Como suportar o vazio

Carlos Chagas 

Declarou o presidente Lula, ontem, no seu programa semanal de rádio, que governar foi gostoso demais. Depois, no café da manhã com os repórteres credenciados no palácio do Planalto, repetiu a mesma coisa. Tratou-se de um lamento.
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É natural  que o Lula venha a sentir-se como peixe fora d’água a partir do próximo sábado. Feliz, mas desconfortável. Não se  livrará tão  cedo  do assédio da imprensa, muito menos dos correligionários, dos curiosos e dos chatos. Só que não terá o que fazer, ao menos nos primeiros tempos. Se vai percorrer o país como presidente de honra do PT, é fácil falar mas difícil de realizar. Parece que  desistiu de criar uma fundação com o seu nome,  endereço,  telefone e escritório.   Para o exterior, em férias, não irá, ainda que possa passar não mais do que duas semanas numa praia do Nordeste  ou numa fazenda do Pantanal.�
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Problemas financeiros não terá. Além da aposentadoria de ex-presidente da República, conseguiu economizar bastante os proventos dos últimos oito anos.  Mas como preencher o vazio?
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Nessa hora, a saída para o Lula será seguir o exemplo de Juscelino Kubitschek, sem necessidade de eleger-se senador em eleições suplementares, já que seus adversários não estarão fazendo-o de alvo. Mas preparar a volta ao poder será a solução. Só que com um problema: JK viu-se sucedido por um quase desafeto. Nenhum compromisso tinha com Jânio Quadros e, assim, estabeleceu uma espécie de  confronto  com ele. Logo depois, com João Goulart, recusou maiores aproximações, sustentando cada vez mais a volta em 1965. Tinha até escritório eleitoral, ainda em 1962. Os fados desarrumaram tudo. Depois de cassado pelo movimento militar, aliás, injustamente, comeu o pão que o diabo amassou.
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O ainda presidente elegeu a sucessora, não poderá mostrar-se como alternativa para quem promete dar continuidade às suas realizações. Até tem declarado que Dilma Rousseff tem direito à reeleição. Mas se não preencher o futuro  com sua candidatura a retornar ao poder, dificilmente suportará o  vazio.�

SAPOS E URUBUS

Dilma Rousseff engoliu montes de sapos, ao constituir seu ministério. Convidou quem não conhecia, talvez até quem não  queria, em nome da harmonia em sua base partidária.  Adiantou?
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De jeito nenhum, porque no PT, no PMDB, no PSB e penduricalhos, registram-se amuos, idiossincrasias e até ameaças por parte dos descontentes. Dos frustrados pela impossibilidade de terem sido escolhidos ou de emplacar representantes dos diversos grupos em que se dividem as legendas.
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Por enquanto as escaramuças não se  transformaram em guerrilha, já que falta preencher centenas de cargos no segundo escalão, em cima  dos  quais os urubus continuam voando. Mas será questão de tempo até que os ressentidos mostrem  garras e presas.
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Muita gente diz que melhor teria feito a presidente eleita se compusesse o ministério de seus sonhos, sem interferências partidárias. Poderia ter sido pior, no caso, mas não adianta lamentar o leite derramado. A partir de sua posse, ela terá condições  de demonstrar a inocuidade das pressões recebidas, enquadrando em especial os  ministros caídos de paraquedas em seu governo.   Bem como de demonstrar ao Congresso quem manda no país. Convém  aguardar.

NADA DE CONSTITUINTE EXCLUSIVA

Aguarda-se a apresentação do plano de governo de Dilma Rousseff, capaz de ser esboçado em  seu discurso de posse,  mas, certamente, só divulgado em detalhes nos dias seguintes.
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Dos muitos balões de ensaio verificados durante a campanha e até agora, alguns murcharam, como o da criação dos ministérios da Pequena e Média Empresa,  dos Aeroportos e até da  Copa de 2014 e das  Olimpíadas de 2016.
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Uma proposta, porém, além de murchar, lambeu, quer dizer, pegou fogo sem deixar sequer as cinzas: o novo governo não proporá e nem apoiará a tese da Constituinte Exclusiva para a realização da reforma política. Caberá ao Congresso, se quiser e se puder, promover  as mudanças necessárias nas instituições eleitorais e partidárias.

Dilma não cruzará  os braços, como fizeram  Fernando Henrique e o próprio Lula. Terá opiniões a transmitir e a defender no Legislativo, através de seus líderes.  Não apoiará, no entanto, essa esdrúxula proposta da eleição de constituintes encarregados apenas  de promover o elenco de alterações necessárias ao bom funcionamento das instituições políticas. Seria embaralhar atribuições.

OS  LÍDERES DO GOVERNO

Nessa briga de foice em quarto escuro pelas vagas de ministro e de candidatos ao segundo escalão, pouco ou nada se tem falado a respeito de quem Dilma Rousseff escolherá para líderes do governo na Câmara e no Senado.  Como o novo Congresso só se instala em fevereiro, sendo janeiro mês de recesso, é possível que tudo continue como está.

Sem dúvidas, a nova presidente consultará o vice Michel Temer, os presidentes dos partidos da base oficial e os ministros mais diretamente ligados às questões políticas. Uma coisa, porém, parece certa: Romero Jucá não continuará no Senado. Para bom entendedor…

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