outra missa, na Igreja da Candelária, rezada pelo cardeal D. Jaime Câmara. Pouco afeito à  liturgia, comungou de novo, o que constituía um sacrilégio. Foi visitar a favela da Mangueira, subindo estreitas vielas e  confraternizando com os   moradores. Depois, um encontro com dirigentes da UDN, partido que o apoiava, no centro da cidade.  E um churrasco na Tijuca,  onde o anfitrião, chefe político local, reservou um quarto no velho palacete, para pequeno descanso.

Mas às cinco  da tarde havia a convenção nacional do PR, partido que decidira aderir à candidatura. Novos discursos, empolgação indiscutível, no auditório da ABI.  De lá para o  ato final do dia, ou da noite, um comício-monstro da Praça Saenz Peña, de volta à Tijuca. Tudo terminado às onze horas, retornei à redação de O Globo para redigir oito reportagens distintas, entre os pronunciamentos, declarações e entrevistas de Jânio e dos políticos que o cercavam, sem esquecer os textos de clima e reação popular. 

Eram quatro da madrugada de segunda-feira quando entreguei  o último texto.   Ia saindo, meio zonzo de sono e de cansaço, quando o secretário de redação indaga-me se não tinha alguma sugestão para a manchete daquele dia, dada a fraqueza do noticiário internacional. Revi as anotações e sugeri  que de novidade, mesmo, só o anúncio feito por Jânio no comício da Tijuca, anunciando “imensa vassourada na Presidência da República”. Dito e feito, fui para casa dormir. Eram sete horas quando o telefone toca. Nada menos do que Roberto Marinho, do outro lado do fio, exigindo que eu estivesse em seu gabinete imediatamente. Passando pela redação, senti-me como um réprobo a caminho da fogueira. Companheiros viravam-me as costas ou cochichavam,  quando entrei na sala do patrão. Recebí uma das maiores reprimendas da curta vida profissional. Jânio Quadros havia telefonado para Roberto Marinho dizendo horrores e   ameaçando romper com O Globo, que não teria nada no seu governo, porque estava sabotando sua candidatura. 

Acontece que na noite anterior  o candidato havia apenas repetido o que prometia no país inteiro: uma imensa vassourada na Previdência Social, jamais na Presidência da República. Enganei-me com as anotações. Preparei-me para o pior, que seria a demissão imediata. Ficaria desempregado,  já de casamento marcado. Roberto Marinho, ainda bufando por conta da  imperdoável falha, completou: “jamais entregue  uma matéria sem antes reler tudo o que escreveu. Muita coisa pode ser evitada com essa cautela. E vá trabalhar!”

Fui, sigo até hoje o conselho do patriarca. Nunca tentei  explicar o erro pelo acúmulo de trabalho. Foi erro mesmo…

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