Como ler me faz bem: mostra o Brasil, esse desconhecido

Sandra Starling

Intoxicada pela atmosfera de sucessivos escândalos e pela perigosa olimpíada travada entre petistas e tucanos – cada qual apontando no outro falcatruas jamais reveladas –, resolvo dar meia volta e apostar em algo que sempre gostei de fazer. Voltei aos bancos escolares.

O ano já ia quase a pique, de modo que o jeito foi buscar um minicurso, desses de extensão, que a Universidade de Brasília oferece. Dei uma tremenda sorte: inscrevi-me para fazer leituras sobre o teatro de Nelson Rodrigues com um professor notoriamente reconhecido por seus vastos conhecimentos sobre o assunto. Ele se chama Fernando Marques e teve editada pela própria UNB sua tese “A Comicidade da Desilusão – Humor nas Tragédias Cariocas de Nelson Rodrigues”.

Simplesmente indescritível. Além de mergulhar no mundo de Nelson: complexo, visceralmente humano e obsessivo (e o que não é obsessão na vida?!), fiquei perplexa com como as pessoas podem elas mesmas ser algo e seu oposto, “um escritor de pistas falsas em vários sentidos”, como se lê na orelha do volume de “Memórias: A Menina sem Estrela”. E acabei produzindo trabalho de conclusão do curso sem conseguir concluir se seu teatro é diatribe, ousada denúncia de temas proibidos na humanidade, ou se meramente pretende levar multidões a fazer sua catarse minúscula, individual, colocando no palco, como ele próprio diz, aquilo que cada um carrega dentro de si e que não pode realizar sem explodir a própria sociedade…

REVER VERDADES

Claro que minha leitura teve também todo um outro contexto – este de fundas raízes em minha própria vida –, que foi rever (ou ver pela primeira vez?) verdades nunca antes por mim percebidas.

Aliás, mal e porcamente percebidas, porque, tentando escrever minhas memórias, já havia descoberto que Juscelino Kubitschek havia mandado aplicar a censura da ditadura varguista para impedir Billy Blanco de divulgar sua música contra a mudança da capital: “Não vou, não vou pra Brasília, nem eu nem minha família…”. Quem diria, hein, nosso grande democrata também sujou sua memória quando isso lhe foi conveniente!… Então, eu já sabia que, na redemocratização de 1946, depois do Estado Novo, as coisas se passaram como até hoje, no pós-1964 no Brasil: a transição, sempre controlada, vai deixando seus restos de tirania espalhados aqui e acolá. Não há outra maneira de explicar a censura sistematicamente imposta às peças de Nelson Rodrigues.

Uma das quais, para meu espanto, censurada no final dos anos 1940, acabou sendo levada à cena em plena ditadura militar, em 1967, a mais que escandalosa (no bom sentido da palavra) “Álbum de Família”!

Vou continuar a me envolver com esse monstro literário, mas já começo também a me enamorar de outro monstro, que há anos me espreita, esquecido na estante: Clarice Lispector. Começo pela biografia de Benjamim Moser, que vai também revelando a mim, brasileira de nascença, verdades nunca sabidas sobre meu país.

Afinal, esse pode ser um bom truque para enfrentar a baixaria que já se anuncia nas próximas eleições.

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