Congresso Nacional ou Câmara de Vereadores

Carlos Chagas

Em matéria de conteúdo e de retórica, o Congresso continua devendo, desde que instalados os trabalhos da presente Legislatura. Não vamos concordar com certos  saudosistas que lembram apenas momentos e figuras exponenciais do passado para compará-los com a rotina e os grotões da representação atual. Essa prática fatalmente conduzirá os jovens de hoje,  velhos de amanhã daqui a cinquenta anos, a pontificar que bom era o Congresso dos tempos de sua iniciação na profissão, porque o futuro será fatalmente pior, conforme o vaticínio do saudoso dr. Ulysses, para quem pior do que o atual, só o próximo.   Tudo é dinâmico.
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Do que se reclama, hoje, é da falta de pronunciamentos relacionados com os grandes problemas nacionais, de  diagnósticos completos sobre as questões maiores que assolam nosso povo.  Até  agora, com todo o respeito e ressalvadas raras exceções, Câmara e Senado tem tido  o desempenho de Câmaras de Vereadores, levantando temas setoriais e irrelevantes para o conjunto da sociedade ou, como ainda esta semana, encenando lambanças inomináveis, onde, na discussão, uma deputado chamou o outro de “canalha” e de “traidor”, a plenos pulmões.  E mesmo assim, com oratória sofrível.
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Falta o quê, nos debates parlamentares?  Para começar, análises profundas da realidade e de soluções para superá-la.
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Tome-se a saúde pública. É preciso que alguém se disponha a relatar o que se passa no SUS. O quanto de humilhação, sofrimento e  ausência de atendimento oferecidos ao  cidadão comum, aquele que passa as madrugadas  na fila sem  receber sequer a senha, ou chega em estado crítico a alguma emergência e precisa optar entre buscar outro estabelecimento ou permanecer horas e até  dias numa maca de corredor sem ver a cara sequer de um enfermeiro, quanto mais de um médico.

Com números e estatísticas seria possível denunciar o descalabro vigente, que obriga quem pode a recorrer aos Planos de Saúde, arapucas também exigindo corretivos imediatos.  Os vencimentos dos profissionais, tão lamentáveis  quanto suas condições de trabalho, o número precário de hospitais e postos de saúde e a mercantilização  dos medicamentos, entregues a laboratórios privados,  responsáveis pela degradação e até a extinção dos sucedâneos públicos. A falência da  maioria dos Cursos de Medicina mais as dificuldades geradas pela distância entre as  comunidades   e os centros de tratamento. 

Uma tarde inteira não bastaria para  radiografar o estado precário do sistema nacional  de saúde, mas quem se dispusesse a tanto, com capacidade, faria calar as  campainhas histéricas dos plenários, tão a gosto de certos dirigentes  eventuais dos trabalhos. Contribuições decisivas poderiam enriquecer a discussão até que dela fluíssem projetos destinados a recompor políticas e balizar ações e comportamentos.

Quem se anima a inaugurar um debate de alto nível entre prováveis competentes experts no assunto? Por enquanto, ninguém.
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Mas tem mais.  No campo da educação é igual ou pior, mesmo diante das freqüentes e meteóricas intervenções do senador Cristóvan Buarque. É preciso seguir bem adiante das exortações que exigem toda criança na escola. Descer às causas de porque não estão, investigando também o fraco aproveitamento de quantos meninos e meninas matriculados muito mais para receber a merenda diária.

O analfabetismo avança e a responsabilidade não repousa apenas na miséria e na precariedade das escolas. Situa-se no vazio que  cerca o magistério em todas as suas etapas, no desestímulo não apenas salarial mas de meios de atualização para os professores. O abandono do chamado ensino  médio,  que não prepara o jovem para o trabalho, o engodo do ensino técnico que passa longe do operário e de seus filhos e a cultura pré-diluviana do diploma universitário.

Para não falar das universidades PP, aquelas do “pagou e passou”, além da burocracia crescente do MEC e das secretarias estaduais de educação no estímulo à livre pesquisa científica.  A sabotagem praticada contra as escolas públicas pelo arcabouço privado, destinado às elites, e sua influência no mercado de trabalho. Enquanto no interior crianças vão para a escola em  canoas, em longas viagens, e nas capitais precisam conviver com agentes do crime organizado para sair e chegar em casa.

Sem uma abordagem ampla da crise na educação, nenhum diagnóstico poderá emergir com razoáveis chances de solução, mas por que não começar pelo debate parlamentar do tema, até como subsídio para o Executivo livrar-se do suplício de Sisifo, aquele que levava a pedra até  o cume da montanha para vê-la desabar, repetindo interminavelmente a tarefa inglória.

Multiplique-se o vazio por outros temas. Alguém já  se dedicou à exegese dos transportes públicos? Do lastimável estado  das rodovias,da ausência de uma política rodoviária ou mesmo do nó nos aeroportos e no transporte aéreo? Habitação, alimentação, violência, corrupção, impunidade e quantas outras questões nacionais continuam a merecer análises de fôlego, primeiro passo para sua solução?

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