Crise de atendimento no INSS é uma tremenda falta de planejamento e de respeito

Resultado de imagem para fila no inss CHARGES

Previdência já foi reformada, mas o governo esqueceu do INSS

Eliane Cantanhêde
Estadão

Além da necessária reforma da Previdência, com mudanças de regras para pensões e aposentadorias, o governo deveria ter tomado um outro cuidado: um choque de eficiência no INSS. O problema é estrutural e conjuntural e, como sempre, faltou ação para corrigir erros antigos e planejamento para enfrentar condições novas.

Tenha ou não “culpa” pela atual crise no atendimento, a reforma da Previdência joga luzes no velho problema do tratamento a idosos, viúvas, mães, doentes e acidentados que buscam não favores, mas seus direitos. E a situação, que já era ruim, se tornou cruel.

DUALIDADE – De um lado do balcão, funcionários entediados, mal treinados, mal remunerados e em más condições de trabalho, grande parte sem a noção de sua função de servir ao público que paga não só impostos como os seus salários. Do outro lado, pessoas velhas, cansadas, doentes, que esperam horas, semanas, meses, para receber seus benefícios.

A isso some-se a questão conjuntural: o governo criou o INSS Digital, que facilitou os pedidos de aposentadoria às vésperas de uma reforma da Previdência que todos sabiam que viria e muitos temiam. Houve uma avalanche de pedidos ao mesmo tempo, e não foram só do distintíssimo público, mas dos próprios funcionários.

Como o porcentual de determinada gratificação (dessas que abundam no serviço público) atingiu 100% em janeiro de 2019, os funcionários que estavam para se aposentar aguardaram essa “data ideal”. Segundo o governo, pouco mais de 6 mil se aposentaram no ano, em torno de um quarto dos 25 mil que sobraram. Resultado: aumentou a demanda e diminuiu o número de servidores.

UM CAOS ANUNCIADO – O governo se envolveu demais com a reforma da Previdência e se esqueceu de se planejar para a rebordosa. As telas de TV estão cheias de pessoas humildes que esperam sua aposentadoria ou pensão há meses, mães amamentando seus filhos de três meses sem o auxílio-maternidade, pessoas doentes, operadas, engessadas, sem auxílio-doença. É mexer com a fragilidade e, principalmente, os direitos dos cidadãos.

Sem prevenir, o governo não sabe como remediar e tudo o que tem a dizer é que daqui a uns seis meses, talvez, quem sabe, o sistema estará normalizado. É uma eternidade para quem tem que comer, morar, se locomover e pagar as contas. E também para um sistema que promete o máximo de 45 dias de espera.

É preciso um choque de eficiência e humanidade, com os programas digitais atualizados, informações corretas e disponíveis, treinamento, fiscalização, cobrança e, eventualmente, punição. Como deveria ser sempre no serviço público, tanto quanto no privado.

TUDO PIOROU – Minha mãe foi contadora dos institutos de pensão que antecederam o INSS, sem computador, internet, dados digitais, comunicação virtual. Tudo era à mão. Como pode o sistema piorar, em vez de melhorar, com toda a tecnologia e a modernidade? Ok. O público se multiplicou dezenas de vezes. Mas isso não justifica ineficiência.

Eu mesma vi mesas vazias em posto do INSS. Cadê esse aqui? De licença. E aquele? A mãe está doente. E aquele outro? Problema em família. Como informa a repórter Idiana Tomazelli, do Estado, cerca de 20% do quadro está em licença médica. 20%?! Só pode ser alguma epidemia…

É claro que há funcionários exemplares e que os salários são baixos, as condições precárias, o treinamento e a atualização de sistemas, aparelhos e os quadros humanos, falhos. Só não se pode admitir que o usuário pague o pato, vire vítima do Estado.

Do  ministro Paulo Guedes e do secretário da Previdência, Rogério Marinho espera-se um plano de emergência e outro de longo prazo. Não é falta de recursos. É falta de planejamento e de respeito.

 

17 thoughts on “Crise de atendimento no INSS é uma tremenda falta de planejamento e de respeito

  1. Os franceses não “comeram” esta conversa, quanto a previdência. Em relação aos serviços públicos o que parece é a falta de funcionários, problema que tende a se agravar e muito.

    • O crucial para solução de um problema é uma correta identificação e foco na sua solução. Mas não basta somente foco. É preciso vontade, competência e seriedade na busca da solução. Em nosso país parece não termos nenhum desses tres pilares: somos despreparados tecnicamente, irresponsáveis moralmente e não temos foco – além de não sabermos estabelecer prioridades baseadas na importância do problema em termos nacionais.
      Vou dar um exemplo dessa cegueira endêmica. Recentemente li numa manchete de uma revista brasileira um endeusamento da importância da nossa estação na Antartida para o avanço da nossa ciência. Que Ciência?, pergunta-se. Que importância teria a Ciência para nós além de prover emprego para PhDs como professores de nossas universidades? (o que também é importante mas não prioritário!
      Isso nos mostra que mais uma vez nos falta foco e prioridade: o importante é o ensino básico! A Ciência já está num estado tal de adiantamento que não justifica investimento prioritário para descobrir novas espécies ou novos planetas. Isso pode ser feito pelos países ricos. O importante para nós é termos novos Bill Gates, novos Elon Musk, CEOs empreendedores e engenheiros que contribuam para alavancar a nossa tecnologia. Tecnologia da emprego!
      Mais um exemplo: o ITA, famoso no Brasil pela sua excelência (bem como outros institutos e universidades) deve sua fama á qualidade dos alunos geralmente originários de boas escolas primárias e secundárias e certamente de ótimos jardins de infância. O engenheiro do ITA não é formado no ITA, mas quando ele começa a dar seus primeiros passos na infância e passa a ser o foco de seus pais! Por que não fazer o mesmo com todas as nossas crianças em vez de tentar descobrir novas minhocas no gelo da antartida e novos planetas similares á Terra?

  2. A tática de Guedes é criar o problema para vender a “solução”.

    Reforma da previdência: corrida para aposentadorias, recorde de vacâncias.

    Nenhuma contratação.

    Crises insuportáveis no funcionamento dos serviços essenciais.

    Reforma Administrativa.

    Contratação precária, corrupta e com recorde de enriquecimento ilícito, com as novas regras para apagar o incêndio criado.

  3. Cantanhede veja Grécia, França e outros.
    Inúmeros barnabés da Previdência se aposentaram e não dá para contratar mais, irão realocar funcionários de outras áreas porém antes terão que treiná los.
    Além disto, mais de um terço dos funcionários não detém qualquer competência pois são “amigos de ideologia” dos governos anteriores.

    • Até hoje, passado um tempo da reforma da previdência, jornalistas ainda têm orgasmos ao se referirem à mudança na legislação que só veio prejudicar à sociedade, em nome de uma pretensa redução de despesas e mediante a penalização do cidadão que irá despender energia, tempo e dinheiro sem a garantia de retorno no futuro.
      Para sermos justos, devemos dizer que a desordem no INSS não é de agora. Começou há muito. Mas os fatos recentes demonstram a despreocupação ou o despreparo da administração pública para tratar do assunto.
      Devem pensar que a população é vasta e que a perda de alguns soldados no campo de batalha é somente o efeito colateral da guerra. Os mais fortes, e merecedores, sobreviverão o tempo necessário para que tudo se esqueça e resolva. Afinal, outras reformas “imprescindíveis” virão. Para o deleite dos especialistas da imprensa.

  4. Quer dizer que as filas do INSS do voltaram?
    Na época do PT as filas do INSS foram zeradas.

    Governo de Jair … é pura demagogia e ideologia … incapacidade técnica a toda prova.

  5. “Como pode o sistema piorar, em vez de melhorar, com toda a tecnologia e a modernidade?”
    A tecnologia não exclui necessariamente o descaso ou a incompetência. E isso não só no Brasil. Segundo notícias divulgadas há poucos dias, a Interpol não dispunha de uma foto de Carlos Ghosn, embora ele seja uma figura pra lá de conhecida, e imagens dele fossem facilmente encontráveis nos sites de busca.

  6. Cardoso, Cardoso, ah, Cardoso,

    Lembras do Ricardo Berzoini?
    Ganhou o Troféu Maldade?

    Berzoini foi escalado no primeiro ano do governo, em 2003, para o cargo de ministro da Previdência.
    Egresso do movimento sindical dos bancários, sofreu críticas da esquerda do partido por defender regras mais duras para os aposentados e aumento das contribuições do funcionalismo.

    Também ficou marcado junto à opinião pública por convocar idosos com mais de 90 anos a participar do recadastramento de beneficiários.
    O objetivo era provar que estavam vivos, mas a oposição aproveitou para criar o “Troféu Berzoini de Crueldade”.

    PESSOAS COM MAIS DE 90 ANOS INDO PARA AS FILAS DO INSS!!!!

    Te aquieta, Cardoso, pois cada vez que tu te manifestas tenho a verdade para te contestar!

    • Prova de vida – procedimento é obrigatório para todos

      Desde 2012, os segurados do INSS devem comprovar que estão vivos para manter o benefício ativo. O procedimento é obrigatório para todos que recebem seus pagamentos por meio de conta corrente, conta poupança ou cartão magnético e tem por objetivo dar mais segurança ao cidadão e ao Estado brasileiro, pois evita pagamentos indevidos de benefícios.

      Apenas para informar.

  7. Acabem com INSS e liberte as pessoas de passar por isso, pelo menos as novas gerações. O estado toma o dinheiro das pessoas e depois muda as regras de aposentadoria.

    Libertem as pessoas do estado socialista.

  8. Moura,

    Tu estarias decretando que, a maioria do povo brasileiro, teria de trabalhar até morrer ou morrer de fome quando não tivesse mais forças para seguir em frente!

    Como ficariam os acidentados?
    Como seriam aqueles que ficam incapacitados por doenças?
    De que forma a família se manteria com o desaparecimento do pai?

    Muito antes, mas muito antes, mesmo, que fechar o INSS porque mal administrado, roubado, desorganizado, então que comecemos pelo legislativo e tribunais superiores!

  9. Na situação crítica que o país se encontra, com 12 milhões de desempregados e 40% dos considerados empregados, são de trabalhos informais, essa Reforma da Previdência foi prejudicial ao trabalhador e ao INSS.
    A Reforma da Previdência feita pelo Congresso, só não foi pior do que a do governo, rejeitada.
    O Sonho do Paulo Guedes era acabar com previdência pública e jogar todos na “privada” para enriquecer mais os banqueiros.
    Para Bolsonaro, a situação crítica do INSS é apenas um detalhe, sua preocupação é agradar os pastores evangélicos para sua reeleição.

  10. Até a matéria escrita pela jornalista se revela de uma superficialidade impressionante. O verdadeiro pano de fundo dessa bagunça toda no INSS está na operacionalidade do DATAPREV que é a instituição que tem a atribuição de criar e gerir os programas que tem que fazer os cálculos para concessão dos benefícios. Os funcionários são proibidos de fazer calculos manuais ou extra oficiais. Nesse caso o problema não está nem na quantidade de funcionários, poderia existir o dobro ou o triplo deles que a situação estaria emperrada do mesmo jeito.
    O verdadeiro pano de fundo é que o Guedes já manifestou a intenção de privatizar não só a DATAPREV mas também o SERPRO que é responsável por toda programação de informática da Receita Federal e também do Ministério da Fazenda(atual Ministério da Economia).
    A grande questão portanto é POR QUE O DATAPREV não está cumprindo suas obrigações? Tudo indica que não é incompetência técnica. O que será?

Deixe uma resposta para Francisco Bendl Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *