Crítica do PT à política econômica coloca Dilma na defensiva

Falcão moderou as críticas ao discursar no Congresso

Pedro do Coutto

Ao afirmar que a política econômica do governo não pode ser firme com os fracos e frouxa com os fortes, como destaca a reportagem de Catia Seabra e Marina Dias, Folha de São Paulo de sexta-feira, o deputado Rui Falcão, presidente nacional do PT, ao falar na abertura do encontro nacional da legenda em Salvador, criticou o ajuste fiscal e colocou o governo na defensiva para evitar que ocorresse uma cisão na legenda. Tanto assim que a presidente Dilma Rousseff, ao discursar na ocasião, pediu aos delegados partidários que não desistam de dar apoio ao Executivo, que não pode prescindir desse respaldo. Este ângulo do evento foi bem destacado pelos repórteres Luiz Antônio Novaes, Sérgio Roxo e Letícia Fernandes na edição de O Globo também de sexta-feira.

A presidente da República admitiu que o país vive uma conjuntura difícil, acentuando que essa é hora de saber quem é quem e de identificar com quem realmente se pode contar. Mantendo-se na defensiva política, como está claro, Dilma acrescentou: nós não mudamos de lado. Temos que fazer o ajuste, sim. As medidas em curso são necessárias para avançar no rumo de um Brasil menos desigual e mais justo. Colocando este aspecto, Dilma Rousseff reconheceu que o país encontra-se num plano mais desigual e menos justo. Pois, se assim não fosse, não haveria necessidade de dizer que partia em busca de maior igualdade e justiça social.

OBJETIVOS ESTRATÉGICOS        

Afirmou ainda que o partido precisa entender que muitas vezes as circunstâncias impõem movimentos táticos para alcançar objetivos estratégicos. Portanto, os militantes não se devem fixar abater com discursos e comportamentos intolerantes. No caso, fica evidente que o comportamento intolerante a que ela se referiu foi o que se expressou nas palavras de Rui Falcão. Quanto mais rapidamente a economia for ajustada, mais rapidamente também o país voltará a crescer. A interpretação, digo eu, conduz ao reconhecimento de que existe um desajuste e também que o Brasil não está crescendo, enquanto sua população aumenta. Só se pode ajustar o que está desajustado e só se pode afirmar que o país voltará a crescer, partindo-se do reconhecimento de que isso não está acontecendo.

Dilma Rousseff condenou a demora em torno da aprovação do ajuste, sustentando que tal demora atua contra o país. Assinalou, ao fechar seu pronunciamento, que o esforço para retomada do crescimento impõe sacrifícios a todos. Reconheceu assim que o crescimento parou, uma vez que só se retoma aquilo que perdeu movimento. Quanto aos sacrifícios a todos, ficou nítido que tal figura de retórica foi a contestada pelo deputado Rui Falcão, exprimindo a visão da corrente na qual se integra e na qual está presente, embora nas sombras partidárias, o próprio ex-presidente Lula.

A divisão do PT foi aprofundada na própria nota que Rui Falcão distribuiu a imprensa quando diz que “o custo da retificação das contas públicas deve recair sobre quem mais tem condições de arcar com o ajuste. É inconcebível, (como a Folha de São Paulo publicou) uma política econômica que seja firme com os fracos e frouxa com os fortes.”

TOM MAIS SUAVE

Ao microfone Falcão adotou um tom mais suave, porém assinalou que não há fatalidade que obrigue governos a capitularem diante das pressões do mercado, ou seja, dos bancos e do grande capital que domina o planeta. Finalizou dizendo o PT precisa assumir responsabilidades e corrigir rumos. Não dá para ficarmos de cabeça baixa. Analisando-se concretamente suas palavras se há necessidade de corrigir rumos é porque tais rumos encontram-se mal traçados.

Como se conste do que foi exposto pela Folha de São Paulo e pelo Globo, não pode haver dúvida quanto as divergências internas do partido e também relativamente a equívocos que têm marcado a trajetória do PT, principalmente a partir das revelações que surgiram em 2014 sobre os escândalos decorrentes da gigantesca corrupção na Petrobrás, que tanto desgaste acarretou para a presidente Dilma Rousseff e para o partido dos trabalhadores. Equívocos? O mais recente exemplo está nas páginas de sexta-feira que registram o fato do preso João Vaccari Neto ter sido aplaudido de pé pelo plenário de Salvador diante da menção de seu nome por um integrante do encontro. Equívoco só não. Uma contradição total, um choque com a realidade.

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