Complementando Carlos Newton sobre o desprendimento de Carlos Chagas ao ser assessor de imprensa de Costa e Silva. 1964, o inferno da confusão. João Goulart não queria deixar o Poder. Conspirava, governadores conspiravam, generais conspiravam. Era o caos.

Helio Fernandes

Só os que ficam sempre em cima do muro, não se definem nem se arriscam, se arrogam o direito da crítica, sempre amargura contra si mesmo, tentando atingir os outros, os que participam nos momentos mais difíceis. Participar, principalmente quando se instala o Poder dos generais torturadores, é um salto no escuro, geralmente tentando impedir a escuridão.

Carlos Chagas não precisa de defesa. Mas foi bom o Newton colocar as coisas nos lugares. Quando aceitou e teve o desprendimento (a palavra definitiva) de trabalhar com Costa e Silva, além do que o Newton falou, o que ele não disse. Chaguinhas, com o chamávamos, já tinha uma vida de jornalista irrepreensível. E além de penetrar e estar presente diariamente na fortaleza adversária, mais um dado altamente relevante.

Costa e Silva ficou de 1964 a 1967 (quando assumiu) sem nenhuma acusação de torturar, defender torturadores, patrocinar esse tipo de covardia. Escolheu Pedro Aleixo, um jurista, para vice-presidente. E ficou o tempo todo ligadíssimo a ele.

Logo depois que tomou posse, pediu a Pedro Aleixo um modelo de Constituição democrática, incluindo a eleição direta. Pedro Aleixo começou a trabalhar intensamente nesse projeto, procurou se ligar a jornalistas, através de José Aparecido, amigo de todos.

Chegamos a ter duas reuniões com Pedro Aleixo, na Rua Domingos Ferreira, no apartamento de um amigo de Aparecido. Éramos 14 jornalistas, em que Pedro Aleixo sabia que podia confiar ou o Aparecido não indicaria ou convocaria. Numa dessas reuniões, Pedro Aleixo disse para Aparecido: “Precisamos de um Assessor de Imprensa de nossa confiança para trabalhar com Costa e Silva.

O nome de Carlos Chagas surgiu natural e indivisivelmente. Ele não queria aceitar, mas como o Newton contou, foi praticamente obrigado a concordar. Depois do amaldiçoado AI-5, escreveu um depoimento magistral sobre a sua experiência, num livro a que deu o título: “113 Dias de Angústia”. Que foi o tempo em que Costa e Silva ficou no palácio (no Rio), em estado grave (fora do ar),  com contato apenas com duas pessoas; Carlos Chagas e o mestre Paulo Niemeyer, o maior neurologista do Brasil, pai do hoje grande sucessor, o filho, Paulinho Niemeyer.

A doença do general Costa e Silva foi coincidência e consequência da pressão que sofreu a partir das informações que os generais no Poder iam recebendo das suas conversas com Pedro Aleixo e o projeto da redemocratização. Enfraquecido militarmente por causa da tendência democrática, Costa e Silva não pôde impedir o AI-5 de dezembro de 1968.

Ficou abalado para sempre, até sofrer o AVC destruidor, em 27 de setembro de 1969. Logo considerado INCAPACITADO, nomearam uma Junta Militar que tomou posse no dia 1º de outubro de 1969. Seu primeiro ato: meu sequestro-confinamento (o terceiro) em Campo Grande, hoje capital do Mato Grosso do Sul. Era madrugada, chovia ameaçadoramente, a FAB não voava à noite. Recebeu ordem para abrir exceção, eu era perigoso demais,

Costa e Silva morreria em dezembro de 1969, a Junta Militar (como toda Junta que se preza) queria permanecer no Poder. Não conseguiram. Orlando Geisel, que se julgava “iluminado”, queria o Poder. Fez eleições fraudadas e fraudulentas, e ainda assim perdeu. Colocaram urnas nos quartéis, navios, bases da Aeronáutica. Mas isso é outra história, vergonhosa para as Forças Armadas.

Agora, rapidamente, 1964. O grande conspirador era o senhor João Goulart, que estava no poder, nunca se elegeu presidente, mas queria “continuar”. (As aspas são indispensáveis).

Quatro fatos importantíssimos para o golpe praticado por João Goulart, provocando o golpismo dos oficiais generais.

1 – Em 1963, mensagem ao Congresso, decretando “Estado de Sítio”. Muitos correligionários achavam loucura. Mas Jango queria prender Lacerda e fechar a Tribuna da Imprensa.

2 – Não conseguiu. Mas ainda em 1963, mandou me prender por cumprir o meu dever jornalístico e publicar uma circular do Ministro da Guerra que tinha na capa, três carimbos: “Confidencial”, “Secreto” e “Sigiloso”. Publiquei, fui preso e julgado pelo Supremo, todo o governo se atirou na tentativa de me prender por 15 anos. Não conseguiram.

3 – Os dois discursos GOLPISTAS de João Goulart, pregando a revolta e a desobediência. O primeiro no dia 13 de março na Central do Brasil, provocação total e idiota. O segundo no mesmo mês de março, no belíssimo e “tombado” prédio do Automóvel Clube do Brasil, na Rua do Passeio.

4 – Outro fato insensato foi praticado antes, logo depois de 6 de março de 1963, quando o presidencialismo derrotou o “parlamentarismo de ocasião”, com torrentes (tsunamis, se fosse hoje) de dinheiro. Fábulas jogadas no fim do regime imposto pela renúncia de outro trêfego peralta, Janio Quadros.

Leonel Brizola, que sabia que só conquistaria a Presidência através de eleição, procurou o cunhado e fez a proposta: “Você me nomeia ministro da Fazenda e o marechal Lott, ministro da Guerra. Já conversei com ele, se eu exorbitar, ele pede a minha demissão, concordo. Jango pediu uns dias. E foi se aconselhar com quem? Com Roberto Marinho (sentado na cama presidencial) e o embaixador Lincoln Gordon. O dono do Globo afirmou: “Jango, se você nomear o Brizola, não termina o mandato”. Não nomeou e não terminou. Mas ganhou enorme fotografia na terceira página de O Globo com a inscrição: “O Estadista”.

Derrubado, no exílio, para Roberto Marinho Jango deixou de ser o estadista, foi coberto de insultos. A conspiração aberta de Jango estimulou a revolta de quatro governadores. Magalhães Pinto (Minas), Lacerda (Guanabara), Ademar de Barros (São Paulo), Arraes (Pernambuco). Ainda existiam dois governadores (militares da reserva): Ney Braga (Paraná) e Mauro Borges (Goiás). Esperavam o vencedor. E Brizola, em situação constrangedora, sem poder se definir.

 ***

PS – Os militares, mais organizados, e com a força total (as armas do povo), tomaram o Poder, diga-se a bem da verdade, sem saber o que fazerem com ele. Com isso, era dificílimo completar análise, contra ou a favor. Sem esquecer que com a exclusão de Golbery e de um ou dois generais ou coronéis, os oficiais não sabiam de coisa alguma. (Hoje, em matéria de cultura e conhecimento, melhoraram muito).

PS2 – A partir de 9 de abril, (apenas uma semana depois) comecei a mais devastadora campanha conbra o mais poderoso dono do poder que era o traidor Castelo Branco.

PS3 – Duvido que encontrem um artigo, uma frase, uma palavra a favor dos que venderam e torturaram o país. Podiam ter acelerado o desenvolvimento do Brasil, era o que eu esperava. Se entregaram à obsessão da tortura, não esqueçam, foram os militares que TOMARAM O PODER.

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