Conto de Natal: Morador de rua devolve celular a empresário, recusa dinheiro e é contratado

Leonardo Buzzi conta como conheceu o morador de rua

Roberta Pinheiro

Para muitos, iniciar o ano com o pé direito é um desejo que justifica superstições diversas, como vestir branco na virada ou comer romã. Mas a oportunidade de começar 2015 de um modo mais feliz pode ser obra do acaso, conforme mostra uma história ocorrida em Brasília. No último fim de semana de 2014, a perda de um telefone celular acabou por fazer um empresário e um morador de rua se alegrarem com o valor da solidariedade. Leonardo recuperou o seu aparelho e — o mais importante — a esperança na bondade das pessoas, e Gustavo ganhou uma perspectiva de futuro melhor para ele e os filhos.

O empresário Leonardo Buzzi, 41 anos, perdeu um celular no estacionamento do Centro Comercial Gilberto Salomão, no Lago Sul. Sem perceber, deixou o telefone cair ao sair do carro para ir ao banco. Quatro horas depois, após conseguir contato com Gustavo, o homem que havia achado o aparelho, Leonardo recebeu o objeto de volta e ficou impressionado com o caráter da pessoa à sua frente, decidida a não aceitar recompensa em dinheiro. Ao fim da conversa, animado com a chance de retribuir a bondade, o empresário fez uma oferta de trabalho a Gustavo. Com isso, o ano novo do morador de rua vai ser melhor que o Natal.

“Eu não mereço esse dinheiro porque não fiz nada demais. Fiz o que tem de ser feito”, foi a reação de Gustavo assim que o empresário lhe ofereceu R$ 100 em agradecimento.

BATERIA FRACA

Descobrir o paradeiro do telefone exigiu paciência. “Só fui me dar conta de que havia perdido o celular horas depois. Comecei a ligar para o meu número, e sempre caía na caixa-postal. Lembrei que o aparelho estava com a bateria fraca e achei melhor esperar um pouco”, conta Leonardo.

Após um tempo, Leonardo tentou novamente. Gustavo atendeu a ligação e disse ter encontrado o objeto. “Ele (Gustavo) estava andando no estacionamento, viu o celular e ficou esperando alguém voltar para buscar. Depois, pediu um carregador emprestado em uma loja e recarregou o aparelho para que pudessem ligar”, continua o empresário. Quando Leonardo perguntou onde o rapaz morava para que pudesse ir ao seu encontro, ouviu uma resposta envergonhada: “Ele disse que morava na rua, e foi aí que começou a minha surpresa”.

“O caráter do Gustavo me chamou a atenção”, conta Leonardo Buzzi, que convidou o rapaz para trabalhar em uma festa de fim de ano.

LONGE DOS FILHOS

Os dois combinaram de se encontrarem no mesmo estacionamento. Na noite de sábado, ao conhecer Gustavo, Leonardo se impressionou com a história dele. O rapaz perdeu tudo o que tinha e estava procurando emprego. Vivia por ali, longe dos filhos, e aceitaria fazer o trabalho que aparecesse. Enquanto nada surgia, contava com a colaboração das pessoas. O empresário ofereceu ao rapaz uma sacola com roupas que não lhe serviam mais e R$ 100. “Queria ajudá-lo ao máximo”, diz Leonardo.

No primeiro momento, o jovem recusou a ajuda e disse ter apenas feito o que deveria. “Fiquei surpreso. Aquele telefone significaria dias de tranquilidade ou mesmo de loucura na vida dele. Mas o caráter do Gustavo me chamou a atenção. Para mim, é a qualidade mais importante em uma pessoa”, conta o empresário.

NATAL SOZINHO

Durante a conversa, Gustavo deixou escapar que passar o Natal sozinho, na rua, foi um dos piores momentos vividos por ele. “Foi quando eu me lembrei que estava organizando uma festa de fim de ano e o chamei para trabalhar comigo na montagem do evento”, detalha Leonardo, dono de um restaurante no Pontão do Lago Sul.

Gustavo e Leonardo acertaram que vão se encontrar hoje, na perspectiva de começarem um ano diferente. “Esse cidadão me deu esperança. Com tudo que vemos acontecer no mundo, perdemos a esperança nas pessoas. Estamos esquecendo de ter orgulho de nós mesmos como povo”, reflete o empresário. “Existem pessoas boas e temos que valorizar isso”, conclui.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOGParece um conto de Charles Dickens. São coisas que acontecem no Natal e nos fazem acreditar que a vida poderia ser bem melhor. (C.N.)

7 thoughts on “Conto de Natal: Morador de rua devolve celular a empresário, recusa dinheiro e é contratado

  1. Senhores,

    Essa cena eu vi domingo, no interior da Bahia. Um pedreiro conhecido meu encontrou um aparelho celular e ficou “no aguardo”, esperando que o proprietário ligasse.
    Quando o dono ligou, ele deu o endereço e devolveu o celular. Depois de muita insistência, acabou aceitando 50 reais de gratificação, o que não considero censurável, haja vista ser uma pessoa pobre. Os dois saíram ganhando.

    Mas o mais incrível mesmo é que o celular que o filho desse meu conhecido tinha recebido como PRESENTE DE NATAL fora furtado dois dias antes desse fato! Se fosse outra pessoa, bem que poderia ter ficado com o celular encontrado para “diminuir o prejuízo”!

    “-QUEM É HONESTO NO POUCO SERÁ HONESTO NO MUITO”.

    Ainda tem esperança para a humanidade.
    Poderá demorar séculos, milênios, mas creio que A QUANTIDADE DE ANIMAIS VIVENDO SOB A FORMA HUMANA DIMINUIRÁ, PAULATINAMENTE…

    Abraços.

  2. Caráter não se adquire, compra ou troca. Caráter é uma qualidade muita cara e como se diz “não esperemos encontrar esta qualidade em pessoas baratas”. Foi bom sentir uma leveza interior na sensibilidade no bom texto escrito. Ainda há esperança! Mesmo com governo bagunçando os nossos sonhos.

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