Crescimento do PIB, agora, é fator negativo?

Pedro do Coutto

O IBGE divulgou na terça-feira os resultados da economia brasileira, bastante positivos, apontando no primeiro trimestre do ano um avanço da ordem de 9% em relação aos três meses iniciais de 2009. De janeiro a março de 2010 o país produziu 826,4 bilhões de reais. Os três principais jornais do país – O Globo, Folha de São Paulo e Estado de São Paulo – manchetaram suas edições de quarta-feira com o fato e, a meu ver, a melhor matéria foi a do O Globo, assinada por Cássia Almeida, Clarice Spitz e Henrique Gomes Batista.

A FSP afirmou que esta foi a maior alta do PIB desde 96. O Estadão e o próprio Globo, entretanto, destacaram simultaneamente o risco de um superaquecimento econômico, na visão pessimista de técnicos do setor que manifestaram receio com a perspectiva de uma taxa de inflação mais veloz que os 4,5% registrados no último exercício. Os 9%, é bom esclarecer, são na verdade 6,3, pois no primeiro trimestre de 2009 houve um recuo incrível de 2,7%. Negativo ao extremo. Mas esta é outra questão.

Não entendo – francamente não entendo – como um crescimento do PIB, que espelha o conjunto de bens e serviços produzidos, possa ser negativo. Essa não. Os economistas passaram a vida, desde o governo JK, quando o tema ganhou as ruas, considerando a renda per capita um indicador decisivo para se medir o grau de desenvolvimento de uma nação. E o que é a renda per capita? Simplesmente o resultado da divisão do PIB pelo número de habitantes. Assim, se o PIB cresceu a uma escala mais alta que a taxa demográfica (cerca de 1,2%a/a) a renda per capita passou a ser mais alta.

Inclusive resultado igual alcançado em 96, governo FHC, foi atribuído à solidez do Plano real, de Itamar Franco, implantado em agosto de 94, pouco antes das eleições. Os que ontem ressaltaram o êxito de 96, comprovando-o na ocasião com afirmativa que a renda per capita cresceu, como hoje manifestam preocupação com um aumento e um efeito iguais? O Globo, inclusive, em uma de suas páginas internas, acentua que o crescimento brasileiro percentualmente foi o sexto do mundo no trimestre em foco. E que o país, com um PIB anual projetado para 1 trilhão e 900 bilhões de dólares, firma-se como a oitava economia do mundo. A oitava economia do mundo necessita apresentar uma renda per capita compatível com esta posição. E isso somente pode ser conseguido – não existe outra hipótese – com a aceleração do PIB superior ao número anual de nascimentos. Em nosso caso, cerca de 2 milhões de pessoas a cada doze meses. 1,2% sobre 190 milhões de habitantes.

Não se pode brigar com os fatos. Tampouco distorcer a realidade por nos encontrarmos em ano eleitoral. O aumento do PIB é altamente positivo, não é um êxito apenas do governo, claro, mas de toda força produtiva do país, incluindo os 100 milhões que constituem a mão de obra ativa brasileira. E tem mais um aspecto: se houve crescimento do PIB é porque ocorreu aumento do consumo, já que o parque fabril, seja industrial ou agrícola, não vai produzir para estocar ou jogar fora. O presidente Lula, em plena campanha eleitoral, vai tentar capitalizar o episódio em favor de Dilma Roussef. E daí? A oposição, com José Serra que atue dentro dos limites da realidade. Não da fantasia. Nada pior em matéria de voto do que contestar a verdade.

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