Conflito Robinho-Nike: propaganda contra a vontade do jogador?

Pedro do Coutto

Os jornalistas Juca Kfouri e Martin Fernandez publicaram matérias nas edições de quarta e quinta-feira do Caderno de Esporte da Folha de São Paulo revelando todo o panorama (aparente) do conflito que está colocando em lados opostos, sem perspectivas de recuo, o jogador Robinho, agora do Milan, e a Nike, patrocinadora principal da CBF, Confederação Brasileira de Futebol, cujo presidente, Ricardo Teixeira, é alvo comum de Kfouri em sua coluna, aliás brilhante, naquele jornal.

O caso foi parar na Justiça de Amsterdam, há poucos meses, e agora também na Justiça brasileira. Na Holanda, Robinho perdeu em primeira instância. Em nosso país, a ação foi ajuizada pelo atacante na terça-feira passada na 5ª Vara Cível da cidade de Santos. A advogada de Robinho é a professora de Direito Internacional da USP, Maristela Basso.

O caso é o seguinte: a Nike começou a patrocinar Robinho a partir de 2002 para que usasse nas partidas chuteiras sofisticadas de sua marca. Designs produzidos para que a imagem apareça pela televisão. Francamente não sei até onde vai esta segunda parte publicitária. Não importa. O fato é que o contrato teve duração até o final de 2010. Robinho não deseja renová-lo. Mas a Nike, baseando-se no texto em inglês, sustenta que está em vigor uma cláusula que permite sua extensão automática até 2014. A Nike quer exercer tal direito mesmo contra a vontade do atleta. Inclusive a empresa o acusa de ter atuado com chuteiras sem marca alguma, o que evidentemente não a interessa. O Tribunal de Justiça de Amsterdam deu ganho de causa à Nike. O primeiro tempo , assim, terminou um a zero para ela.

O segundo tempo vai começar. Em 98, na final em que perdemos por três a zero para a França, a Nike conseguiu, para mim de forma surpreendente, a escalação de Ronaldo fenômeno, apesar de o técnico Zagalo, quando constatado o mal que atingiu o craque, tê-lo substituído por Edmundo. Coisas do futebol, pode-se dizer para sintetizar as contradições que envolvem os esportes em geral, o próprio futebol em particular, e o ser humano em todas as épocas.

Por coincidência, é claro, Robinho não foi convocado agora por Mano Menezes para o jogo contra a Escócia, a 27 deste mês. Mas o treinador disse à Folha de São Paulo que apenas o poupou independentemente da chuteira que irá calçar. Vamos ver. É verdade que, com as reportagens de Juca Kfouri e Martin Fernandez, Menezes não tem como não convocá-lo. Podem interpretar mal a exclusão. O que não é bom para a CBF, comercialmente, e eticamente para o atual técnico da Seleção de Ouro.

E La Nave Va. Mas o que eu estranho nisso tudo é o empenho da Nike em forçar a jogador a fazer propaganda da empresa mesmo contra sua vontade. Não funciona. Aliás no esporte não adianta obrigar-se legalmente um atleta a cumprir compromissos. Pois ele o fará de mau humor e esterilizará o efeito publicitário. E o efeito publicitário vale muito. Muito mais do que se possa pensar à primeira vista. Me lembro de vários outros casos de transferências de atletas. Um jogador está num clube. Tem contrato em vigor. Outro faz uma proposta melhor. Se aquele a que está vinculado não puder cobri-la não adianta retê-lo. Seu desempenho não será positivo.

Neste caso, perdem a CBF, o craque, pois não poderá substituir a propaganda por outra concorrente, e a própria Nike. A torcida rejeitará a Nike pela pressão. Ela tem mais a perder do que Robinho. Antipatia é o antimarketing. Imagine-se isso a nível de futebol mundial.

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