Conselhos inoportunos

Carlos Chagas

A gente não sabe se foi por conta de outro improviso ou se estava no texto escrito, preparado pelo Itamaraty, mas a verdade é que tanto em Riad, na Arábia Saudita, quando em Pequim, na China, o presidente Lula voltou a escorregar. Disse, nas duas capitais, que em vez de ficar comprando títulos do tesouro dos Estados Unidos, os países emergentes devem usar suas reservas monetárias para investir em atividades produtivas, da indústria à educação. Apesar de correto o conselho, nosso companheiro-mór não foi alertado para o fato de que a China, em primeiro lugar, e a Arábia Saudita, em segundo, são os países que mais compram títulos do tesouro americano. Pode tratar-se de uma estratégia, porque se resolvessem vender todos os papéis que se acham em seu poder, os dois governos quebrariam para todo o sempre a economia dos Estados Unidos. Claro que não o fazem nem farão, seja por esperteza, seja por caridade.

O que ficou meio estranho foi a referência do presidente Lula, intrometendo-se em questão delicada. Mais ou menos como se os governantes daqueles dois países recomendassem ao Brasil parar de plantar soja e dedicar-se à cultura do arroz ou das tâmaras. Quanto ao fundamental da viagem presidencial, parece que haverá sucesso. Tanto Arábia Saudita quanto China interessaram-se em participar da exploração do petróleo encontrado por nós na camada do pré-sal. Trata-se de um apoio fundamental, tendo em vista que carecemos de recursos para enfrentarmos sozinhos o desafio. E se alguém imagina que a recente constituição da CPI da Petrobrás, no Senado, poderá prejudicar as negociações, é bom lembrar como respondeu um ministro saudita a um jornalista brasileiro, certamente o mesmo que responderá um ministro chinês: “CPI? O que é isso? Um novo derivado do petróleo?” Bem que poderiam ter acrescentado, como representantes das ditaduras que são seus governos: “Senado? Será uma nova empresa estatal?”

O bode e o terceiro mandato

A história é velha mas continua oportuna. O fazendeiro viajou, um dos peões resolveu aproveitar, pegou um bode, botou nos ombros e ia saindo pela porteira, disposto a oferecer formidável buchada à família. Só que naquela hora o fazendeiro voltou, flagrou o roubo e indagou do peão o que fazia com aquele bode nas costas.

Resposta: “Bode? Que bode? Sai daí bicho!”

Assim comportaram-se o Congresso e a imprensa, ontem e anteontem, depois que domingo a Folha de S.Paulo publicou a existência de 171 assinaturas na Câmara, para emenda constitucional estabelecendo o terceiro mandato. Nem uma palavra, lá e cá. Fingiram todos que o bode não existe.

No segundo semestre, quando esse golpe contra a democracia estiver se concretizando, vão dizer o quê? Que não sabiam?

Festa na caverna do Ali Babá

Começaram as oitivas das testemunhas de defesa dos quarenta mensaleiros, no processo aberto contra eles no Supremo Tribunal Federal. A tarefa cabe a juízes federais singulares de todo o país, já que a maior corte nacional de justiça carece de instrumentos e de infra-estrutura para promover os depoimentos. São quase duzentos, inclusive com gente morando no estrangeiro e até de paradeiro incerto e não sabido. Nem no Natal do ano que vem estará completada essa fase processual, depois da qual o relator, ministro Joaquim Barbosa, terá condições de começar a expedir as sentenças.

Os quarenta mensaleiros estão em festa. Não demora muito e estarão prescritas as penas a que respondem, como réus. Livres, poderão outra vez reunir-se em torno de Delúbios, Marcos Valérios, Silvinhos, Dirceus e outros, para voltar a agir. Que falta faz o Ali Babá, na caverna…

Só para constar

Corre em Brasília a existência de um pacto secreto entre os presidentes da Câmara e do Senado. José Sarney e Michel Temer teriam acertado fazer o maior estardalhaço em torno da reforma política, convocando comissões especiais, grupos de trabalho e anunciando prazos para o início da votação da reforma política. Só que sempre protelando a discussão e a aprovação do conteúdo. Assim decorreria o segundo semestre, já que no primeiro, nada feito. Como ano que vem é ano de eleições, a reforma política ficaria para as calendas, tendo sua discussão apenas preenchido o vazio legislativo que assola o país. Sabem os dois experientes parlamentares que acordo não há nem haverá para nenhuma das propostas, desde a votação para deputado em listas partidárias até o financiamento público das campanhas. Para não falar na cláusula de barreira e nas outras.

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