Conversa com os leitores: “profecias” eleitorais, potencial de Requião, pessimismo com o PT e perseguição na ditadura de 64

João Nelson Torres:
“Jornalista, não tente ser profeta. Lembre que os votos femininos representam 52% do eleitorado”.

Comentário de Helio Fernandes:
Duas coisas, João Nelson, que me recuso a fazer ou ser. Não sou profeta, e detesto orador de sobremesa. Analista profissional, não tento adivinhar nem fazer projeção. Não protejo nem acuso ninguém, mas tenho noção total e absoluta de que sempre o comentário isento e convicto, desagrada mais do que agrada.

Só para simplificar. Evandro Lins e Silva (com seu extraordinário irmão Raul) foi meu advogado até 1961. Quando Jango assumiu, me chamou: “Helio, não posso mais ser seu advogado. Serei ministro e você, como sempre, oposição. Não podemos conjugar as coisas”. Acertou em cheio, e até mais do que pretendia.

Em 1963, fui preso e julgado pelo Supremo Tribunal federal. O julgamento ficou em 4 a 4, o presidente da República disse que “não sabia de nada”. Já acontecia naquela época, continuou acontecendo. Só para lembrar: 1963 é antes de 1964, e o Supremo, semana passada, não entendeu que 1981 (atentados terroristas praticados pelo SNI) vem depois de 1979 (Lei de Anistia). Acontece.

Para terminar: não entendi a referência aos 52 por cento de eleitores femininos. Quer dizer que mulher vota em mulher? E Dona Marina, não receberá nada desses 52 por cento dos votos? Acho que você está mais, muito mais para Maomé do que para Alá.

PMDB, um partido que
odeia disputar a Presidência

Welington Naveira e Silva:
”Concordo com você num ponto importante. O Brasil precisa de um homem como o governador Requião. De grande envergadura, corajoso, desprendido, culto, competente, experiente, inteligente, e que passou a vida defendendo o país, como nacionalista que é”.

Comentário de Helio Fernandes:
Você fez uma radiografia perfeita, sem precisar de muitas palavras. Ele sempre colocou o interesse do país acima do seu. Em 1994, favorito para o governo do Paraná, ofereceu seu nome ao PMDB par disputar a Presidência. O partido não aceitou, se elegeu governador até 1998, senador até 2002, novamente governador até 2006 e 2010.

Agora, com um mandato de 8 anos certo no Senado, se oferece outra vez ao PMDB. Para presidente ou vice, ambos os cargos incertos, de eleição duvidosa. Mas luta, tenta, sabe que tem condições de realizar, de chegar, se for eleito. Só que antes precisa de legenda. Do PMDB (seu partido de sempre) que odeia disputar a Presidência.

PT, o partido que ama
Niemeyer e vive fazendo curvas

Filipi:
“Jornalista, como você pode ser tão tendencioso em relação ao PT? E como pode ser tão pessimista analisando esse PT? Torço para que você esteja certo em relação ao Requião”.

Comentário de Helio Fernandes:
A propósito de Requião, peço que você aceite tudo que respondi ao Welinton Naveira. Quanto ao PT, não é possível pretender que se faça sobre ele análise horizontal, quando o partido em 30 anos de existência sempre combateu a si mesmo, se curvou a tudo.

O PT tem tal admiração por Oscar Niemeyer, é tão assíduo nas conferências do genial arquiteto sobre “linhas curvas”, que incorporou seu traço à própria linha do partido.

Num ponto, pode ficar certo: ao me chamar de pessimista, você entrou para o “Livro dos Records”, qualquer que seja o mérito ou explicação disso.

Lamento, Filipi, se você tivesse sido tão perseguido a vida inteira, preso, cassado, confinado, desterrado, sequestrado, ameaçado de todas as formas, não teria tempo de ser pessimista.

Sou básica e extremamente otimista ou já teria desaparecido. Só para você pensar antes de dormir. Em 1966, eu era candidato a deputado federal pelo MDB da resistência. Fazendo campanha, tinha que enfrentar sempre a pergunta: “Por que o senhor, um jornalista de repercussão nacional, quer se deputado”.

Resposta invariável deste repórter: “Não quero ser deputado, estou começando um projeto político. Se eu for eleito agora com a votação que projetam, em 1970 serei candidato a governador, em 1975 a presidente da República”.

Em 1966, projetavam para mim acima de 300 mil votos. (Em 1982, o extraordinário cantor popular que é o Agnaldo Timóteo, teve mais de 600 mil votos). Além do mais, no PMDB praticamente não sobrara mais ninguém, todos tiveram que ir para o exterior.

A eleição eram em 15 de novembro de 1966. No dia 12 fui cassado, preso, proibido de escrever, de dirigir jornal, de colocar meu nome em qualquer órgão. Meus advogados entraram com habeas corpus, no mesmo dia. O ministro Eloi José da Rocha, que presidira a Câmara dos Deputados, mandou registrar minha candidatura.

Foi uma pena. O Supremo perdeu junto comigo, os torturadores de plantão deram ordem ao Tribunal Eleitoral para nem contar os possíveis votos que eu teria, de eleitores que não souberam que eu havia sido cassado por 10 anos.

Em 1978, decorridos esses 10 anos, o MDB tentou lançar minha candidatura ao Senado. Resposta: “Agora a cassação não é mais por 10 anos. É PARA SEMPRE”.

Como vê, Filipi, não tenho tempo para ser pessimista.

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