Congresso enfim vai investigar a segurança dos reatores de Angra dos Reis e também o sistema de armazenamento dos resíduos nucleares, que é provisório desde a criação das usinas.

Carlos Newton

A calamidade do Japão coloca não só em discussão o futuro da energia nuclear como um todo, mas traz a debate também outra questão tenebrosa, que não tem sido tratada no Brasil com a devida seriedade e transparência – o que fazer com os resíduos atômicos.

O ex-prefeito Cesar Maia chamou atenção para a gravidade do problema, lembrando em seu blog que em 1989 um grupo de deputados e senadores brasileiros foi convidado a visitar as usinas nucleares da Alemanha, construídas pela Siemens. “Pôde-se conhecer todo o sistema de segurança, desde a entrada, com identificação um a um, fora da usina, foto local, encontro em uma sala reservada, oferecimento de informações, e uniformização fechada e rigorosa antirradiação”, disse Maia, acrescentado que, no final, os uniformes usados pelos parlamentares brasileiros foram entregues para incineração.

Depois, foi feita uma visita ao local de depósito de resíduos nucleares. O local utilizando ainda não fora aceito como definitivo pela Corte Suprema alemã. O abrigo funcionava provisoriamente numa antiga mina de sal. O grupo de visitantes – por partes – desceu a mina num elevador por 800 metros de profundidade, altura do Morro do Corcovado no Rio.

Os parlamentares brasileiros viram que as caixas de chumbo que contêm resíduos nucleares, lacradas, eram colocadas no meio do sal, que depois se fecha em torno das caixas como se fosse pedra, obstruindo qualquer risco de contato com o ar. “E assim mesmo a corte suprema de lá não considera um processo 100% seguro”, relata Cesar Maia.

De volta ao Brasil, a mesma comitiva de deputados e senadores foi visitar as usinas nucleares de Angra dos Reis, no Estado do Rio. O acesso a elas foi direto, sem cuidados de identificação especial. Na mesma sala de recepção foram dadas informações e se vestiu o uniforme antirradiação. Assim foi feita a visita.

“Mas o susto maior veio quando foi pedido para se conhecer a área de depósito de resíduos nucleares. São caixas de chumbo como na Alemanha, mas depositadas em prateleiras de um galpão como num supermercado. Este galpão fica a 200 metros do prédio da Usina e pode ser visto da Usina, diretamente”.

O ex-prefeito carioca afirma que agora cabe ao Congresso Nacional constituir, urgente, uma comissão especial para apurar o que está havendo com os resíduos nucleares – se continuam nesse galpão ou se foram levadas para outro local, para saber se estão sendo armazenados adequadamente, como ocorre na Alemanha.

Para mostrar a gravidade da situação, Cesar Maia disse que na última quarta-feira a imprensa informou que um tufão se aproximou do litoral do Rio. “Se esse tufão atingisse a área da usina, derrubaria, com um sopro, o armazém e espalharia as caixas, inclusive para o fundo do mar. Essa é uma situação extremamente grave que exige fiscalização e resposta, imediatas, por parte do Congresso. Lembrem-se que são duas usinas e mais uma em construção. E que o contrato de 1977 foi simplesmente prorrogado, portanto, com as mesmas condições de segurança estabelecidas na época”, adverte.

Diante da denúncia do blog do prefeito, o jornal O Globo foi conferir com a empresa Eletronuclear as condições do local onde estão armazenados os resíduos nucleares das usinas de Angra dos Reis. Questionado sobre a comparação das instalações do Brasil com as da Alemanha, o funcionário da Eletronuclear responsável pela Central de Angra, Leonam dos Santos Guimarães, disse que as declarações de Maia são “oportunistas e irresponsáveis”.

Segundo ele, os depósitos citados pelo ex-prefeito são absolutamente seguros e existem para guardar resíduos de baixa e média radioatividade, que duram por até por 200 anos. Os de alta radioatividade ficam armazenados em piscinas especiais, para poderem ser reaproveitados no futuro.

Leonam Guimarães respondeu enfaticamente a Cesar Maia. Disse que nenhum tufão ameaçaria o depósito em Angra. “Nosso sistema é igual ao do Japão. Se depois de uma tsunami e um terremoto, não aconteceu nada com os resíduos, como é que ele pode falar isso. A declaração dele é de uma irresponsabilidade muito grande” – disse Guimarães.

Questionado sobre a comparação das instalações do Brasil com as da Alemanha, o funcionário da Eletronuclear disse que é importante ter um depósito sob o solo por causa do longo período que o material ainda pode emitir radiação, mas que não se trata de colocar em xeque a segurança do lugar onde ficam hoje os resíduos. E anunciou que há um projeto de construção de um depósito subterrâneo de resíduos que deve ser concluído em 2018. Mas, até lá, segundo ele, a Eletronuclear garante a segurança dos rejeitos nucleares.

Traduzindo: 1) os resíduos atômicos são um grave problema que vamos legar para as próximas gerações; 2) Por enquanto, tudo é provisório, e o tal depósito subterrâneo de resíduos só deve estar funcionando em 2018. 3) E as piscinas especiais, para os resíduos de maior radioatividade, onde ficam? Nas próprias usinas?

Então, não há dúvida, Cesar Maia tinha toda razão quando pediu uma fiscalização do Congresso sobre as usinas e sobre os resíduos. O senador Lindberg Farias (PT-RJ) percebeu a gravidade da situação, pediu a formação de uma comissão especial externa, e a investigaçãos erá feita. Não custa quase nada. E pode valer muito.

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