‘Comunismo mundial’

Sebastião Nery

O general Otávio Costa era comandante da 6ª Região Militar, na Bahia. Estava em Sergipe, no fim de semana, visitando a cidade histórica de Laranjeiras, terra dos dois também históricos jornalistas Paulo e Joel Silveira. Sábado, recebeu um telefonema urgente de Brasília. Era o general Medeiros, chefe do SNI do governo Figueiredo, que acabava de assumir seu posto no Palácio do Planalto:

– General, segunda-feira o professor Abdias do Nascimento, líder negro, que está chegando dos Estados Unidos, vai fazer uma palestra no Centro Cultural Brasil-Alemanha, em Salvador, e lançar o Movimento de Libertação da Raça Negra. A ordem é melar.

O general Otávio Costa já estava há dois anos na Bahia. Sabia que o Centro Cultural Brasil-Alemanha ficava em um local pequeno, apertado, movimentado. Tentar melar seria exatamente promover. Ligou para Salvador, mandou para o local um sargento negro, do Serviço Secreto, com a ordem de telefonar urgente, se necessário.

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ABDIAS

Segunda-feira, 10 da manhã, Abdias do Nascimento abriu sua conferência no Centro Cultural Brasil-Alemanha apinhado de escritores, professores, lideres sindicais estudantes, intelectuais de todos os setores. Todos brancos. Lá no fundo, de pé, um senhor negro. Abdias se levantou.

– Quero começar prestando uma homenagem a meus irmãos de cor. Convido meu irmão negro, que está lá ao fundo, a presidir esta solenidade.

O sargento, irmão de cor, presidiu com toda competência. Sem melar.

Se estivéssemos hoje em 1964, as autoridades brasileiras, civis e militares, não deixariam o negro Barack Obama, com seu discurso de libertação da raça negra, presidir aquela solenidade.

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OSÓRIO

Osório Vilas-Boas foi vereador, presidente da Câmara Municipal de Salvador, candidato a prefeito, deputado do MDB e acabou cassado pelo AI-5, em 69. Durante anos, foi presidente do Esporte Clube Bahia, então o maior do Estado. Em maio de 64, ia viajar para os EUA com seu time, para um torneio em Nova York. Pediu um visto. Recebeu ofício do consulado:

Prezado senhor, este escritório lamenta informar que está impossibilitado de dar um visto a V. Sa., porque se verificou que V. Sa. é inelegível (sic) para visto, sob a seguinte seção da Lei de Imigração e Nacionalidade:

– Seção 212 (a) (28) (3), a qual proíbe a concessão de vistos a qualquer pessoa que advogue ou pertença ou seja filiada a grupos que advoguem a doutrina do comunismo mundial. No entanto, poderemos dar maior consideração ao seu requerimento para visto se V. Sa obtiver e apresentar a este escritório os seguintes documentos: atestado assinado pela polícia e pelas autoridades militares em como V. Sa não advogou ou foi filiado a grupos que advoguem a doutrina do comunismo mundial.

“Atenciosamente, pelo cônsul, Roberto E. Service – vice-cônsul americano”.

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OBAMA

Osório conseguiu o atestado, deixou de ser inelegível (sic) para visto, foi para os Estados Unidos e o Bahia ganhou o torneio. Em 69, depois do AI-5 e da cassação, possivelmente não lhe dariam mais.

Se Osório fosse o Barack Obama, certamente não teria conseguido o atestado e não teria viajado para os Estados Unidos. O discurso universalista e pacifista de Obama, contra a guerra do Iraque, é mais parecido com a doutrina do “comunismo mundial” do que era o de Osório.

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