Conversa com comentaristas, sobre Golbery e a derrota de Lula e Brizola para Collor em 1989.

Hugo Gomes de Almeida: “Helio, já lhe foi perguntado sem resposta: Golbery colaborou para o surgimento de Lula — visando dividir a liderança da classe trabalhadora — com receio de que Leonel Brizola voltasse muito forte do longo exílio e fosse eleito presidente?”

Comentário de Helio Fernandes:
Nenhuma influência. Para o famoso golpista, Lula não tinha a menor importância. Assim que Brizola voltou para o Brasil, todas as atenções dele foram para Brizola. Um homem da capacidade de ação e de mobilização de Golbery, não podia desprezar um adversário como o ex-governador.

A grande vantagem de Golbery em relação a Brizola e sua obstinação de ser candidato, se fortaleceu na diferença de idade. Lula acabou de fazer 65 anos, Brizola teria 90. Nessas batalhas estrondosas, 25 anos não podem ser superados.

Em 1998, Brizola fez a última tentativa, aceitou ser vice de Lula. Este com 53 anos, Brizola com 78. não dava mais.

***

POR QUE COLLOR EM 1989?

Oigres Martinelli: “Superprecisas suas colocações, Helio. Mas, no embate de 1989 (nem sei se Golbery ainda estava vivo!) ele ou quem conspirou para dar a Collor um adversário tão favorável? Você acha que Brizola teria perdido as eleições para o ex-“governador” das Alagoas, caçador de marajás?”

Comentário de Helio Fernandes:
Golbery morreu em 1987, portanto nada a ver com a eleição de 1989. Estava com 76 anos, mas desde 1981, não tinha mais nenhuma atividade, sempre “do outro lado dele mesmo”. Nesse 1981, chefe da Casa Civil de João Figueiredo, foi embora e mandou carta estranha e extravagante ao “presidente”, simplesmente acusando o CODI-DOI de estar contra a “revolução e contra ele”. Espantoso.

Já contei que em 1977, apoiou a tentativa de “golpe” de Silvio Frota contra Ernesto Geisel, seu parceiro de sempre. Ele era assim. Quando sentia que o governo ao qual estava atrelado “chegava ao fim”, tentava criar outro.

Não tinha caráter, escrúpulos, ética, lealdade, totalmente desprovido de sentimentos, até mesmo pelo país. Mas foi importantíssimo, de 1951, quando completou 40 anos, até 1981, se envolveu em todas as conspirações. Perdeu muito, ganhou também muito, foi o mais eloquente e ambicioso admirador de si mesmo.

Em 1989, até parecia um sistema pluripartidário, com inúmeros candidatos. Tirando os que não tinha expressão, que se candidatavam para aparecer e justificar o que recebiam do Fundo partidário, vejam quantos candidatos além de Collor.

O doutor Ulisses, Mario Covas, Lula (todos de São Paulo), Brizola. O doutor Ulisses tinha como vice o governador da Bahia, Waldir Pires (que acabara de derrotar ACM-Corleone) renunciou para compor a chapa com o presidente do PMDB.

Já escrevi, não tenho a menor dúvida de que, indo para o segundo turno, Brizola venceria e seria presidente. Não foi para o segundo turno por causa de meio por cento, a vantagem de Lula. Insisti muito, “você precisa ir mais a São Paulo”, ele não se entusiasmava, “tinha” o Rio Grande do Sul e o Estado do Rio, que não falharam, mas não foram suficientes. Quando chamou Lula de “sapo barbudo”, estava sendo autêntico, sincero, e com a certeza de que ia fazer história. Eu também acreditava.

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