Conversa com comentarista, sobre a “reforma partidária” do governo ditatorial de 64

José Antonio: “Não me parece exato dizer que os militares não fizeram reforma partidária. Os múltiplos partidos (parece-me que eram 13) existentes em 1965 foram reduzidos a dois: a Arena, que dava sustentação ao governo, e o MDB, que se apresentava como oposição. Se isso não foi uma reforma…”

Comentário de Helio Fernandes:
Não reformaram nada. Reduziram os partidos para dois, era mais fácil governar. Criaram a Arena e o MDB, logo identificados como o partido do “SIM” (Arena) e do “SIM, SENHOR” (MDB). Dominaram os dois através de “eleições indiretas”.

No Estado da Guanabara (depois Estado do Rio, com a fusão criminosa de Giesel), como o MDB tinha maioria, o presidente desse MDB, Chagas Freitas, foi feito “governador” duas vezes, com todas as aspas e paetês.

Em 1974, o MDB elegeu 16 senadores em 21 estados e 1 Distrito Federal. Os militares no Poder ficaram com medo. Então, para 1978, Geisel criou os biônicos. 22 senadores estava garantidos (eram duas vagas), não importava que perdessem os outros.

Em 1981, mudança total, João Figueiredo criou esse pluripartidarismo amaldiçoado que está aí. Já existia o PP, com Magalhães Pinto e Tancredo Neves. Este me convidou para entrar no partido, com o compromisso público para que eu fosse candidato a senador.

Fui recebido com grandes festas em Brasília, direito a discursos de Magalhães e de Tancredo, me chamando de “maior oposicionista do Brasil durante a ditadura”. Eu já era tido e havido como eleito, a mesma coisa que ia acontecer em 1966, só que para deputado federal.

No final desse mesmo ano, eu almoçava em Brasília com Tancredo e o Doutor Ulisses, quando veio um emissário do Planalto, com o recado: “O presidente João Figueiredo quer falar com os dois, imediatamente”. Lógico, largaram a comida, saíram correndo, devia ser alguma coisa importante, era mesmo.

Figueiredo comunicava aos dois líderes políticos mais importantes do país (a ditadura examinou cassá-los, ficou com medo) que “OS PARTIDOS HAVIAM ACABADO”. Podiam ser criados outros, com as exigências que seriam transmitidas pelo professor Leitão de Abreu, o homem mais importante do governo, depois da saída de Golbery.

1 – Tinham 30 dias para essa modificação. 2 –Não havia limite ou limitação para o número de partidos. 3 – As siglas deveriam começar com um P de partido. 4 – Mas não previram nem estipularam o número de letras dessas siglas. 5 – No MDB, alguém pouca coisa mais inteligente colocou um P na frente do MDB, ficou sendo o maior de todos, PMDB, carreirista mas histórico.

6 – Jamais consegui saber que fez essa “mágica simples”, que irritou profundamente João Figueiredo. 7 – Apesar da ditadura, não pôde fazer nada, já saíra no Diário Oficial. 8 – Tancredo e Magalhães consultaram especialistas, a conclusão; em 30 dias não dá para “oficializar” o PP, a solução é ser INCORPORADO pelo PMDB, o que aconteceu numa reunião tumultuadíssima. 

9 – Lá se foi minha candidatura ao Senado. Era só uma vaga, pertencia ao PMDB. Tancredo e Ulisses me convidaram para deputado, “você ser o mais votado do Estado do Rio e talvez do Brasil”.

10 – Minha resposta na hora: “Cassado há 16 anos, não quero repetir a candidatura, depois de tanta luta. Meu projeto continua o mesmo de 1966”.

Como você vê, José Antonio, essa pluripartidarismo de 37 ministros, herança macabra, perdulária e ingovernável, vem da ditadura.

 

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