Convidada por Itamar, dona Sarah voltou ao Palácio da Alvorada 32 anos depois

Márcia e dona Sarah, com Itamar e Silvestre Gorgulho

Sebastião Nery

Delicadeza, simplicidade e espontaneidade eram marcas do Presidente Itamar Franco. Quem convivia com ele pode comprovar, como o jornalista Silvestre Gorgulho, autor deste relato:

Passava das 18 horas do dia 8 de junho de 1993. Uma terça-feira. Acabara de fechar minha coluna no jornal Correio Braziliense, quando a secretária da redação me chama:

– Silvestre Gorgulho, é do Palácio do Planalto.

Atendi. Era um velho amigo dos tempos da Embrapa, o advogado Mauro Durante, então secretário-geral da Presidência da República. Foi logo me perguntando se dona Sarah Kubitschek estava em Brasília. Disse que sim. Tinha estado com ela na casa da filha Márcia na véspera.

– Ótimo! Então aguarde um pouquinho que o Presidente quer lhe pedir um favor.

ITAMAR NA LINHA – Foram dois ou três longuíssimos segundos. Um favor? Pensei comigo. Para o Presidente da República? Uma nota no jornal? O que será, meu Deus? Entra o Presidente na linha e depois de um afetuoso cumprimento e lembranças passadas, diz:

– Silvestre, tomei uma decisão. Estou morando aqui numa casa da Península dos Ministros, mas o Henrique (Hargreaves), a Ruth (Hargreaves) e o pessoal da segurança, todos estão pressionando muito para eu me mudar para o Palácio da Alvorada. O que você acha?

– Presidente…

– Presidente não! Itamar.

– Sim, sim Presidente Itamar… Acho uma sábia decisão. O senhor já devia ter feito isso há mais tempo. Lá é a residência oficial do Presidente da República. Vai lhe dar mais tranquilidade…

– É o que todos falam. Mas eu só vou numa condição. Não quero ser intruso. Preciso de energias positivas. Aquela foi a residência de um homem de bem, de um grande brasileiro e fico assim meio sem jeito de chegar lá no Alvorada assim sem mais nem menos.

ARGUMENTO– Como sem mais ou menos, Presidente… Itamar! O Palácio é a residência oficial…

– Eu sei. Mas isto tudo para mim tem um ar de mistério. A áurea do Presidente Juscelino domina o Palácio da Alvorada. Não que eu seja supersticioso. Dizem, mesmo, que no Alvorada até o piano toca sozinho à noite.

Sem saber onde ia dar esta conversa, eu falava imaginando mil coisas. Lembrei-me da primeira frase de Mauro Durante: “A dona Sarah está em Brasília?”

– Presidente… Itamar. O que o senhor acha se eu conversar com Dona Sarah e contar desta sua intenção de ir para o Alvorada? Vou pedir para ela ligar para o senhor.

– Fale com ela. Se ela quiser me ligar é um prazer. Você sabe de minha admiração pelo Presidente Juscelino e por dona Sarah. JK me ajudou muito na eleição para o Senado em 1974. Quem sabe ela e Márcia passam toda a manhã comigo lá no Alvorada.

COM DONA SARAH – Em vez de ligar, fui ao Memorial JK. Encontrei dona Sarah com o coronel Affonso Heliodoro e a Cirlene. Contei-lhes toda história. Muito feliz e um pouco surpresa, dona Sarah foi logo dizendo que fazia o que Presidente Itamar quisesse. Era muito importante ele ir para o Palácio da Alvorada. Depois de alguns outros comentários, concluiu:

– Silvestre, conheço bem o presidente Itamar Franco. Ele é uma pessoa simples, mas muito atento aos simbolismos. Ele não quer chegar ao Alvorada sozinho. Vamos fazer o seguinte, vou lá recebê-lo com “honras de Chefe de Estado e espírito de Minas Gerais”.

Diante da aprovação e incentivo do Cel. Heliodoro, liguei para Mauro Durante ali mesmo do Memorial:

– Ministro, estou aqui no Memorial com dona Sarah Kubitschek e ela ficou muito feliz com a decisão do Presidente Itamar em se mudar para o Alvorada. Ela vai lhe falar.

Conversaram e acertaram dia e hora para ela e Márcia irem ao Palácio da Alvorada receber o Presidente Itamar.

NO ALVORADA – Assim, dia 10 de junho de 1993, uma quinta-feira, seis meses depois de ser efetivado Presidente da República, Itamar Franco se muda para o Palácio da Alvorada. Além de receber “as Honras de Estado e o espírito de Minas”, Itamar proporcionou uma das maiores emoções à dona Sarah: a eterna Primeira-Dama do Brasil havia deixado o Palácio da Alvorada pela última vez em 30 de janeiro de 1961. Há 32 anos ela não voltava à sua primeira residência em Brasília.

Numa entrevista coletiva, Itamar e dona Sarah falam para o jornalistas. Lembro-me da primeira pergunta de uma repórter de tevê:

– Dona Sarah, é verdade que aqui no Palácio da Alvorada o piano toca sozinho?

– Olha, minha filha – respondeu dona Sarah – este Palácio traz energias extras aos presidentes. Se à noite o piano toca sozinho, está provado o alto astral do Palácio da Alvorada. Há coisa melhor do que uma boa música neste ermo encantado do Cerrado?

Aplausos! E antes de se despedir de Itamar, dona Sarah agradeceu:

– Vivi um sonho, Presidente. São 32 anos sem contemplar as colunas de Niemeyer, sem entrar na Capelinha do Alvorada e sem colher uma flor deste jardim abençoado.

11 thoughts on “Convidada por Itamar, dona Sarah voltou ao Palácio da Alvorada 32 anos depois

    • Apesar de todas as minhas contrariedades quando ele se uniu ao colorr, sou hoje obrigado pelos fatos a admira-lo e dizer que ele está nos primeiros lugares da lista de melhores presidentes deste pais, a historia ha de contar seus feitos e nos fazer entender o quanto ele foi importante para nosso povo.
      O patinho feio da republica do pão de queijo que deu certo.

  1. “Delicadeza, simplicidade e espontaneidade eram marcas do Presidente Itamar Franco. Quem convivia com ele pode comprovar”, palavras de quem gozou da intimidade deste grande presidente.

    Bela e terna homenagem que o Presidente Itamar ao Presidente Juscelino Kubitschek, cuja aura, àquela época dominava o Palácio da Alvorada foi mais do que reconhecimento e homenagem, mas pedido de bênçãos. Agora isto mais não acontece, porque a aura no Palácio da Alvorada, depois de Itamar, foi tomada por espíritos do mal, hoje especialmente.

    Convidar dona Sarah Kubitschek para, junto com ela, conseguir mudar-se para o Palácio da Alvorada, que estava impregnado pela aura do Presidente Juscelino Kubitschek foi mais um gesto nobre, do Presidente Itamar, em memória do Presidente Juscelino. Foram estes dois os melhores presidentes da República que o Brasil já teve desde a sua proclamação.

    Fico aqui a sonhar que, ainda estando vivo num futuro próximo, eu possa presenciar os eleitores brasileiros tornarem vitoriosos nas urnas um Presidente como estes dois foram, ao contrário do que aconteceu após o fim do mandato do Presidente Itamar, quando os brasileiros só elegeram presidentes desonestos, e agora um desqualificado de extrema-direita, sem preparo, sem programa, e que está afundando o Brasil.

    Espero que os eleitores brasileiros, baseados nos exemplos de Juscelino e Itamar venham a acordar deste pesadelo que os levou às urnas, e em 2022 elejam não só um presidente íntegro como Juscelino e Itamar, mas também um congresso nacional, assembleias legislativas, prefeitos, governadores, deputados distritais como em Brasília, e nas câmaras de vereadores dos diversos municípios, hoje infestados de criminosos.

  2. Pobre destino desse país. Perdemos um Itamar, mas continuam por aí, como zumbis a nos assombrar, umas figuras caquéticas como sarneys, collors, fhcs, lulas, dilmas, temers…
    Que Sina…

  3. SEM ESQUECER DO QUE GETÚLIO, COM TODOS OS SEUS DEFEITOS, FEZ PELOS TRABALHADORES DO BRASIL QUE ESTAVAM TOTALMENTE ABANDONADOS, RENDO MINHAS EFUSIVAS HOMENAGENS A JUSCELINO E A ITAMAR, OS MELHORES PRESIDENTES QUE ESTE POBRE PAÍS JÁ TEVE. PENA QUE, AGORA, NOSSOS POLÍTICOS SÃO, EM SUA IMENSA MAIORIA, UM BANDO DE CANALHAS DOS MAIS NEFASTOS DO MUNDO, ASSOCIADOS AOS 90% DE VERMES PODRES DO STF. ATUALMENTE NOSSO PAÍS MORA NUMA PRIVADA INFECTA.

  4. Pois é, Al de tal. Se uniu a Collor. pena que Itamar, como vice, não teve a grandeza, nem coragem, nem isenção, lealdade nem espírito público, já que convivia com o presidente, para dizer-declarar, que jamais tivera conhecimento de nenhum ato ilícito de Collor no cargo. preferiu se omitir. Um santo, o Itamar. Na verdade, o candidato da preferência de Collor era Hélio Garcia.

  5. Ah, que saudade. Tenho 62 anos e como era muito novo no Juscelino e Jango, defino-o como o único presidente honesto que vi. Foi um acidente de percurso, se fosse candidato não deixariam ir longe. Nota triste foi sua saída do Alvorada, antecipada pela (misteriosa) morte precoce do sobrinho que com ele lá vivia.

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