Corrupção, forte fator de concentração de renda

Pedro do Coutto

A corrupção, que se generalizou no país, além de um crime e de uma série de consequências negativas para a economia brasileira, representa também um forte fator e concentração de renda. Os números e os personagens identificados até agora comprovam mais este aspecto relevante da questão. Inclusive tem que se considerar a evasão de recursos financeiros e sua remessa para o exterior, através de uma teia costurada por doleiros e movimentada por um sistema bancário não aparente, mas que inevitavelmente será identificado no curso das investigações.

Concentração de renda porque os reflexos da corrupção destinam-se a parcelas minoritárias da sociedade, mas que tem acesso a grandes frações que se movimentam no mundo financeiro. A prova disso é que apenas dois ex dirigentes da Petrobrás se dispuseram a fazer delações premiadas, através das quais o primeiro prontifica-se a devolver 26 milhões de dólares, o segundo vai mais além: prontifica-se a ressarcir nada menos do que 95 milhões de dólares, fortuna acumulada em pouco mais de seis anos.

De outro lado surgiram informações neste final de semana que o esquema da corrupção, além da Petrobrás, envolvia também 754 projetos de obras públicas, cuja execução encontrar-se-ia na dependência de acertos que, ao que as aparências indicam, montantes de alguns bilhões de reais.

A exportação criminosa de recursos financeiros para o exterior, evidentemente implica na redução dos investimentos que poderiam ser feitos no país e que seguem outros rumos. Esta é outra causa do aumento da concentração de renda, que não se pode medir somente por valores monetários, mas também por obras e serviços que deixam de ser executados nas redes públicas de saúde, transportes, educação, habitação e na segurança especialmente nos centros urbanos.

A FALTA QUE O DINHEIRO FAZ…

Quantos hospitais encontram-se desaparelhados e até desmobilizados por falta de equipamentos essenciais? Podíamos alongar a série de desmobilizações de unidades públicas essenciais a população brasileira, porém o exemplo da saúde é o mais emblemático  e acentua bem a triste realidade social que se agrava, em grande parte em decorrência dos recursos sugados pelos corruptos, corruptores, intermediários, lobistas e pelos exportadores do produto bruto da evasão de recursos governamentais.

A economia depende do crescimento do PIB, que se encontra estagnado na casa dos 4 trilhões e 900 bilhões anuais. Neste ano de se aproxima do final, o PIB cresceu abaixo do índice demográfico, segundo o IBGE de 1% ao ano. Para 2015 a previsão do PIB está orçada em 0,8%. Também abaixo do número que marca o aumento populacional pois nascem por ano 2 milhões de brasileiros.

O país, assim, vai enfrentar novas dificuldades no tempo que se inicia, até que a economia volte a desempenhar um processo positivo. Sem ele, não há possibilidade de redistribuição de renda. É preciso, portanto, recuperar sob todos os aspectos os efeitos trágicos da corrupção, que, além de abalar a economia, atinge a sociedade como um todo e os valores éticos sem os quais não há progresso.

5 thoughts on “Corrupção, forte fator de concentração de renda

  1. E o povão só paga ! Vejam na reportagem da Folha o bilhete da OAS sobre o Porto Maravilha. Nossa grana do FGTS , que o ‘trabalhismo’ petista está remunerando com 65% da inflação, para dar o resto aos amigos.
    ” O ingresso da Caixa Econômica Federal no projeto, por determinação de Lula,
    foi fundamental para desatar um dos nós da revitalização: a prefeitura não
    tinha os recursos para revitalizar o porto.
    A Caixa desfez o nó ao se dispor a comprar com recursos do FGTS todos os
    títulos imobiliários da região, emitidos pela Prefeitura do Rio.
    Esses títulos permitem que construtoras levantem prédios com mais andares
    do que aqueles previstos pela lei. É como se a construtora comprasse o espaço
    no ar para fazer mais prédios mais altos do que se permite e pagasse ao poder
    público por isso.
    Como a Caixa se dispôs a comprar todos os títulos de uma vez, a prefeitura
    não precisou ficar negociando caso a caso, o que poderia levar anos para
    levantar os R$ 8 bilhões necessários ao projeto. Por vias indiretas, a Caixa
    acabou se tornando a principal financiadora da obra.
    O texto diz que a OAS estava elaborando o melhor modelo de negócio e sugere
    que a Companhia Docas do Rio, que administra o porto, precisaria de “novo
    presidente, com perfil apropriado para gestão da revitalização”.
    A troca de presidente não ocorreu, mas em setembro de 2013 a presidente
    Dilma Rousseff autorizou que a prefeitura do Rio desapropriasse vários
    imóveis da região que eram da Companhia Docas.
    O bilhete foi encontrado na casa do presidente da OAS numa caixa de papelão
    com a inscrição “Dr. Léo”, guardada no closet do empreiteiro.

  2. Bom artigo.

    A taxa de crescimento da população brasileira é, exatamente, de 1,17% (taxa geométrica).

    O PIB brasileiro já está em R$5,1 trilhões (PIB acumulado em 12 meses), segundo o BACEN.

    • A expectativa em relação à taxa de variação do produto interno bruto (PIB) brasileiro para este ano está entre zero e 0,3%.

      O pior é que o efeito da má política econômica da gerentona carrega uma inércia natural que irá afetar o crescimento do país nos próximos anos. E toda a divisão de rendas na sociedade brasileira ficará comprometida por mais um longo tempo por conta da falta de crescimento da economia.

      A começar pelo cálculo do reajuste do salário mínimo que ficará comprometido para o ano de 2016, já que o ajuste levará em conta o resultado econômico – PIB – deste ano, mais a variação do IPCA a ser aferido em 2015.

      Por enquanto, como seria de se esperar, quando se compara o nível de reajuste real para o salário mínimo entre os três últimos presidentes, Dilma fica para trás com 2,62%. FHC reajustou o salário mínimo acima da inflação em 4,52%. E Lula em 6,28%.

  3. Salário mínimo de 2015 deverá ser de R$788,00 com ganho real em torno de 2,6%.

    A partir de primeiro de janeiro de 2015 haverá reajuste das aposentadorias, pensões e salário mínimo.

    O reajuste vai beneficiar mais de 70 milhões de brasileiros, entre empregados da iniciativa privada, aposentados e pensionistas.

    O reajuste do salário mínimo segue à Lei nº 12.382/2011. Esta estabelece que o índice de correção para o salário mínimo é dado pela soma do índice inflacionário do ano anterior ao do reajuste – medido pelo INPC – com a variação do PIB relativo a dois anos anteriores ao do reajuste.

    Para o salário mínimo de 2014 será considerada a inflação deste ano de 2014, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor – INPC, estimada em 6,33%, e a variação do PIB de dois anos anteriores, ou seja, de 2013, a qual foi revista pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística de 2,3% para 2,5%. Portanto, o índice estimado para reajuste do salário mínimo em 2014 é de (aproximadamente) 8,83%, o que eleva o salário mínimo dos atuais R$ 724,00 para R$ 788,00. Tal reajuste já está previsto no projeto da Lei Orçamentária Anual (LOA) de 2015.

    Já os reajustes dos aposentados e pensionistas que percebem acima do salário mínimo, incorporam somente o INPC do ano anterior ao do reajuste. Também são previstos na Lei Orçamentária Anual (LOA) que é votada todos os anos anteriores ao reajuste.

    Além de evitar perdas das aposentadorias e pensões para a inflação, o reajuste mudará o teto dos benefícios da previdência de R$ 4.392,07 em 2014 para prováveis R$ 4.670,08 em 2015.

    Considerando apenas o período de estabilidade monetária do Brasil proporcionada pelo Plano Real, de 1994 a 2013, o salário mínimo foi sustentado acima da inflação e acumulou ganho real de mais de 160% neste período.

    O mesmo não se pode dizer em relação às aposentadorias e pensões que apenas foram corrigidas pela inflação. Se comparados ao salário mínimo defasaram-se em mais de 160% no mesmo período.

    Desta forma, aposentados e pensionistas que recebiam o teto da previdência em 1994, ou seja, dez salários mínimos em paridade, hoje recebem 3,86 salários mínimos.

    A tendência do teto dos benefícios da previdência é ser reduzido até se encontrar com o salário mínimo, que por sua vez vai subindo, sendo reajustado acima da inflação.

    Em algum momento no futuro ambos – o teto da previdência e o salário mínimo – se encontrarão mantidas as atuais metodologias.

  4. 10% mais pobres não conseguem inclusão produtiva, diz Paes de Barros

    SANTIAGO – Nos últimos dez anos, o Brasil integrou grande parte da população à economia do país, mas os 10% mais pobres continuam “desconectados”, sem conseguir a inclusão produtiva, segundo Ricardo Paes de Barros, secretário de Ações Estratégicas da Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE) do governo federal. Um dos principais especialistas em políticas sociais do país, Paes de Barros mostra preocupação especial com o fato de que cresce nesse grupo a fatia de adultos jovens, entre 25 e a 40 anos, com baixa escolaridade.

    “Há uns 5% de jovens adultos que o mercado de trabalho está simplesmente rejeitando. Isso é um problema grave porque, se eles forem rejeitados pelo mercado de trabalho agora, serão rejeitados sempre”, afirmou Paes de Barros, ao participar neste sábado de um painel sobre desigualdade numa conferência sobre a América Latina, realizado no Chile. “Isso vai ser uma pobreza dura, difícil de reduzir mais tarde.”

    Paes de Barros afirmou que, na última década, o Brasil conectou à locomotiva da economia grande parte da população. Antes, nesse trem, havia apenas um vagão ligado a essa locomotiva. Nos últimos dez anos, muitos outros vagões foram conectados. “Quando se colocam os pobres no ‘mainstream’ da economia, há ganhos como o de se tornar formal, de obter benefícios sociais.”

    Os 11% a 20% mais pobres, que também recebem o Bolsa Família, tem conseguido a inclusão produtiva. Estão no mercado de trabalho e têm entrado no setor formal. O problema é com os 10% mais pobres. Parte desse grupo deve incluir pessoas que não serão incorporados ao que Paes de Barros chama de ‘mainstream’ da economia, como idosos, com doença crônica, por exemplo. Para esses, a única opção tende a ser transferências de renda, como o Bolsa Família.

    O grande foco de atenção, segundo ele, devem ser os jovens adultos que têm sido rejeitados pelo mercado de trabalho. É fundamental evitar que se gere uma pobreza estrutural no caso de quem ainda pode ser incluído produtivamente. “Acho que essa é a prioridade do Brasil Sem Miséria para os próximos anos.”

    Para Paes de Barros, um dos grandes desafios é fazer a “locomotiva se mover” – sem isso, os vagões com os mais pobres não se moverão. A política indicada para isso, segundo ele, é incentivar o crescimento da produtividade. “Quando a locomotiva se mover, nós temos instituições para garantir que os vagões se movam junto.” Outro desafio é justamente conectar o último vagão, composto pelos mais pobres, que ainda não conseguiram a inclusão produtiva.

    Ao tratar da produtividade, o economista disse que ela varia muito dependendo do segmento da economia. O Brasil consegue vender aviões no exterior, como no caso da Embraer, mas ao mesmo tempo tem uma eficiência “ridiculamente baixa” no setor de serviços, segundo ele.

    Um dos problemas para o Brasil crescer a taxas mais altas é justamente a baixa produtividade, que seguiu parada mesmo com a forte redução da informalidade registrada nos últimos anos, como notou Paes de Barros. Diminuir a informalidade é obviamente algo importante, mas não implicou numa melhora da eficiência da economia.

    Paes de Barros participou de uma conferência sobre as perspectivas e os desafios da América Latina em Santiago, promovida pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Ministério da Fazenda do Chile. O Valor é parceiro de mídia do evento.

    (Transcrito do Valor Econômico)

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