Conversa com leitor-comentarista sobre o golpista Golbery, suas relações e brigas com Lacerda

CSG: “Jornalista, o senhor ficou de escrever sobre Golbery, da mesma forma como relatou a carreira do general Geisel. Seria possível? Agradeceria.”

Comentário de Helio Fernandes:
A vida dele é tão movimentada e extravagante, que daria para escrever dias. Foi importantíssimo, mas sempre derrotado, até 1964. Apenas citações esparsas, de vários episódios.

Golpista nato, perdeu três vezes seguidas, sempre aliado, amigo e companheiro de Lacerda. Só foram vitoriosos em 64, brigadíssimos, mas os dois, do mesmo lado. Pelo telefone, no dia 31 de março, Lacerda chegou a dizer ao ainda não “presidente” Castelo Branco: “Se Golbery estiver nesse movimento, eu saio”. Castelo coordenou “uma trégua”, Lacerda fez duas exigências: “Não quero ver esse Golbery nem de longe. E preciso que o senhor mande reforços, o Almirante Aragão avisou pelo rádio, vai assaltar o Guanabara”. Castelo concordou com a primeira, sobre reforços, falou: “Não posso lhe ceder nada, somos dois Exércitos, um de cada lado, equilibradíssimos”.

Lacerda então mandou colocar aqueles caminhões enormes da Comlurb, bloqueando os acessos. Os fuzileiros ultrapassariam tudo, mas o Almirante desistiu.

Golbery foi muito mais importante do que Lacerda. Agia nos bastidores, Lacerda era um perdulário de talento mas não de habilidade. Primeira missão de Golbery: fundar, aparelhar e colocar o SNI em condições de ser a grande arma (de ataque e defesa) do golpe.

MISSÃO: CRIAR E ORGANIZAR O SNI

Golbery tinha quatro “compromissos-missões”, só um golpista blandicioso como ele, aceitaria. O ano todo de 64 (9 meses), a organização do SNI, nas bases da CIA e do FBI. Foi uma trabalheira terrível. O início foi gravar quase 3 mil telefones com equipamento de última categoria.

Começou então a primeira: liquidar a candidatura Lacerda a “presidente”. Muitos se enganaram, diziam impensadamente, “Lacerda jogou fora o Poder, rompeu antes do tempo”. Apesar de ligadíssimo aos militares, Lacerda nunca foi candidato deles. Golbery enterrou a “candidatura” Lacerda, mas como bom estrategista, tinha objetivos e não ódios ou inimizades.

Brigado e rompido com Lacerda, respeitava-o e sabia que não adiantava derrotá-lo, era indispensável afastá-lo. Surpreendeu o próprio Castelo, sugerindo: “O senhor precisa convidar o Carlos Lacerda para embaixador na ONU, ele tem todas as condições”.

Castelo se surpreendeu, mas como adorava o “maquiavelismo”, chamou Lacerda e fez o convite.

Era tão evidente, o objetivo estava tão claro, que Lacerda recusou na hora. Nesse dias, às duas e meia da madrugada, o telefone toca na minha casa. Às 8 ou 9 da noite, eu poderia não atender. Mas a essa hora? Quem seria?

Atendi, era o governador, que me disse: “Helio, preciso falar com você, com urgência”. Respondi: “Lacerda, a esta hora? Não sei nem como se entra no teu apartamento”. E ele: “Estou no Guanabara”. O que poderia fazer? Fui.

Contou toda a conversa com Castelo, o que chamou de “preparação” para o fim de tudo, aí textual: “Antes de terminar, me convidou para embaixador na ONU, meu mandato termina daqui a uns meses, não precisaria nem renunciar”.

Interrompendo o governador, que na verdade fizera um pausa, conclui e comentei: “Você aceitou na hora?” Aparentou perplexidade, respondeu com veemência, quase perguntando: “Por que eu deveria aceitar? Deve ser coisa do Golbery para me afastar”. (Vejam como se admiravam, mesmo brigados. Um sempre acreditava na competência, mesmo hostil, do outro).

Mais calmo, perguntou: “Vamos ver por que você acha que eu deveria ter aceito”. (Naquela época era assim, o acordo ortográfico burro, com Portugal, transformou em ACEITADO). Ainda não surgira a Frente Ampla, respondi ao governador: “Você pode estar certo ao acreditar que eles querem te liquidar. Mas quem sabe eles não queiram te afastar, e sim preservar?”

OBJETIVO: LIQUIDAR COSTA E SILVA

Meses depois, Castelo mandou Bilac Pinto como embaixador para a França e Juracy Magalhães para os EUA, eram opções, começava o segundo grande objetivo de Castelo-Golbery: liquidar Costa e Silva. Complementando então, o que se chamou de “prorrogação do mandato de Castelo”.

Na verdade, era a liquidação do Ministro da Guerra Costa e Silva, sucessor natural de Castelo, Só que apesar de estrategistas, eles se iludiam com teorias e malabarismos mentais, ignoravam os fatos. Numa ditadura, o Ministro da Guerra garantia o presidente, mas é obrigatoriamente o seu sucessor.

A prorrogação não foi tão fácil quanto Golbery imaginava, Lacerda fizera um cineminha num subterrâneo de guardados, quase toda noite-madrugada íamos ver filmes e conversar. Numa noite, víamos “Moscou contra 007”, ele falou sobre os embaixadores Bilac Pinto e Juracy Magalhães, estava visivelmente convencido de que deveria ter ido para a ONU. O telefone tocou de Brasília, não comentou.

Falamos então sobre a “prorrogação”, que desagrava até mesmo a muitos militares. (Naturalmente generais). Perguntou como estava a tramitação na Câmara, ele mesmo respondeu: “Vai passar com facilidade, temos que suportar”. Respondi então com fatos e não irrealidades.

Textual: “Governador, o projeto está empacado e empatado na Câmara, muitos deputados estão esperando a tua palavra. Com meia dúzia de telefonemas você derruba essa prorrogação”. Pareceu completamente surpreendido, aproveitei para aprofundar a questão.

“Carlos, você não percebeu que essa prorrogação é a forma encontrada para dinamitar a sua candidatura? Se dessem 5 anos de mandato a Castelo, até seria razoável. Mas todo esse desgaste, balbúrdia e confusão, apenas para mais um ano ao Castelo Branco?”. Senti que havia embalançado Lacerda, ele disse: “Vamos almoçar amanhã e aprofundar a questão”.

No dia seguinte cheguei ao Guanabara quase a 1 hora, encostei meu Fusca (minha mulher ficava furiosa, “um homem como você andando num carro desses”), subi. O governador mandou dizer que estava terminando, fiquei na janela, com uma vista linda. Aí vejo parar um carro, e saltaram Armando Falcão (que fora Ministro da Justiça de Juscelino e seria de Geisel), Abreu Sodré (que mais tarde seria “governador”) e mais importante do que tudo e do que todos, o doutor Julio Mesquita, a maior influência que alguém poderia ter sobre Lacerda.

Imediatamente desci pelo outro lado, peguei meu carro e me dirigi para a saída. Lacerda viu da janela, me conhecia muito bem, gritou para o doutor Marcelo Garcia, que estava ao lado, “não deixa o Helio ir embora”. (Uma explicação: Lacerda me gozava muito, eu só o chamava de você, mas Marcelo Garcia, Chefe da Casa Civil, eu tratava sempre como doutor. Acontece que ele foi o pediatra de todos os meus filhos).

Fui para o jornal, determinei, “se o governador me ligar, pode dizer que não estou”. Só fui falar com ele por volta das 10 da noite. Almoçamos no dia seguinte. E me contou: “Helio, o doutor Julio falou que, se a prorrogação for derrotada, haverá nova reviravolta, muita gente será presa e cassada, eles não admitem”.

Respondi: “Ora, Carlos, se vamos ficar aceitando intimidações em cima de intimidações, é melhor logo resistir de uma vez por todas, que façam o que bem entenderem”. E como o governador já estava visivelmente compenetrado (ele não resistia ao doutor Julio Mesquita), disse para ele: “Carlos, o melhor caminho para a resistência não é a subserviência”. E dando a conversa por encerrada, terminei: “Agora vamos falar sobre futebol”. Ele detestava.

CASTELO GANHOU POR UM VOTO

As coisas se precipitaram, a votação foi em 3 dias, tudo controlado e comandado por Golbery. Apesar disso, a votação ficou empatada durante horas, foi aprovada com a “vantagem” de 1 voto.

Impressionante, Golbery dominou até a sucessão do próprio Lacerda na Guanabara. Até hoje não consegui descobrir como ele colocou como candidato de Lacerda, seu Secretário de Educação, Flexa Ribeiro.

Do outro lado, emplacou Negrão de Lima. Os comunistas, como sempre precisando de dinheiro, pagos por Golbery, deram a palavra de ordem: “Votem em Negrão com um lenço no nariz, mas votem”. Votaram e ganharam. A derrota de Lacerda foi total, ele e Flexa Ribeiro eram co-sogros, o filho de Lacerda casado com a filha do Flexa. Não dava nem para desconversar.

Golbery ganhou todas, menos a última, contra Costa e Silva. Presidente no Brasil da Dow Chemical (o maior fabricante de napalm do mundo) foi promovido a presidente para toda a América Latina, dessa empresa da morte.

Vou terminar, de outra forma não paro mais. Em 1966, a candidatura Costa e Silva já consolidada, Golbery em pânico, tratou do futuro dele e de Ernesto Geisel (o que aconteceu com Geisel, já contei). Como estava na reserva, Golbery foi ser Ministro do Tribunal de Contas da União, Pretendia  ficar lá até os 70 anos. Com o fim de Costa e Silva, se aposentou em 1969, ficou esperando.

Não podia acreditar que o único personagem que odiava para valer, Garrastazu Médici, fosse “presidente”. Ficou quase 5 anos na bela fazenda de Goiás, cercado de áulicos e bajuladores. O sucessor de Médici foi Ernesto Geisel, que maravilha viver,

Mas antes de ratificar Ernesto Geisel, Médici procurou-o e perguntou, frente a frente, “quais são as suas relações com  Golbery?”. Geisel, um descrente completo, respondeu: “Não vejo Golbery há anos”. Médici ficou satisfeito, Golbery tomou posse com ele, foi o mais influente até se afastar.

***

PS – Depois da prorrogação e de todas as consequências, escrevi um artigo do qual gosto muito. É uma pena que a Tribuna esteja fechada até para mim, gostaria de reproduzi-lo.

PS2 – Mas não faz mal, o conteúdo está todo no título: “1965, Carlos Lacerda, o candidato invencível de uma eleição que não vai haver”.

PS3 – Na época do artigo, ainda estava mantido o calendário eleitoral, com eleição direta no final de 1965. Aconteceu tudo como escrevi.

PS4 – Prova de isenção do repórter. Em 1966, o MDB lançou minha candidatura a deputado federal, logo fui colocado entre os mais votados (pelo MDB, quase todos estava cassados ou exilados). Golbery procurou pessoalmente amigos do repórter, incluindo um compadre, Procurador Geral (de carreira) na Guanabara.

PS5 – Golbery tinha uma proposta: se eu desistisse da candidatura, não seria cassado. E acrescentava: “Ele é moço, terá outras oportunidades”. Concluía: “Não podemos deixar que seja deputado, ainda mais como está dizendo na campanha, que vai falar todos os dias”.

PS6 – “Já conversei com o presidente Castelo, ele concorda em não cassar o jornalista, foi taxativo: “Se ele apenas com um jornal nos atormenta dia e noite, não admite nem conversar, com duas tribunas, a do jornal e da Câmara, impossível”.

PS7 – Lógico que não admiti nada, fui cassado. Mas se tivesse aceitado, teria durado muito pouco, seria cassado em 1968. Como os poucos que restaram, Incluído meu amigo Mario Martins, eleito senador na eleição que não disputei, ganhou o mandato que seria roubado em 1968.

PS8 – O ostracismo de Golbery começou em junho de 1977, quando passou a  incentivar a candidatura de Silvio Frota à sucessão do próprio Geisel. E terminou, em 12 de outubro desse mesmo 1977, quando Ernesto Geisel desfez o golpe e demitiu Silvio Frota do Ministério do Exército, escolhendo logo João Figueiredo.

PS9 – Vencedor nos episódios anteriores, Golbery jogou fora todo o passado. Como no filme famoso “Os carrascos também morrem”. provou. Oo que ele mais desejava não conseguiu: ser presidente da República. Num regime democrático, não se elegeria. Na ditadura dos generais, não tinha vez, era da reserva.

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