Como o lixo, varrer também os governantes

Carlos Chagas

O mundo inteiro está transbordando de imagens do carnaval que passou. Não há um monitor de televisão, uma tela de cinema ou uma dessas variadas e diabólicas maquininhas eletrônicas que, em todos os continentes,  não apresente os espetáculos das escolas de samba, blocos, bailes e sucedâneos de toda espécie, com ênfase para as mocinhas  cada vez menos vestidas e, por isso, mais apreciadas. Um cartão postal do Brasil, do Rio, de Salvador e de  outras capitais, mostra as várias faces de uma alegria contagiante e de um povo feliz.

Ponto para nós, às vésperas de outra obrigatória concentração das atenções gerais, a Copa do Mundo de futebol. Uma forma de contrabalançar as  imagens de fome, miséria, violência  e doença que nos assolam,  além das  manifestações de protesto por segmentos da população brasileira, eivadas de depredações, invasões, agressões e até mortes.

Mesmo assim o saldo seria  positivo, graças ao  carnaval, não fosse…  Não fosse o espetáculo deprimente, grotesco e pré-histórico do lixo acumulado nas ruas, avenidas e praças da antiga capital do país. Para qualquer cidadão da China, da África e da Europa, para não falar de nós mesmos, trata-se da  constatação de ser o Brasil uma nação em frangalhos. Se o poder público carece de meios para garantir um dos mais elementares serviços públicos que a Humanidade construiu ao longo dos séculos, melhor esquecer que fazemos parte dela. O monte de lixo acumulado numa de nossas maiores concentrações urbanas já depõe contra a população que o produziu sem os cuidados inerentes à civilização, de limitá-los.

Pior fica quando se constata a ausência deliberada da categoria cuja obrigação seria limpar a sujeira. Injustiças sociais e econômicas  verificadas contra o garis jamais  justificariam que cruzassem os braços. Foram contratados para limpar. Se estimulam e  cultivam a sujeira, o mínimo a fazer, mesmo diante dos sacrifícios a que são  submetidos,  seria demiti-los. Certas atividades  precisam  estar proibidas de fazer greve. As polícias, os juízes, os militares, os encarregados dos sistemas de distribuição de água e de luz. Até mesmo os que cuidam dos transportes coletivos. Como também os garis.

O mal que o acúmulo da sujeira impõe aos cariocas precisará ser medido ao longo das próximas semanas. A proliferação de doenças já se faz sentir. O mau cheiro invade as casas e dá  dividendos com a inevitável aparição de ratos, mosquitos e, não demora,  epidemias. Numa cidade e até num estado onde tamanha vergonha acontece, o mínimo a concluir é pela  inexistência de autoridade pública. Como o lixo dos últimos dias, deveriam ser varridos também os governantes.

CARNAVALESCOS

O carnaval terminou na terça-feira. Dando de barato, ao meio-dia da quarta-feira. Pois quinta e sexta, vazio quase completo na Câmara e no Senado. Hoje é sábado, amanhã  domingo, e depois segunda-feira, quando deputados e senadores também  estarão ausentes. Para muita gente, só então  começará o ano político-partidário. É bom tomar cuidado, pois em quarenta dias vem  a Semana Santa. Depois, a Copa do Mundo de futebol.

2 thoughts on “Como o lixo, varrer também os governantes

  1. descordo de tudo. todas categorias podem fazer greve quando bem entenderem desde que não paralisem por completo o serviço,inclusive jornalistas. afinal por que esta categoria nunca vez greve? ganham bem ou sempre ficam a favor dos patrões, eis a questão. é muito fácil criticar quem faz a greve quando vivemos outra realidade. os bm no rj, por ex . cabral quis marginalizar a categoria depois quando a população ficou a favor dos militares mudou o discurso. quem têm fome têm pressa e não é rua suja por um período que vai fazer a população ficar contra os garis.
    é por essa e por outras, que editoriais fajutas e opiniões que não expressão a maioria que em 64 fizeram acreditar que o povo estava contra o presidente eleito

  2. Prezado e ínclito jornalista:

    A greve é o último recurso do trabalhador, quando a negociação não é mais possível com o patronato, que realmente dá a última palavra. O sindicato, me parece nesse caso, não representou os trabalhadores a contento, pelo menos na questão do aumento salarial. As vezes, o ganho social vale mais do que o aumento no contracheque, por exemplo: Plano de Saúde de qualidade, aumento da insalubridade no patamar máximo, Plano dentário, aumento do tíquet alimentação, enfim, sempre há uma maneira de melhorar os ganhos decorrentes da atividade produtiva.

    Agora, partiram para o confronto encerrando as conversas e somadas as ameaças de demissão em massa, o impasse se estabeleceu e a população está sendo prejudicada. No entanto, vemos que o povo não está colaborando. Mesmo sem o período de greves, jogam lixo nas ruas embaladas em sacos de supermercados, nos córregos, nas calçadas e aí fica um mal cheiro insuportável, quando não ateiam fogo em tudo causando poluição insuportável, isso sim, motivo de doenças como alergia e bronquite.

    O prefeito foi pego jogando lixo a esmo, um péssimo exemplo para a população, que já tem o hábito de tudo jogar fora das lixeiras, que vândalos teimam em quebrar dando vazão as suas neuroses.

    Entretanto, ao ler a entrevista do prefeito hoje, no jornalão carioca, fiquei com uma pulga atrás da orelha. Ele pontuou que não privatizará a Comlurb de jeito nenhum. Ora, como surgiu esse assunto em pauta, do nada? Creio que não. Somente as capitais do Rio de Janeiro, Florianópolis e Goiânia, mantém o serviço público (empresa estatal) de coleta e destinação do lixo, todas as outras são privatizadas. Vamos ver para crer, pois quando um político diz que sim, na verdade está querendo dizer não.

    Nós, os eleitores, votamos em propostas, que são repetidas a exaustão na campanha eleitoral. Nosso candidato é eleito e depois jogam tudo que disseram na lata do lixo, fazendo exatamente o contrário do que afirmavam antes de eleitos. Promessas vãs. Teve um presidente que até repetiu depois de empossado: Esqueçam o que eu falei.

    Que fazer?

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