Conversa com os leitores: Prestes foi herói? Desprezou o Poder? Não compreendeu a sua importância? Se tivesse dominado essa força, o que teria feito?

Elineusa Mattos:
“Acho que Prestes foi figura emblemática, destacado em muitos momentos, mas não o herói do qual tanto se fala. Getulio Vargas entregou a mulher dele, Olga Benario, aos nazistas, e depois ele apoiou o ditador. O senhor pode explicar?”

Comentário de Helio Fernandes:
Olha, Elineusa, você usou em relação a Prestes, uma palavra, “emblemática”, que jamais foi utilizada, mas que se adapta perfeitamente a ele. Só que é rigorosamente verdadeiro: na verdade não pode ser julgado por ninguém nem pessoalmente nem posteriormente. E mesmo a História (a autêntica e não a de “historiadores”) terá enorme dificuldade de localizá-lo, identificá-lo, situá-lo.

Atendendo ao teu pedido, vou mostrar fatos da vida dele, longe, bem longe de julgá-lo, mas lembrando episódios estranhos, que mostram Prestes em posições até contraditórias, mas de maneira alguma vulneráveis ou interesseiras.

Prestes jamais fez política. Foi personagem importantíssimo sempre, mas fora do padrão habitual, sem concessões. Se tivesse feito, teria chegado ao Poder, aí, sim, poderia ser julgado pelo que fez, pelo que deveria ter feito, pelo que não fez, pelas mais diversas circunstâncias, e até na hipótese negativa, por ter traído a ele mesmo.

Acontece que sempre repudiou o Poder, o que talvez mereça restrição, pois só o Poder realiza o personagem, determina sua fortaleza ou fraqueza. A segunda vez em 1945, quando você diz que “ele apoiou o ditador” (Chegaremos lá).

Mas falemos da primeira RECUSA de assumir o Poder em 1930, O mais destacado “Tenente” de 1922 em diante, Prestes foi o único a ser capitão com 24 anos de idade. Os “Tenentes” Siqueira Campos e João Alberto, intimíssimos na “Coluna”, foram a Montevidéu “convidá-lo” para chefiar o que então parecia verdadeiro e autêntico, a REVOLUÇÃO DE 30.

Os “Tenentes” tinham enorme importância no movimento, e viajaram autorizados por Osvaldo Aranha e João Neves da Fontoura, Vargas não sabia de nada. Ficaram 2 dias e meio, custaram a falar com o grande personagem, o que foram lá para falar. É que a conversa de Prestes estava tão estranha, que hesitaram.

Finalmente disseram: “Prestes, queremos que venha conosco para chefiar a Revolução que vai mudar os rumos do Brasil, estamos autorizados por todos”. Prestes desconversou, falou, falou, falou, só bem mais tarde decidiu, respondendo: “Mudar os rumos do Brasil, só com uma REVOLUÇÃO Comunista, estão preparados?”

Assombro dos dois “Tenentes”, o que estavam querendo fazer, era o que chamavam de “Revolução burguesa, dominada pela aristocracia rural”. E mesmo os que os mandaram convidar Prestes, não aceitariam (nem imaginariam) essa “REVOLUÇÃO COMUNISTA”.

Conversaram a noite toda, Prestes não queria o Poder a não ser da sua maneira, os outros não podiam ceder, não tinham autonomia de vôo. A propósito, pela manhã resolveram voltar, tomaram o avião, um Latécoère da Condor (depois Cruzeiro do Sul), que levantou e caiu logo em frente a Montevidéu. João Alberto, que não sabia nadar, se agarrou à asa do avião, foi salvo. Siqueira Campos, campeão de natação do Exército (chamado de “fita azul”) resolveu nadar. Foi encontrado dias depois, a quilômetros de distância, comido pelos peixes.

Vitoriosa a Revolução, (que logo perderia a maiúscula) Prestes estava cheio de amigos no Poder, não procurou ninguém, cuidou apenas do Manifesto Comunista, que publicaria em 1932. E sem perda de tempo viajaria para a União Soviética. Ficaria lá ate 1935, quando voltaria ao Brasil para fazer o que propusera em 1930, a Revolução Comunista.

O “Cavaleiro da Esperança” da Coluna extraordinária de 1924 a 1926, mantinha a dignidade, a credibilidade, a temeridade. E a distância do Poder, que jamais conquistaria. (Alguma vez teria considerado exercê-lo?)

A Revolução não era apenas dele, representava a expansão do comunismo, apoiado por Stalin, que até 1942, acreditava e seguia a orientação de Marx: “A Revolução Soviética (não usava a palavra comunista, isso em 1848) não poderá sobreviver existindo apenas em um país”.

Aí, Olga Benario, que nunca foi sua esposa, veio como SEGURANÇA de Prestes. Ela tinha os títulos para isso. Audaciosa, temerária, sem medo de nada, fora casada. E invadira uma penitenciária de segurança máxima na Alemanha, onde o marido estava preso.

Estarrecimento total com a ação, inteiramente bem sucedida, só que o marido morreria pouco depois. Mas a cotação dela ficou no auge, não como mulher e sim como guerreira. Por isso foi designada, a palavra é esta, para ficar sempre ao lado do “camarada” Prestes.

Juntos, homem e mulher procuram qualquer combinação ou resultado. Olga e Prestes logo se esqueceram, os alemães sempre pensaram em vingança. Não dava para esquecer aquela façanha. Aqui ficaram pouquíssimo tempo juntos, nos mesmos locais. Isso foi em meados de 1935, o que chamaram de “Intentona Vermelha” aconteceu em novembro desse mesmo 1935, não se encontraram nunca mais.

A Revolução Vermelha foi um fracasso, Olga Benario ficou durante todo o tempo com Harry Berger, souberam da “Intentona” quando ela estava grávida e já protegida por freiras, principalmente por causa da gravidez.

Prestes foi preso em 1936, março, na Rua Honório, no Méier, era o homem mais procurado do Brasil, encontrado por acaso, na batida num “aparelho do partido”, como se chamava na época.

Torturadíssimo pelo ex-“Tenente” Filinto Muller, com autorização de Vargas, ficou 4 anos num vão de escada na Policia Central. Comia ali, fazia as “necessidades”, foi o homem mais violentado do Brasil e do mundo, mesmo considerando a tortura coletiva dos nazistas.

Como em 1940 as comunicações eram precaríssimas, só aí veio a saber do destino de Olga Benario, não ficou impressionado, revoltado, emocionado, era o seu estilo. (Sacrificou a si mesmo tantas vezes, que seu comportamento nem era surpreendente). Nesse mesmo ano de 1940, Stalin mandou um embaixador especial pedir a Vargas a liberdade de Prestes. (Afinal, eram “aliados”).

Vargas viu a “joia rara” que tinha para negociar, respondeu que não podia libertá-lo, mas transferiu-o para a Penitenciária da Frei Caneca. Em poucos dias construíram para ele uma casa de madeira, quarto, sala, banheiro, podendo receber visitas e correspondência. Ficou nessa situação durante 5 anos, até que em abril de 1945, foi visitado por Hugo Borghi, amigo e emissário especial de Vargas.

O que pretendia o ditador? Libertaria Prestes em troca do seu apoio ao que chamaria de “Constituinte com Vargas”. Tudo combinado e decidido, Prestes foi solto. Mas o espantoso, (ou assombroso exemplo de sinceridade, podem rotular da maneira que quiserem) foi o comício que Prestes fez no Estádio do Vasco, ainda não existia o Maracanã.

A Polícia Militar (que sempre faz cálculos corretos) afirmou na época , que “estavam presentes 150 mil pessoas”, o que não era exagero.

Exagero ou exagerado e incompreensível, foi o exaltado discurso de Prestes, Criticou violentamente o COMPORTAMENTO DO POVO, afirmou textualmente: “VOCÊS ESTÃO INTERESSADOS NUMA GELADEIRA MELHOR, NUM RÁDIO MAIOR (ainda eram enormes). SÃO APENAS BURGUESES, NÃO PENSAM NA COLETIVIDADE”.

O povo saiu chorando, esse era o Prestes que NÃO PEDIA E NÃO CONCEDIA. Era o COMPORTAMENTO DO HERÓI? De grande Líder? De Revolucionário?

Não houve a Constituinte com Vargas, a ditadura acabou no dia 29 de outubro de 1945, às 5 e 10 da tarde, quando Vargas deixava o Catete ao lado do cardeal. Às 9 da manhã, nomeara chefe de Polícia o irmão “Bejo” (apelido depreciativo) que vivia bêbado em cassinos, dando tiros para o alto.

***

PS – Prestes se elegeu deputado e senador pelo Distrito Federal, não se destacou. Em 1948, com o Partido Comunista novamente na ilegalidade, voltou para a União Soviética, já estava casado com Dona Maria, esposa autêntica, com quem teve vários filhos, sua viúva.

PS2 – Prestes ficou órfão, expulso do Partido, e jamais se queixou. Não foi de maneira alguma o fim digno para um homem com a sua biografia.

PS3 – Prestes jamais compreendeu que só o Poder realiza e consolida ideias e convicções. Mesmo na “Coluna” invicta de 1924 a 1926, não pensou em chegar ao Poder. Tanto isso é verdade, que durante 2 anos, saíram de São Paulo, indo sempre para o Norte.

PS4 – Se quisessem dominar, conquistar e governar, marchariam para o Sul, onde estava o poder. Afirmaram sem o menor constrangimento, que “a Coluna acabaria com o fim do governo Bernardes”.

PS5 – Tanta bravura por um objetivo tão pequeno. Até mesmo inglório, apesar da repercussão que resiste, 84 anos depois.

PS6 – Combateram o presidente Bernardes, nacionalista, que como governador de Minas, liquidara a Hanna Minning, começando a destruir o monopólio (trust, como era chamado na época) dos minérios.

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