Corrupção não deixa saúde melhorar no RJ

Pedro do Coutto

O governador Sergio Cabral está na obrigação de abrir, de imediato, pelo menos um inquérito para apurar as denúncias apresentadas na noite de segunda-feira pela Rede Globo, e pelo jornal O Globo do dia seguinte, sobre a prática descarada de superfaturamento em compras efetuadas pela Secretaria de Saúde. O titular da pasta, Sergio Cortes, terá que apontar os responsáveis por este assalto aos cofres públicos. Não se trata apenas de efetuar compras no montante de 81 milhões de reais sem concorrência.

Além disso, a Secretaria de Saúde pagou preços superiores aos de mercado numa escala de 77%, assinalou a reportagem publicada. Dinheiro jogado no ralo da roubalheira, da corrupção. Quanto maior for esta, na razão direta, menor será a capacidade de atendimento à população. Os ladrões da saúde são ladrões do povo, são ladrões imundos da integridade e da vida humana. Quantas pessoas deixaram de ser atendidas este ano em conseqüência das ações deletérias apontadas? Dezenas de milhares. A Secretaria de Saúde – vejam só – adquiriu 7 milhões e 500 mil unidades de rolos de gaze ao preço unitário de 59 centavos, acentua O Globo. Comprou portanto no atacado, mas pagou o preço unitário de varejo nas farmácias e drogarias. A diferença entre uma face e outra foi para o bolso dos desonestos.

Este episódio ocorrido no Rio de Janeiro é mais um entre tantos que se sucedem, na saúde e fora dela, contaminando as administrações públicas. O roubo, de tão freqüente, está contribuindo não só para a riqueza ostensiva de uns, mas também para a consolidação de uma nova cultura. O pensamento de que aquele que tem alguma oportunidade de aproveitar, e não aproveita, não passa de um otário. Assim não dá. Dessa forma, o progresso social torna-se efetivamente impossível. Pode-se até projetar uma equação: se na parcela de 81 milhões, roubou-se 77%, em que montante se roubaria ou roubará num patamar, digamos , de 500 milhões de reais?

Quinhentos milhões  calculando-se por baixo pois o orçamento estadual para este ano atinge 47,9 bilhões e o orçamento federal, de acordo com o balanço da Secretaria do Tesouro publicado no DO de 28 de maio deste ano, alcança 1 trilhão e 766  bilhões de reais.

No Estado do Rio de Janeiro, incluindo ativos, aposentados e pensionistas,  as despesas com pessoal são de 42% da lei de meios. No plano nacional, a percentagem do funcionalismo é muito menor: 9%, o que equivale a 169,6 bilhões. Quem duvidar deste percentual deve ler os números contidos na página 107 da edição do Diário Oficial a que me refiro.

A corrupção é algo de fato terrível, principalmente quando ultrapassa, para citar uma expressão médica, a taxa de colesterol. Superado o limite inevitável, torna-se uma prática inaceitável. Ela, a corrupção, transforma-se num processo continuado de assalto à população. Assalto indireto de visibilidade e difícil de decifrar, mas que no caso da Secretaria Estadual de Saúde foi traduzida pelo RJ-TV e pelo O Globo para o conhecimento da opinião pública.

O fato é, ao mesmo tempo, cínico e estarrecedor. Duplamente. Os ladrões não se intimidaram com a hipótese de punição por parte do governador e não se retraíram na perspectiva de roubar a população e contribuir até para a morte de milhares de pessoas. É demais. O ladrão não ostenta porque roubou: rouba para ostentar.

Uma compulsão sinistra.

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