Correção monetária e juros, dose para elefante

Pedro do Coutto

Muito bom, muito lógico, com o alto nível de sempre, o artigo que o economista Paulo Rabello de Castro publicou na edição de primeiro de julho do Jornal do Brasil sobre a passagem dos quinze anos do Plano Real. Lançado em julho de 94 pelo presidente Itamar Franco, seu verdadeiro autor, a medida salvou a economia brasileira, já que o IBGE havia registrado uma inflação estratosférica de 2773% no exercício de 1993. Sem dúvida produziu, com produz, a estabilidade monetária que está atravessando o tempo.

Basta recordar, para que se tenha idéia do ritmo inflacionário, que em fevereiro de 90, final do governo José Sarney, a taxa atingiu 84%. Rabello de Castro, inclusive, acerta também quando sustenta que, apesar do êxito, o Plano Real é um projeto ainda incompleto. Perfeito. As indexações automáticas que envolvem quase todos os contratos, exceto os do trabalho, prejudicam o avanço do Produto Interno Bruto na escala que o país exige.

Não se pode esquecer que a população brasileira cresce à velocidade de 1,2% ao ano. A cada doze meses surgem mais 2 milhões de pessoas em nosso país. Os serviços públicos deveriam acompanhar tal crescimento. Mas não acontece. Faltam recursos. A corrupção é um fator extremamente negativo. É um crime continuado com muitas vítimas.

Além disso, acrescento, o Brasil é o único país no mundo a somar os juros cobrados pelos bancos e pelo comércio à correção monetária. Em muitos casos, cobras-se até correção monetária sobre os juros. É demais. Dose para elefante. Impraticável em termos de distribuição de renda e sobretudo em matéria de justiça social. Para citar o exemplo dos EUA, responsáveis por um terço do Produto Mundial que flutua na escala de 45 trilhões de dólares anuais, a reposição inflacionária está embutida na taxa de juros. Lá os juros reais, resultado do valor cobrado menos a inflação verificada no período, são baixos. No Brasil, são altíssimos.

O índice inflacionário que o IBGE assinala para os últimos doze meses é de praticamente 6%. Os bancos e o comércio cobram 6% ao mês. No caso dos cheques especiais muito mais. Os extratos que recebo revelam o quanto pagaria se recorresse ao limite a mim liberado além do meu saldo normal. A taxa do Itaú é de 6,2% ao mês. A do Bradesco 8,2. Oito por cento ao mês representam em torno de 150% ao ano. Mais de 40 vezes a inflação oficial. O Banco Central, inclusive, periodicamente, fornece informações sobre as diversas taxas de juros. Fornece informações, mas nada faz para contê-las. São um despropósito. O próprio Paulo Rabello de Castro há se reconhecer isso.

Ele é sócio fundador da agência de avaliação de risco SR Rating. Estima o risco de investimentos, de empresas, talvez de países. Portanto deve avaliar também o risco dos assalariados. Altíssimo. Principalmente porque sem emprego e salário, nada se consegue fazer. Nenhum país pode evoluir. O consumo é o início e o fim de toda circulação econômica. Se não houver nível de consumo, de que adiantam os investimentos? Nada. Vai se fabricar e produzir para quê? Para estocar? Para especular?

Para especular pode ser, tratando-se de bens não perecíveis, mas especulação tem limites. Não pode se estender nunca por muito tempo. O caráter básico da especulação é o episódico. Não o duradouro. Isso é inegável. Para que o Plano Real se complete é preciso que os juros sejam contidos no patamar lógico. A correção vá lá. Mas não correção em cima de juros.

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