Como será o amanhã no Rio de Janeiro?

Pedro do Coutto

Recorro à imagem contida no conhecido samba para refletir sobre o Day after (o dia seguinte) do cerco ao Complexo do Alemão, episódio que fica na história do Rio e que culminou com o apoio entusiasmado da população, e ao desfecho que, em sua essência, leva à sensação de liberdade e descompressão. Mas isso não basta. A partir do ponto em que as coisas atingiram (e revelaram) é preciso dar sequência concreta às ações policiais e militares. Não se pode ficar apenas nas cenas de realismo que a televisão e os jornais registraram. A sociedade, inclusive a brasileira, atingida pela guerra da Penha, não pode virar a página do drama como se saísse de uma sessão de cinema.

A continuidade lógica do desempenho da lei tem que entrar no roteiro das autoridades públicas, a começar pelo governador Sergio Cabral, responsável maior pela ordem no território carioca e fluminense. Tem que reprimir firmemente a desordem. Nem ele, nem sua equipe, tampouco os habitantes da capital do estado podem ter seu pensamento restrito à retirada da grande maioria dos bandidos que, pelo império do medo que implantaram, dominavam um contingente humano de 400 mil pessoas.

Não podem porque há muitas outras fortalezas do tráfico de pé. A cidade possui mais de 900 favelas. E – ninguém se iluda – cada reduto sombrio do crime organizado tentará suceder os líderes fugitivos e destroçados do Alemão. Cada reduto armado e cheio de entorpecentes é candidato a se transformar em nova matriz do tráfico, usina de crimes e criminosos. 

Ontem, neste site, afirmei que a batalha estratégica começou  com a rendição de domingo. Começou, porém a prazo curto não terá solução plena se o governo do RJ afrouxar sua atuação comemorando a página transposta. Há um verdadeiro romance pela frente. São indispensáveis o propósito, o compromisso com o coletivo, a esperança na construção do futuro.

Como disse o Secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, em entrevista domingo à noite a Paulo Henrique Amorim, Rede Record, chega de pirotecnia, chega de hipocrisia, chega de varrer o lixo para debaixo do tapete. Não sei a quem Beltrame se dirigia mais especificamente, mas suas palavras tinham a força da verdade. Isso porque soluções paliativas, conformistas, conservadoras, são partes das peças montadas para o teatro do não resolver nada. Um jogo de cena. Uma pose para a arquibancada, como se dizia antigamente quanto a certas situações escapistas do futebol.

Há um envolvimento político de porte rondando o tráfico de drogas e a contravenção. Começa pelo fato de autoridades públicas não poderem conviver, muito menos confraternizar, com o lado oposto da lei. Esta pacificação – a palavra cabe bem aqui – é simplesmente impraticável. Pacificação, pode-se procurar no Houaiss ou no Aurélio, significa encontrar-se pelo menos um ponto comum de equilíbrio entre contrários, Mas na realidade entre as fronteiras do legal e do ilegal não se pode sequer buscar ponto de equilíbrio algum. São concorrentes absolutamente opostas e inconciliáveis. Uma situa-se ao lado do Estado, outra projeta-se no espaço de contestação frontal aos poderes públicos, portanto ao mesmo estado que alguns pensam  poder colocar numa mesma mesa pacificadora.

Mesa pacificadora existiu em 1953 entre Estados Unidos, China, Coreia do Sul e do Norte, com a  instituição do Paralelo 38. Cenário pacificador foi registrado em 1975 entre os EUA, o Vietnam do Norte e do Sul, pondo fim a uma guerra que durou treze anos. Soluções  políticas. No Rio de Janeiro, o tráfico e a destruição da vida que impulsiona, são pontos extremamente antagônicos aos interesses legítimos que o estado representa. Representa e tem de resguardar.
Como será o amanhã? Responda quem puder.

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