Comunista, com muita honra!

Carlos Chagas

Jamais escondeu sua ideologia. Viveu e morreu comunista, ainda que reservasse para os amigos íntimos suas críticas ao que aconteceu na Rússia e no mundo. Por conta da fidelidade ao credo vermelho, teve sua obra ímpar na arquitetura mundial contestada durante o regime militar. Tentaram denegrir suas curvas e seus monumentos, alegando que não aproveitava o que Brasília tinha de mais característico, a luminosidade.

Prestes e Niemeyer

Vingou-se ao erigir o panteão em honra de Juscelino Kubitschek, num dos pontos mais altos da capital federal. Colocou a estátua do ex-presidente envolta no que parece uma foice, sendo JK o martelo. Todas as manhãs, quando o sol nasce, ilumina o memorial e projeta a sombra do símbolo comunista precisamente sobre o setor militar urbano. Por isso um grupo de radicais buscou embargar a obra já quase concluída. Felizmente o então presidente João Figueiredo e o ministro Golbery do Couto e Silva reagiram, argumentando o ridículo da tentativa. Sairia pior a emenda do que o soneto.

Até hoje, bem cedo, essa sombra pode ser vista por uns poucos minutos quando o comunismo não existe mais, senão no coração e na memória de uns poucos, como existiu em Oscar Niemeyer.

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CUIDADO, ELES NÃO DESISTEM

Parece inegável a pressão que as chamadas classes produtoras desenvolvem contra a presidente Dilma Rousseff. Por mais que ela distribua favores e benesses, os detentores do poder econômico afiam presas e garras em sinal de protesto contra a linha-mestra da política do atual governo. Rejeitam o raciocínio de que as crises não podem ser combatidas com aumento de impostos, demissões em massa, reduções salariais, cortes em investimentos sociais e privatizações.

Ainda que cedendo aqui e ali, a presidente insiste em que só através do crescimento sairemos do sufoco que assola o planeta e já chegou ao Brasil. Trata-se de uma questão ideológica e por isso desperta reações violentas. Está nessa queda de braço a causa de o aumento do PIB estar quase no nível zero, este ano. Preferem prejudicar-se a ceder.

Deve cuidar-se Dilma Rousseff, pois acima e além da blitz desenvolvida pela grande imprensa contra suas concepções, está a sucessão presidencial de 2014. Farão tudo, mesmo na sombra, para impedir sua reeleição. A menos, é claro, que ela dê o dito pelo não dito, como fez o Lula para conseguir oito anos de paz submissa aos interesses das elites.

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O COMEÇO DO FIM?

Espera-se que na sessão extraordinária marcada para a próxima segunda-feira o Supremo Tribunal Federal dê por encerrada a fase principal do julgamento do mensalão. Até agora tem prevalecido a estratégia do relator Joaquim Barbosa, inflexível na decisão de ver duramente punidos os responsáveis pelo maior escândalo dos últimos tempos.

A pergunta que se faz é se a Ação Penal 470 gera ampla descendência ou será tida como um episódio isolado. Porque lambanças como a que agora se condena existem aos montes. Cabe ao Poder Judiciário, em suas diversas instâncias, imitar a mais alta corte nacional de Justiça ou permanecer no marasmo de tantas décadas.

Fracassou a tentativa de, no próprio Supremo, reduzir-se as condenações e seus efeitos. O problema é que nas diversas varas criminais e tribunais variados, torna-se mais fácil a proteção dos réus. As pressões são mais agudas. Podemos estar diante do fim do começo de uma nova era ou, no reverso da medalha, assistimos o começo do fim…

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VOLTA OU FICA DE LONGE?

Tivemos diversas experiências sempre que vice-presidentes da República ou presidentes da Câmara e do Senado ocuparam temporariamente a presidência da República. Paes de Andrade, presidente da Câmara, substituiu treze vezes o então presidente José Sarney, já que naquele mandado inexistia a figura do vice-presidente. Como o dr. Ulysses, antes dele, fazia questão de manter o ritual, ou seja, despachava no palácio do Planalto. Já os vice-presidentes Marco Maciel e José Alencar assumiam, mas permanecia em seus gabinetes. O deputado Marco Maia, diante de viagens coincidentes de Dilma Rousseff e de Michel Temer, tem preferido permanecer no Congresso.

Semana que vem acontecerá uma coincidência inusitada. A presidente, o vice-presidente e o presidente da Câmara estarão fora do Brasil. Na eventual linha sucessória, deve ser o presidente do Senado a assumir o cargo. José Sarney foi presidente de fato por cinco anos. Indaga-se: preferirá exercer a interinidade com toda pompa e circunstância, ocupando o gabinete do terceiro andar do palácio do Planalto, tão seu conhecido, ou permanecerá no Congresso?

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