Crise econômica é igual a uma travessia de deserto

Vicente Nunes
Correio Braziliense

A fragilidade da economia, agravada pela crise política, tornou-se um tormento para o sistema financeiro. Em conversas nos últimos dias, o presidente de uma das maiores instituições do país definiu sua visão sobre o momento atual do país: “Estamos vivendo no deserto”.

As operações estão quase paradas. O crédito, a principal fonte de renda dos bancos, minguou. Do lado das famílias, são poucas as que se aventuram a pagar juros tão elevados num quadro de recessão e desemprego. Do lado das empresas, não há apetite algum por correr riscos de se assumir débitos para ampliar os negócios.

“O quadro é assustador”, define o mesmo banqueiro. Ele conta que, nesse ambiente totalmente adverso, também as instituições financeiras ficaram mais arredias. Empréstimos, quando concedidos, são feitos com muito critério. A seletividade foi amplificada. Os bancos temem uma onda de calote.

O rigor na seleção de clientes é geral, tem valido tanto para os bancos públicos quanto para os privados. Ainda que a inadimplência não tenha estourado, mesmo com o número de desempregados saltando, em todo o país, de 6,4 milhões para 8,1 milhões somente nos primeiros cinco meses do ano, a ordem é ser conservador.

INADIMPLÊNCIA

Os bancos acreditam que o índice de calote vai crescer mais rapidamente neste segundo semestre do ano. “Não há escapatória”, ressalta o banqueiro. “Com a inflação rodando acima de 8% nos últimos meses e as demissões se acentuando, o resultado sempre é mais inadimplência, mesmo que o controle de riscos esteja atuando a todo valor”, emenda.

A tensão no sistema financeiro só não é maior graças à boa saúde dos bancos. Até maio, as dívidas vencidas há mais de 90 dias e não pagas somavam R$ 92,1 bilhões. Mas as instituições provisionaram R$ 154,2 bilhões para cobrir esse buraco. Esse colchão de proteção é 67,4% maior do que as dívidas de difícil recebimento.

2015 FOI PARA O BURACO

Entre os banqueiros, a percepção é de que 2015 foi para o buraco, 2016 está praticamente perdido e, na melhor das hipóteses, haverá crescimento em 2017. O consumo, acreditam, continuará desabando. O estrago feito no orçamento das famílias nos últimos anos, com a inflação alta, e mais recentemente, com o choque de tarifas públicas, inibe a recomposição do orçamento doméstico a curto prazo.

Sem consumo, não há a menor disposição das empresas em investir. Para os empresariado, é melhor manter-se capitalizado neste momento difícil da travessia do que correr riscos de produzir e não ter para quem vender. Na maior parte dos setores, os estoques estão elevadíssimos. Não por acaso, centenas de empresas estão demitindo, dando férias coletivas ou reduzindo os turnos de trabalho.

ATÉ O BNDES…

Nas conversas, os banqueiros ressaltam que até o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) foi obrigado a pisar no freio. Os repasses estão de 40% a 50% menores do que os observados em 2014. Além da procura menor por financiamentos, a instituição pública sofre com a falta de recursos. O Tesouro Nacional está seguindo à risca a determinação do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, de não repassar dinheiro ao banco.

4 thoughts on “Crise econômica é igual a uma travessia de deserto

  1. Ótimo artigo, como sempre.

    De fato, o índice de desocupação saiu de 6,4% para 8,1% até o mês passado. Como a PEA brasileira é de cem milhões, temos o correspondente a mais de oito milhões de desocupados. Os dados são da PNAD contínua do IBGE.

    E a tendência é ir piorando a medida que se aprofunda também a recessão ditada, principalmente, pela retração do consumo – que abarca mais de 62% do PIB -, retração dos investimentos e manutenção do déficit das transações correntes.

    Para onde se olha na economia só se enxerga número negativo. Numa situação que não é outra senão a repercussão da cilada de estagflação que Dilma e Mantega enfiaram o Brasil. Situação esta na qual não se sairá antes que haja a retomada do equilíbrio fiscal por parte do governo.

    Sob este aspecto, quanto mais Dilma fingir austeridade (o ajuste atual não comporta a solução definitiva para o desequilíbrio fiscal do governo), mais tempo levará para o Brasil sair da atual cilada e construir outra trajetória econômica baseada em círculo virtuoso de expansão da oferta fulcrada na ampliação da produtividade, elemento essencial para um crescimento sustentável.

    2015/2016 é considerado um biênio perdido, 2017 já está entrando na mesma contabilidade uma vez que a perspectiva para aquele ano vai incorporando os reflexos da falta de um ajuste coerente dos gastos públicos na atualidade. Para fazer a economia do país experimentar algum crescimento a partir de 2017 o ajuste fiscal não poderia hoje ser inferior a 2% do PIB; e Dilma não poderia manter o mesmo número de ministérios. O corte no orçamento com gastos correntes teria de ser mais profundo e permanente, sem dúvida.

    Ps.: Até agora o CAGED não divulgou os números do mercado de trabalho formal do mês de junho; estamos aguardando ansiosamente.

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      Enquanto não chegam os números referentes ao mês de junho/2015, vão aí os de maio novamente:

      Evolução do emprego no Brasil por setor de atividade econômica (últimos doze meses – junho/2014 a maio/2015):
      ———————————————————————————————————————
      SETORES………………………………….ADMISSÕES……DESLIGAMENTOS…….SALDOS
      ———————————————————————————————————————
      Extrativa mineral……………………………49.418………………60.489………………..-11.071
      Indústria de Transformação……….3.360.201………….3.699.704………………-339.503
      Serv. Ind. De Utilidade pública………..95.258………………94.655………………………603
      Construção Civil…………………………2.428.782………….2.741.199………………-312.417
      Comércio…………………………………..5.088.296………….5.017.156…………………71.140
      Serviços…………………………………….8.117.394………….7.936.017……………….181.377
      Administração Pública…………………….88.926………………92.888………………….-3.962
      Agricultura…………………………………1.094.523………….1.133.525……………….-39.002
      ———————————————————————————————————————–
      Brasil…………………………………….20.322.798………..20.775.633………………….-452.835

      Fonte: CAGED/MTE.

      Estoque de Emprego Celetista – série com ajustes. (maio/2015):
      ———————————————————————————————————————-
      SETORES……………………………………………………Qtd. de Trabalhadores……………(%)
      ———————————————————————————————————————-
      Extrativa mineral…………………………………………………..215.199……………………..0,53
      Indústria de Transformação………………………………..8.115.397……………………19,81
      Serv. Ind. De Utilidade pública……………………………….420.646……………………..1,02
      Construção Civil…………………………………………………2.956.643……………………..7,22
      Comércio…………………………………………………………..9.257.492……………………22,60
      Serviços…………………………………………………………..17.503.117……………………42,73
      Administração Pública………………………………………….909.958………………………2,23
      Agropecuária……………………………………………………….1.583.085……………………3,86
      ———————————————————————————————————————–
      Total das Atividades…………………………………………..40.961.537…………………100,00

      Fonte: CAGED/MTE.
      Elaboração: própria.

  2. Esta crise está muito parecida com a de 1982. Detalhe: só saímos da crise de 1982 em 1994/95.
    Por que ? Porque os governantes, agora como antes, não fizeram a parte deles.

    Salve o sistema político brasileiro, onde para não perder as próximas eleições, os desgovernantes, com o dinheiro extorquido da população, honram um só compromisso: a folha de pagamento do setor público, onde a metade dela é composta de cabos eleitorais, parentes, amantes e amigos.

    Procurem saber porque a Grécia entrou em parafuso. Não adianta só ficar deplorando a situação dos desempregados e dos aposentados. Nenhum outro país tem obrigação de sustentar os desmandos dos desgovernantes gregos.

    Quantos ministérios em Brasília, criados para acomodar a base enlameada, já foram pura e simplesmente fechados, sem transferência dos beneficiados ? Até agora nenhum. Lógico, pois isto é proibido.

    “Permitido e aconselhável” é fechar empresas privadas e demitir seus TRABALHADORES !!!

    http://capitalismo-social.blogspot.com.br/2015/07/207-anos-de-enrolacao-chega.html

    • É verdade.

      Só um adendo, a Grécia não tem como sustentar a mesma moeda dos países vizinhos. Isto está claro, não tem produtividade nem competitividade para fazer frente a outros países que os possuem como França e Alemanha.

      Uma moeda desvalorizada, neste momento, facilitaria a vida da economia grega. É lógico, entretanto, que para fazer isso, teria que enfrentar uma quebradeira geral com a assunção de uma moeda própria desvalorizada.

      Mas, é isso aí: o novo acordo só estará empurrando com a barriga uma solução derradeira.

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