Conversa com leitores: a verdade sobre Getulio Vargas, o ditador que guardava ódio no freezer (royalties para Tancredo Neves)

Antonio Santos Aquino:
“Helio, há 6o anos combates Getúlio, mesmo ele tendo se suicidado há 56 anos. Este ódio contra Getúlio teve dois personagens em sua linha de frente. Carlos Frederico Werneck de Lacerda e Afonso Arinos de Melo Franco. Sem esquecermos que O pai de Lacerda, Maurício de Lacerda foi ministro plenipotenciário para os “Países do Prata” da Revolução de 1930, nomeado por Getúlio. Com a prisão de seus dois irmãos, Paulo e Fernando, que sendo comunistas, faziam uma propaganda ostensiva nas fábricas do DF. Maurício foi para oposição. Surge então o jovem Carlos Lacerda que desde aquele momento, movido por um ódio incomensurável,combateu Getúlio e seus seguidores de maneira implacável, diuturnamente, usando de todas as armas; envenenando todos os fracos que encontava pela frente, trazendo-os para sua causa. Com uma personalidade insinuante,um poder de convencimento ímpar, penetrou em quartéis, bases e navios,conquistando a confiança de parte substancial das Forças Armadas(a UDN Militar). Também dos americanos ganhou confiança.Combateu Getúlio até seu suicídio. O pai de Afonso Arinos era o Embaixador Afrânio de Melo Franco, nomeado por Getúlio. A família Melo Franco fez dissidência quando da morte do presidente de Minas. Esperavam que Getúlio nomeasse Vírgílio de Melo Franco que tivera papel importante na revolução de 1930, mas Getúlio nomeou Benedito Valadares. Afonso Arinos, como Lacerda foi adversário feroz de Vargas até sua morte por suicídio. SÓ PARA LEMBRARMOS: Lacerda depois da morte de Getúlio nunca mais fez comentários sobre ele. Diz em seu livro que rezou quando soube do suicídio de Getúlio. Afonso Arinos só vinte anos depois deu uma entrevista a Tribuna falando de Getúlio. No depoimento mostra arrependimento do discurso que fez contra Getúlio e em suas memórias pede que excluam seu prununciamento na câmara, que ele entendia ter motivado o suicídio de Vargas. Esta é uma página da história que não tem contestação”.

Comentário de Helio Fernandes:
Depois de uma porção de bobagens que publica há anos, o senhor Antonio Santos Aquino volta a citar fatos mais ou menos verdadeiros, só isso, mais ou menos:

1 – Diz que “o pai de Afonso Atinos foi nomeado embaixador por Getúlio”.

2 – Diz que “a família Melo Franco fez dissidência , quando da morte do presidente de Minas. Esperavam que Getúlio nomeasse Vírgílio de Melo Franco, mas ele nomeou Benedito Valadares”.

3 – Diz que “Afonso Arinos só vinte anos depois deu uma entrevista a Tribuna falando de Getúlio”.

4 – Diz que “em suas memórias, ele pede que excluam seu pronunciamento na Câmara, que ele entendia ter motivado o suicídio de Vargas”.

5- Diz que “esta é uma página da História que não tem contestação”.

Coloquei a numeração de 1 a 5 nas afirmações de Aquino, para respondê-las uma a uma, mostrar como sabem pouca coisa de quase tudo.

Não gosto de resposta pessoal, que leva sempre à baixaria. Apesar da minha forma de expressão ser a palavra escrita e a palavra falada, tive muito menos tempo do que desejava para exercer as duas. Sempre diziam, “o Helio combate demais, é impossível manejá-lo ou enfrentá-lo”.

Concordo que gosto do combate a “céu aberto”. Se tivesse vivido no romantismo da Idade Média, teria que acordar muitas vezes antes do sol nascer, para travar duelos na Quinta da Boavista. Na verdade, segui apenas os ensinamentos do Apóstolo Paulo, “travei o bom combate”.

Nada de ataques, de represálias, de desvios e utilização de alvos privados, mesmo tendo sido atacado e atingido como fui e como pode se constatar no que transcrevi, escrito (?) pelo senhor Antonio Santos Aquino.

O senhor Antonio Santos Aquino, lamentável e melancolicamente, errou de endereço, devia escrever para os herdeiros de Lacerda e Afonso Arinos. Nessas conversas que tenho mantido, com diálogos, perguntas e respostas sobre Getulio Vargas, os dois homens públicos citados pelo senhor Aquino, não apareceram nenhuma vez.

Também não sou porta-voz nem de Lacerda nem de Afonso Arinos, e portanto ele não deveriam ser incluídos no texto. (Num dia de falta de assunto, o grande cronista Ramalho Ortigão escreveu vagamente, não se referia a ninguém especifica ou nominalmente. Alguém, querendo se exibir (seria o senhor Santos Aquino da época) apareceu respondendo ao texto, Ortigão fulminou: “Saia do meu personagem, o senhor não é meu personagem”. Podia fazer o mesmo, não gosto do desapreço, que é parente próximo do desprezo, mas vou responder, colocando as coisas nos lugares.

Não tenho 60 anos de ódio a Vargas nem a ninguém. Não tive nem tempo. Quando Vargas NASCEU politicamente em 1930, eu era um jovem estudante, fazendo admissão no Pedro II, tendo a sorte ou a felicidade de ter professores como Raja Gabaglia, Antenor Nascentes e Euclides Roxo. Vargas MORREU politicamente em 1945, eu estava nascendo jornalisticamente.

De 1930 a 1945, não tive nem poderia ter mesmo, nenhum contato ou diálogo com Vargas. Depois, já não me interessava, só podia ser profissionalmente, e o político profissional Getulio Vargas perambulava ou divagava entre as salas do Palácio do Catete, tão solitário e abandonado, que muitos se surpreenderam com a sua presença na reunião ministerial do dia 23 de agosto, véspera do suicídio. E quem comandou a reunião não foi Vargas e sim o general Zenobio, ávido de se ver livre de tudo.

Portanto, como posso ter ódio de 60 anos, a alguém com quem jamais falei? Também não fui amigo i-n-c-o-n-d-i-c-i-o-n-a-l e publicamente de ninguém. A partir de 1947, depois da Constituição terminada, conheci Afonso Arinos de Melo Franco. Ele não foi eleito em 1945, ficou como segundo suplente de deputado.

Em 19 de janeiro de 1947, se realizaram eleições para governadores e as constituintes estaduais. O deputado Milton Campos, eleito governador de Minas, renunciou, abriu uma vaga. Convidou o deputado Magalhães Pinto para secretário de Finanças, outra vaga. Afonso assumiu e logo se destacou.

Foi meu primeiro grande trabalho jornalístico, cobertura para a revista O Cruzeiro. Conheci então Carlos Lacerda, numa bancada de 17 jornalistas. Mas minha grande admiração ali não foi Lacerda e sim Prudente de Moraes neto, das maiores figuras que este país já teve.

Lacerda foi o maior parlamentar que conheci. Mas o discurso mais importante que ouvi até a mudança da capital, foi de Afonso Arinos, naquela noite mágica, metafórica e iluminada, da véspera do suicídio.

Jamais fui porta-voz deles, que tinha mandatos e púlpitos para dizerem o que quisessem. Às vezes não diziam porque  não queriam, não interessava. Eu, por ordens superiores, não conseguia ser nem o porta-voz de mim mesmo. Trágico, dramático, surrealista, mas rigorosamente verdadeiro.

Eliminada a parte dispensável e intransferivel, mostremos a fragilidade das afirmações “históricas” do senhor Aquino. Ha!Ha!Ha!

1 – O pai de Afonso Arinos, (por que não dar o nome, Afrânio) jamais foi embaixador. Ministro da Viação de Wenceslau Bras, de 1914 a 1918, foi chamado pelo então presidente eleito Rodrigues Alves, que o confirmou no cargo. Em 1930, foi ministro do Exterior (chanceler), nomeado por Osvaldo Aranha, Flores da Cunha, João Neves da Fontoura e o filho Virgilio, esses os “grandes” do movimento,

É possível até que, burocraticamente, Vargas assinasse alguma coisa, era Chefe do Governo Provisório. Mas não escolhia.

2 – A família Melo Franco não abriu dissidência alguma, Vargas é que guardava ódio no freezer, como diria Tancredo 30 anos depois. E se vingou logo, logo, quando morreu no cargo, no final de 1932, o presidente de Minas, Olegário Maciel. (Por que não dizer o nome dele?).

Virgilio queria ser nomeado e Gustavo Capanema também. Quem tratava com Vargas, à distância, era o ex-presidente de Minas, Antonio Carlos Ribeiro de Andrada, descendente do Patriarca.

Um dia, Vargas telefona pessoalmente (tinha horror a telefone, mas não queria que soubessem) para Antonio Carlos, pede, “venha a Catete, traga uma lista dos candidatos a presidente do estado”.

Grande líder, conversou com todo mundo, fez uma lista com 5 nomes, lógico, incluindo Virgilio e Capanema. Se hospeda no Hotel Glória, (a 100 metros do Catete), Vargas marca hora com ele. Vai, entrega a lista. Vargas lê, diz, “magnífica”. Fala, olhando para Antonio Carlos: “Coloca aí o nome de Benedito Valadares, para ficar um número certo”.

Antonio Carlos vai embora, imediatamente todos sabem: “O novo presidente será o prefeito do pequeno município de Pará de Minas, Benedito Valadares”. Foi, ninguém duvidava.

3 – Afonso Arinos deu muitas entrevistas à Tribuna, mas seu arrependimento foi quase imediato, Tendo se reconciliado com a família Vargas (por intermédio da filha Alzira) cortou tudo a respeito do discurso, tanto na Câmara quanto no Senado.

4 – Não tem nada nas “Memórias”. O filho embaixador, quando foi escrever sobre o pai, é que descobriu o que este repórter já publicara, AUTORIZADO.

5 – Pretensiosa mas histrionicamente, Aquino afirma que o que diz “é página da História, não pode sofrer contestação”. Ha!Ha!Ha!

***

PS – A História é contestada pela própria Historiografia. Se não fosse assim, não existiriam dezenas e até centenas de livros, sobre o mesmo assunto, e até o mesmo personagem.

PS2 – Rui Barbosa dizia, depois de perder mais uma disputa pela Presidência, em 1919: “Nem despeito nem ódio. A vida tem duas portas, a da entrada, pelo nascimento, a da saída, pela morte”.

PS3 – Minha admiração por ele, infinita e interminável. “Só esqueceu de lembrar” que em 73 anos de existência, deixou distante o nascimento e a morte.

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