Cooptar não resolve: oposição é indispensável ao governo

Pedro do Coutto

Na edição de terça-feira de O Estado de São Paulo, Dora Kramer, com o alto nível de sempre, ao analisar possíveis desdobramentos do processo Palocci, referiu-se à tentativa de cooptação, pelo Palácio do Planalto, de setores parlamentares, sindicais, classistas, como é o caso da bela adormecida UNE, no sentido de retirar de foco a questão ética em que se envolveu o ministro-chefe da Casa Civil.

Ao ler o texto, me veio à lembrança uma entrevista do ex-presidente Juscelino Kubitschek, em 61, na antiga TV Rio que não mais existe, na qual estavam os jornalistas Murilo Mello Filho, Wilson Figueiredo, Carlos Chagas e Villas Bôas Correa. Participei da entrevista. Jânio Quadros havia renunciado e João Goulart assumido. Jânio culpara as forças ocultas.

Então, Murilo Mello e Wilson Figueiredo perguntaram a JK, se ele, das eleições de 55 à passagem do poder em Janeiro de 61, também havia enfrentado as forças ocultas. Juscelino respondeu de pronto: “As forças ocultas e as aparentes também. Houve necessidade de dois movimentos militares, o 11 e o 21 de Novembro (de 55) para assegurar a minha posse e portanto a vontade das urnas. Entreguei democraticamente o governo em condições muito diferentes daqueles em que assumi. Mas confio no futuro e no país”.

Lembro como se fosse hoje. Perguntei então a ele como analisava a oposição a seu mandato. A oposição foi terrível. O líder era Carlos Lacerda. “Mas ela é indispensável” – acentuou – “a qualquer governante. Quem exerce o poder tem de ouvir e sentir todas as correntes de oposição. E fazer a análise sobre a média do pensamento popular. Cooptar, para quem tem as chaves do comando, é difícil. Mas não leva a nada. Descobrir a verdade na síntese á que é difícil. O grande desafio de governar reside neste ponto”.

Vejam os leitores como um fato, no caso um texto de Dora Kramer, conduz à memória, leva a que se encontrem exemplos do passado. JK enfrentou Lacerda, a UDN, a oposição forte de O Globo, de O Estado de São Paulo, do Correio da Manhã, do Jornal do Brasil, da Tribuna da Imprensa. A seu lado só o Diário Carioca e a Última Hora. O Globo se opôs até o início de 59, momento em que, por coincidência, recebeu a concessão para o canal de televisão que lidera amplamente a audiência desde 65, quando entrou no ar. O Correio da Manhã e o Jornal do Brasil noticiavam as realizações do governo (eram muitas, como se sabe hoje), mas atacavam JK nas páginas de opinião. O JB, então dirigido por Odilo Costa Filho, chegou a publicar na primeira página, em 58 ou 59, a famosa foto do “Me Dá Um Dinheiro” Aí, marchinha de sucesso no carnaval. O Secretário de Estado dos EUA, Foster Dulles, com um caderno na mão, anotando, e Juscelino com as mãos espalmadas convidando Dulles e Lucas Lopes, ministro da Fazenda, a sentarem. O New York Times publicou no dia seguinte editorial com o título: a foto infame.

Kubitschek enfrentou a oposição da corrente udenista da UNE e nunca tentou coptá-la. Ela inclusive foi às ruas contra JK no dia em que, no Rio, recebeu o presidente Eisenhower. Passaram pela Praia do Flamengo em carro aberto. No alto do prédio o cartaz: “We like Fidel Castro”. Juscelino apontou o cartaz. Eisenhower, o verdadeiro responsável pelo isolamento de Cuba que lançou Fidel nos braços da URSS de Kruchev, respondeu: “Nós também gostamos dele. Ele é que não gosta de nós.”

São fatos. JK poderia facilmente ter anestesiado a UNE, como ela hoje aliás se encontra. Mas seria negativo, para o governo e para o país. Nenhuma nação pode mergulhar numa verdade só. E um desastre. O processo da realidade tem várias faces. Assim como um cubo no lance de dados. Poema famoso de Mallarmé, escrito há maias de 200 anos.

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