Compreendendo o significado e a função do sofrimento

Trigueirinho Netto
O Tempo

O passo inicial para compreendermos o sofrimento é tomar consciência de que sofreremos sempre que desejarmos algo. Mas é quase impossível deixar de ter desejos enquanto estamos na vida, porque o desejo é como uma secreção sutil do corpo emocional. Assim, como produto da própria fonte de emoções, o sofrimento sempre reaparece, de uma forma ou de outra, na existência humana.

Há milênios, Buda revelou que o sofrimento é produto do desejo. Nós o engendramos ao querer coisas, ao nos envolver emocionalmente com algo ou com alguém e ao fazer experiências puramente pessoais, sem um motivo nobre e elevado.

Contudo, podemos iniciar um trabalho de libertação se canalizarmos os desejos para finalidades e objetivos cada vez mais elevados. Essa é a forma mais simples e direta de mitigarmos ou de anularmos em boa parte o sofrimento. Pouco adianta confrontá-lo diretamente.

PURIFICAÇÃO DO DESEJO

A purificação ou o refinamento dos desejos dá-se por etapas. Começamos com o desapego das coisas materiais; a seguir, praticamos o desapego das ligações afetivas e, por fim, o desapego dos preconceitos e esquemas mentais. À medida que os apegos mais grosseiros são superados, o desejo é canalizado para coisas mais nobres. E, numa etapa mais adiantada desse trabalho de libertação, passamos a desejar não ter desejos.

É então que podemos relacionar-nos inteligentemente com o sofrimento. Compreendemos, por fim, que ideias, tendências e anseios equivocados retêm o fluir da vida ou nos desviam do curso correto, distanciando-nos das leis universais, espirituais, que deveríamos seguir.

Há vários tipos de sofrimento, e cada um tem a sua função. Um deles é o chamado sofrimento espiritual. Constitui-se das provas pelas quais passamos em nossa busca do Espírito. Apesar de mais sutil que outros, o sofrimento espiritual também é gerado pelo desejo. Ele existe devido ao nosso anseio de nos tornar espiritualizados. Mas quem padece dele não se queixa, porque sabe, no íntimo, que tal sofrimento o levará a uma maior compreensão da vida e das coisas.

O sofrimento espiritual não é limitante, como se possa crer, mas fortalece a pessoa que o experimenta e a deixa receptiva a realidades mais amplas. Uma das suas funções é despertar a fé.

SOFRIMENTO MORAL

Outro tipo de sofrimento é o de natureza moral. Forja e purifica o caráter, faz com que deixemos de ser dúbios ou tépidos em nossos sentimentos mais básicos. Todos os que têm caráter adquiriram-no vivendo diferentes gradações desse tipo de sofrimento.

Durante o sofrimento moral temos a possibilidade de fazer opções importantes para a vida do Espírito. Quando o caráter já está bem depurado, não lamentamos esse sofrimento, pois sabemos quão precioso é o aprendizado que dele advém. Sabemos, também, que o padecimento aumenta com a queixa. Com lamentos, desperdiçaríamos a energia que nos foi dada para suportar o sofrimento. Ele, em princípio, nunca é maior que a nossa capacidade de vivê-lo.

Por fim, há o sofrimento físico, que quase sempre nos quer mostrar o que devemos mudar em nossa vida. Este também é proporcional à capacidade de suportá-lo, mas em alguns casos agrava-se pelo fato de não o aceitarmos e, assim, pode tornar-se excessivamente pesado.

Precisamos considerar o sofrimento como uma oportunidade de sanar desequilíbrios antigos causados por nós mesmos, e abandonar a errônea ideia de que ele vem como mera punição.

Para conhecer as obras do autor, acesse o site www.irdin.org.br ou o site www.comunidadefigueira.org.br.

 

2 thoughts on “Compreendendo o significado e a função do sofrimento

  1. http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/encyclicals/documents/hf_jp-ii_enc_18051986_dominum-et-vivificantem_po.html tem:

    CARTA ENCÍCLICA DOMINUM ET VIVIFICANTEM
    DO SUMO PONTÍFICE JOÃO PAULO II
    SOBRE O ESPÍRITO SANTO NA VIDA DA IGREJA E DO MUNDO
    Veneráveis Irmãos e Amados Filhos e Filhas
    Saúde e Bênção Apostólica!
    INTRODUÇÃO
    1. A Igreja professa a sua fé no Espírito Santo, como n’Aquele «que é Senhor e dá a vida».

    10. Na sua vida íntima Deus «é Amor»36, amor essencial, comum às três Pessoas divinas: amor pessoal é o Espírito Santo, como Espírito do Pai e do Filho. Por isso ele «perscruta as profundezas de Deus»37, como Amor-Dom incriado. Pode dizer-se que, no Espírito Santo, a vida íntima de Deus uno e trino se torna totalmente dom, permuta de amor recíproco entre as Pessoas divinas; e ainda, que no Espírito Santo Deus «existe» à maneira de Dom.

    23. … Ao «dar» o Filho, no dom do Filho, já se exprime a essência mais profunda de Deus, o qual, sendo Amor, é a fonte inexaurível da dádiva. No dom concedido pelo Filho completam-se a revelação e a dádiva do Amor eterno: o Espírito Santo, que nas profundezas imperscrutáveis da divindade é uma Pessoa-Dom, por obra do Filho, isto é, mediante o mistério pascal de Cristo, é dado de uma maneira nova aos Apóstolos e à Igreja e, por intermédio deles, à humanidade e ao mundo inteiro.

    32. Ninguém pode, todavia, «convencer o mundo», o homem e a consciência humana quanto a esta verdade inefável a não ser Ele mesmo, o Espírito da Verdade. Ele é o Espírito, que «perscruta as profundezas de Deus». 121 Diante do mistério do pecado, é preciso perscrutar «as profundezas de Deus» até onde for possível. Não basta perscrutar a consciência humana, como mistério íntimo do homem; mas é imprescindível penetrar no mistério íntimo de Deus, naquelas «profundezas de Deus» que se resumem na síntese: «ao Pai — no Filho — por meio do Espírito Santo». É exactamente o Espírito Santo que as «perscruta»; e a elas vai buscar a resposta de Deus ao pecado do homem. Com essa resposta encerra-se o processo de «convencer quanto ao pecado», como o acontecimento do Pentecostes põe em evidência.

    4. O Espírito que transforma o sofrimento em amor salvífico

    39. «O Espírito, que perscruta as profundezas de Deus», foi chamado por Jesus, no discurso do Cenáculo, o Paráclito. Ele, de facto, desde o princípio «é invocado» 145 para «convencer o mundo quanto ao pecado».É invocado, de modo definitivo, por meio da Cruz de Cristo. Convencer do pecado quer dizer demonstrar o mal nele contido. Isto equivale a desvendar o «mysterium iniquitatis» [mistério da iniquidade]. Não é possível atingir o mal do pecado em toda a sua dolorosa realidade sem «perscrutar as profundezas de Deus». O obscuro mistério do pecado apareceu no mundo, desde o princípio, no quadro da referência ao Criador da liberdade humana. E apareceu como um acto da vontade da criatura-homem contrário à vontade de Deus: contrário a vontade salvífica de Deus; ou melhor, manifestou-se em oposição à verdade, com base na mentira já definitivamente «julgada» — mentira que colocou em estado de acusação, em estado de permanente suspeição o próprio Amor criador e salvífico. O homem seguiu o «pai da mentira», pondo-se contra o Pai da vida e o Espírito da verdade.

    O «convencer quanto ao pecado», portanto, não deveria significar também revelar o sofrimento, revelar a dor, inconcebível e inexprimível, que, por causa do pecado, o Livro Sagrado, na sua visão antropomórfica, parece entrever nas «profundezas de Deus» e, em certo sentido, no próprio coração da inefável Trindade? A Igreja, inspirando-se na Revelação, crê e professa que o pecado é of ensa a Deus. O que é que, na imperscrutável intimidade do Pai, do Verbo e do Espírito Santo, corresponde a esta «ofensa», a esta recusa do Espírito que é Amor e Dom? A concepção de Deus, como ser necessariamente perfeitíssimo, exclui, por certo, em Deus, qualquer espécie de sofrimento, derivante de carências ou feridas; mas nas «profundezas de Deus» há um amor de Pai que, diante do pecado do homem, reage, segundo a linguagem bíblica, até ao ponto de dizer: «Estou arrependido de ter criado o homem». 146 «o Senhor viu que a maldade dos homens era grande sobre a terra … E o Senhor arrependeu-se de ter criado o homem sobre a terra … O Senhor disse: “Estou arrependido de os ter feito”». 147 Mas o Livro Sagrado, mais frequentemente, fala-nos de um Pai que experimenta compaixão pelo homem, como que compartilhando a sua dor. Esta imperscrutável e indizível «dor» de Pai, em definitivo, gerará sobretudo a admirável economia do amor redentor em Jesus Cristo, para que, através do «mistério da piedade», o amor possa revelar-se mais forte do que o pecado, na história do homem. Para que prevaleça o«Dom»!

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