Conversa com a comentarista Dorothy, sobre Fidel Castro na Colômbia, Joel Silveira, marechal Lima Brayner e Castelo Branco

Dorothy: “Estive algumas vezes em Cuba. Minhas considerações a respeito do belo post e de Cuba. O Sargento Batista presidente, corruptíssimo. Foi deposto por um movimento revolucionário feito por pessoas certas, na hora certa, no lugar certo. Tudo contribuiu para que o movimento iniciado por Fidel tivesse sucesso. A viagem desde o México no “Granma”, a morte da grande maioria no desembarque, a Sierra Maestra e o início da marcha avassaladoramente para Havana.
Li e indico o livro escrito pelo editor-chefe do “New York Times”, Herbert Matthews cujo título é: O HOMEM QUE INVENTOU FIDEL.
Realmente Che Guevara foi uma figura impressionante, beneficiado pelo fato de ter morrido jovem. Raúl Castro, o único comunista da família Castro, viveu sempre à sombra do irmão famoso e líder incontestável.
Quando Fidel se for, parte dos 12 milhões de cubanos chorarão inconsolavelmente – os mais velhos. E parte comemorará – os mais jovens.
Concordo plenamente que Fidel, gostando ou não gostando, é História pura, interpretada das formas mais diferentes. Ditador? Sem nenhuma dúvida, mas que personagem. Leio e releio sobre a trajetória de Fidel. Desde a sua participação no Bogotazo em abril de 1948, quando morreu o líder colombiano Jorge Eliécer Gaitan, fato que originou a FARC.
A localização de Cuba e o fato de ser uma pequena ilha foram decisivos para o sucesso da revolução a partir da Sierra Maestra.
Com a morte de Fidel e de Raúl serão necessários 20 anos ou mais para uma possível recuperação de Cuba que está DEGRADADA.
Parabéns ao jornalista pelo excelente post.”

Comentário de Helio Fernandes:
Obrigado pelos esclarecimentos e considerações. Batista foi deposto duas vezes, era corruptíssimo como você registrou. Não li o livro de Herbert Matthews sobre Fidel, mas conheço alguma coisa de sua vida, citei o fato dele ser muito amigo de Fidel e ter casa de fim de semana em Havana.

Quanto ao chamado “Bogotazo”, me interessou muito como acontecimento, e por causa de um fato: fui muito amigo de Joel Silveira, o maior repórter do seu tempo, e um dos maiores da história. Éramos mocíssimos, eu, Secretário-Adjunto (a terminologia usada) da revista “O Cruzeiro”, a maior da época e de sempre. Chegou a vender 750 mil exemplares semanais, com a população pequena e sem assinaturas. Muito diferente de hoje, quando as revistas encalham nas bancas, mas chegam pelo correio.

Joel dirigia a revista “Mundo Ilustrado”, mas não abandonava a condição de repórter. Estivera na Itália, cobrindo a participação da FEB na Segunda Guerra Mundial, como correspondente do “O Jornal”, órgão líder Associado.

Até 1947 escreveu um livro sobre o que viu na guerra, mas 10 anos depois escreveria o segundo, esse importantíssimo. Não digo que foi o melhor escrito sobre a participação do Brasil, estaria esquecendo a realidade. Esse título cabe ao coronel (mais tarde, Marechal) Floriano de Lima Brayner, Chefe do Estado Maior do comandante da FEB, Marechal Mascarenhas de Moraes.

Como a visão do posto onde estava tinha posição privilegiada, sabia do que se passava, e a obrigação de relatar ao comandante-marechal, tudo o que acontecia.

Foi o mais terrível libelo a respeito do tenente-coronel Castelo Branco, autor do planejamento e a execução do assalto de Monte Castelo. Depois do assalto frustrado, onde se localizaram as maiores perdas da FEB, Castelo Branco foi recriminado e repreendido em público. E chorou (não é forma de expressão, chorou com lágrimas), deveria ter sido mandado de volta imediatamente.

E depois dos dois livros impressionantes do coronel, Castelo Branco não poderia ter sido “presidente”, mesmo entre aspas. No seu segundo livro sobre a FEB, Joel cita o já então Marechal Lima Brayner, que foi Chefe da Casa Militar de Nereu Ramos, enquanto o país esperava a posse de JK, depois do 11 de Novembro de 1955. (Isso é mais história).

Em abril de 1948, de férias, Joel Silveira foi à Colômbia. Um repórter, alem da competência, tem que ter sorte. Joel estava em Bogotá, quando Jorge Gaitan foi enforcado num poste de energia. As férias imediatamente ficaram para depois, mandou uma série de reportagens, contando o que presenciava por acaso. (Naquela época, não existia a cobertura de hoje).

Fidel Castro estava lá, com 22 anos, nem preciso dizer que mesmo um grande repórter como Joel não conhecia Fidel, nem podia “adivinhar” que, 11 anos depois, começaria a entrar na História, da qual não sairá mais. (Como disse anteontem e reafirmo hoje).

***

PS – Compreendo perfeitamente que muita gente não tenha gostado do que escrevi. A interpretação dos fatos não pode ter regras fixas, a ótica é naturalmente convergente ou divergente.

PS2 – Um dos meus objetivos, além de contar e relembrar fatos, é permitir o debate sobre eles. Não teria sentido ter vivido tanto e participado intensamente, e deixar tudo na memória. Agradeço a Dorothy e aos que escreveram e irão escrever, o que é quase uma obrigação de todos.

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *