Como Ian McEwan abordou “sexo”, “tabu” e ‘falta de comunicação” em menos de 200 páginas

Livro Na Praia - Ian Mcewan | Mercado LivreJúlia de Aquino
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“Eram jovens, educados e ambos virgens nessa noite de núpcias, e viviam num tempo em que conversa sobre dificuldades sexuais era simplesmente impossível”

O livro “Na praia” foi meu último lido de 2020. Ele me surpreendeu tanto que entrou na minha lista de “5 melhores do ano”, mesmo eu tendo lido 42 antes dele. Realmente uma obra incrível que merece ser lida – ou pelo menos conhecida – por todos.

A TRAMA – Edward e Florence estão em sua noite de núpcias. O ano é 1962, véspera da revolução sexual e de costumes que abalou a década de 60.

Enquanto acompanhamos a mistura de desejo, pudor, ímpeto e falta de jeito do casal, vemos que eles não estão a sós no quarto: vão com eles a trajetória pessoal de cada um, suas alegrias, perdas e tudo que os formou.

ESCRITA E ESTÉTICAPode ser que o tamanho do livro – pequeno, com menos de 200 páginas – engane, pois de certa forma “esconde” a preciosidade de seu conteúdo.

A escrita de McEwan é completa e muito rica: as frases são longas e exigem que estejamos atentos à história. Mas tal característica mostra-se excelente, porque mergulhamos na narrativa e no pensamento dos personagens (tanto de Edward quanto de Florence).

A estética da escrita é perfeita. A impressão que dá é que o autor junta as palavras que conhecemos, mas de uma forma que não imaginamos ser possível. Ao final dessa publicação, separei alguns trechos que me marcaram e que deixam evidente essa peculiaridade de McEwan.

PERSONAGENS E CONTEXTO Por essa estética e forma de escrita, a narrativa nos mostra como os sentimentos dos personagens são profundos e, de certa forma, apropriados, tendo em vista a situação em que se encontram e a falta de informação com a qual foram criados.

A obra também é uma ótima opção para quem gosta de conhecer os costumes das décadas passadas. Aqui, o grande tabu é o sexo.

A juventude dos personagens é tão diferente da que conhecemos atualmente que nos impressiona e nos instiga a ler. Edward e Florence são um casal que não conversam sobre o assunto e que não sabem nem como pensar nele. Prova disso é a timidez de Edward e a insegurança de Florence, que a todo instante tenta se lembrar do que leu no “Manual para noivas” (algo impensável nos dias atuais).

FALTA DE COMUNICAÇÃO Essa ausência de conversa entre os dois aponta para mais uma questão abordada no livro: a falta de comunicação. Trata-se de um aspecto muito comentado hoje em dia, em relação a todas as esferas sociais (Política, Economia, Redes Sociais, Mídia etc.), pois a Comunicação sempre foi algo necessário. No casamento, isso não é diferente, e ela pode definir a trajetória de um casal – positiva ou negativamente.

Ian McEwan nos faz refletir sobre isso com maestria, sem assinalar o tema de forma direta. É através das percepções de Edward e Florence e da situação incômoda que se instalou entre eles que ele nos leva a pensar como tudo poderia ser diferente se fosse verbalizado. 

BOA LEITURA E ÓTIMO PRESENTE Ainda que um pouco denso, o livro é curto, com capítulos curtos. Quando vemos, já estamos no fim (que é bem surpreendente, por sinal). Como já comentei, é uma leitura diferente das que costumo fazer, mas certamente muito marcante.

Já se tornou um dos favoritos e que com certeza recomendo para todos (talvez não para os que estão começando com o hábito da leitura agora). Ele me marcou de muitas formas positivas e, por isso, considero uma boa opção para presentear alguém.

Livro: Na praia
Autor: Ian McEwan
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 134

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TRECHOS MARCANTES

  • “Este ainda era o tempo – que terminaria naquela década célebre – em que ser jovem era um estorvo social, um sinal de irrelevância, uma condição ligeiramente embaraçosa para qual o casamento era o começo da cura”.
  • “Estava sozinha com um problema que não sabia nem como começar a enfrentar, e toda a sabedoria que lhe restava se resumia ao manual para noivas”.
  • “Os anos 60 era a primeira década da vida deles como adultos, e certamente lhes pertencia”.
  • “Vivera todos esses anos isolada consigo mesma e, curiosamente, isolada de si mesma, nunca querendo ou ousando olhar para trás”.
  • “Era uma sensação solitária que ele experimentava, e por isso se sentia culpado, mas a audácia daquela sensação também o excitava”.
  • “Saber do acidente da mãe naquele dia não mudou nada visivelmente, mas todos os deslocamentos e realinhamentos de sua vida pareceram se cristalizar em torno desse novo dado”.
  • “É constrangedor como às vezes o corpo não mente, ou não pode mentir, sobre as sensações”.
  • “Tentava não pensar no futuro imediato, nem o passado, e se imaginava agarrada àquele momento, ao precioso presente, como um alpinista sem cordas num penhasco, a esmagar o rosto contra a pedra, sem coragem de se mexer”.
  • “Ela queria estar apaixonada sem deixar de ser ela mesma. Mas, para ser ela mesma, tinha de dizer não o tempo inteiro. E aí já não era ela”.

4 thoughts on “Como Ian McEwan abordou “sexo”, “tabu” e ‘falta de comunicação” em menos de 200 páginas

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