Crônica ridicularizando os pobres em O Globo causa revolta

Paulo Peres

É impressionante a repercussão negativa da crônica de Silvia Pilz no blog Zona de Desconforto, postado no site de O Globo. A pretexto de fazer um texto “humorístico”, ela se perde em considerações altamente preconceituosas, já emboçadas numa crônica anterior, intitulada “Os novos pobres”.

Desta vez, a reação foi tamanha que a própria Silvia Pilz se retratou, nos seguintes termos: “Humor cáustico perde a graça quando precisa ser explicado. Falhei. Poucos se divertiram e muitos se ofenderam. A intenção não era essa. Leia o texto e deixe seu recado nos comentários”.

Até agora, apenas o site do Jornal do Brasil manifestou repulsa a essa “crônica” e publicou uma resposta de Davison Coutinho, morador da favela da Rocinha, no Rio de Janeiro. Confira abaixo a tal “crônica” postada no site de O Globo e tire suas próprias conclusões:

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O PLANO COBRE

Silvia Pilz

Todo pobre tem problema de pressão. Seja real ou imaginário. É uma coisa impressionante. E todos têm fascinação por aferir [verificar] a pressão constantemente. Pobre desmaia em velório, tem queda ou pico de pressão. Em churrascos, não. Atualmente, com as facilidades que os planos de saúde oferecem, fazer exames tornou-se um programa sofisticado. Hemograma completo, chapa do pulmão, ressonância magnética, ultra de bexiga cheia. Acontece que o pobre – normalmente – alega que se não tomar café da manhã tem queda de pressão.

Como o hemograma completo exige jejum de 8 ou 12 horas, o pobre, sempre bem arrumado, chega bem cedo no laboratório, pega sua senha, já suando de emoção [uma mistura de medo e prazer, como se estivesse entrando pela primeira vez em um avião] e fica obcecado pelo lanchinho que o laboratório oferece gratuitamente depois da coleta. Deve ser o ambiente. Piso brilhante de porcelanato, ar condicionado, TV ligada na Globo, pessoas uniformizadas. O pobre provavelmente se sente em um cenário de novela.

Normalmente, se arruma para ir a consultas médicas e aos laboratórios. É comum ver crianças e bebês com laçarotes enormes na cabeça e tênis da GAP sentados no colo de suas mães de cabelos lisos [porque atualmente, no Brasil, não existem mais pessoas de cabelos cacheados] e barriga marcada na camiseta agarrada.

O pobre quer ter uma doença. Problema na tireoide, por exemplo, está na moda. É quase chique. Outro dia assisti a um programa da Globo, chamado Bem-Estar. Interessantíssimo. Parece um programa infantil. A apresentadora cola coisas em um painel, separando o que faz bem e o que faz mal dependendo do caso que esteja sendo discutido. O caso normalmente é a dúvida de algum pobre. Coisas do tipo “tenho cisto no ovário e quero saber se posso engravidar”. Porque a grande preocupação do pobre é procriar. O programa é educativo, chega a ser divertido.

Voltando ao exame de sangue, vale lembrar que todo pobre fica tonto depois de tirar o sangue. Evita trabalhar naquele dia. Faz drama, fica de cama.

Eu acho que o sonho de muitos pobres é ter nódulos. O avanço da medicina – que me amedronta a cada dia porque eu não quero viver 120 anos – conquistou o coração dos financeiramente prejudicados. É uma espécie de glamourização da doença. Faz o exame, espera o resultado, reza para que o nódulo não seja cancerígeno. Conta para a família inteira, mostra a cicatriz da cirurgia.

Acho que não conheço nenhuma empregada doméstica que esteja sempre com atacada da ciática [nervo ciático inflamado]. Ah! Eles também têm colesterol [colesterol alto] e alegam “estar com o sistema nervoso” quando o médico se atreve a dizer que o problema pode ser emocional.

O que me fascina é que o interesse deles é o diagnóstico. O tratamento é secundário, apesar deles também apresentarem certo fascínio pelos genéricos.

Mesmo “com colesterol” continuam comendo pastel de camarão com catupiry [não existe um pobre na face da terra que não seja fascinado por camarão] e, no final de semana, todo mundo enche a cara no churrasco ao som de “deixar a vida me levar, vida leva eu” debaixo de um calor de 48 graus.

Pressão: 12 por 8. Como são felizes. Babo de inveja.

24 thoughts on “Crônica ridicularizando os pobres em O Globo causa revolta

  1. Segundo a Hildegard Angel, as autoridades do Rio,deveriam promover um “APARTHAID” nos finais de semanas,reduzindo “drasticamente” o acesso dos suburbanos às praias da ZS.

    “”Segundo sugestões de Hilde, as autoridades precisam ser “enérgicas e corajosas”, e a população não pode estar sujeita ao medo, à violência e ao vandalismo desenfreados. A primeira medida proposta por Hilde, então, é que “em dias de grande concentração de pessoas nas ruas e praias, nos fins de semana e feriados do verão”, a circulação de linhas de ônibus e metrô no fluxo Zona Norte – Zona Sul seja “drasticamente” diminuída.””

    Como diz nosso editor CN: “E la nave vá!”

  2. O que essa “colunistazinha” escreveu é lixo puro, até admito que alguém tenha preconceito, mas guarde-o para si mesmo, não propague as suas frustrações para ninguém, deixe oculto na sua parte tenebrosa, pois quando esse preconceito é externado, não torna o mundo melhor, e se você fica ruminando essas coisas ruins dentro de você, pode ser que aprenda algo sobre a capacidade de possuir generosidade, compreensão e talvez seja feliz em algum momento. Provavelmente essa mulher deve ser feia e mal amada, pois isso não é atitude de mulher bonita e bem resolvida.

  3. Adorei o texto. Muito preciso. Apesar dela muito provavelmente não fazer parte da classe pobre, soube descrever com precisão como são as coisas da classe B para baixo. É assim mesmo, pode até ser ofensivo para os pobres, não necessariamente pobres pobres, mas pobres de espírito. Toda a celeuma, porque, no Brasil dos socialistas, não é politicamente correto falar dos pobres, dos seus problemas e hábitos culturais. Falar mal dos excluídos, ironizá-los e/ou criticá-los. É tudo logo taxado de preconceito. E a ignorância com isso se beneficia, porque nega-se a autocrítica que fica ao largo.

    Vocês pobres acham que são únicos com problemas de saúde? Todos nós os temos. O que a articulista está querendo esclarecer é de como neste país, onde se tem um governo que afirma ter acabado com a miséria, ainda temos a miséria da mediocridade e da ignorância, da burrice e da falta de educação. Esta sim é a pobreza realmente preocupante, pois que nos afunda cada vez mais na MISÉRIA.

  4. Quanta gente politicamente correta aqui, que há dois dois dizia “je suis Charlie”, mas quando a sacanagem virou tupiniquim, virou o fio…

    Peguem em armas e fuzilem a redação do Globo, então!

    Ora, parem com isso! Essa Caco Antibes de saias só fez uma piada! Acreditar na seriedade desse texto é a mesma coisa que ter a certeza que toda loura é burra, todo pelotense é viado e todo judeu é pão duro.

    Pelamordedeus!

    • 1) Colocar Bom bril na antena da TV.
      2) Colocar as pilhas usadas no congelador, pois dá para ouvir o radinho mais uns 10 minutos.
      3) Comprar um plástico ” A Inveja é uma Merda” para por no vidro da Brasília.
      4) Plantar palmas de São Jorge, na lata de óleo para evitar ‘mau olhado’!
      5) Aproveitar a geladeria como um ‘puxadinho’ do armário.
      6) Nunca se esquecer que lamber o alumínio da marmita, provoca dor de dente!
      7) Dá para se transformar uma geladeira velha, em hidromassagem de laje!
      8) Aproveitar a campanha eleitoral, para renovar a sua ‘camiseta de cidadão”.
      9) Ao cantar Lep, Lep, Lep, não associar a letra à leptospirosa, pois estraga a diversão.
      10) Garrafas pets, cheias de cimento, se transformam em um ótimo halteres.
      11) Sempre comprar xampús, que não perdem o cheiro, ao ser misturado com água.
      12) Aprender a fazer chapinha com ferro de passar roupa.
      13) Nunca “emprestar o crediário” a um companheiro de infortúnio.
      14) Aprender alguns truques para não perder as sandálias na enchente.
      15) Dormir em telha de amianto provoca queimaduras.
      16) Nas festas na laje, não confundir estouro de balão com bala perdida.
      17) Forrar a roupa com papel higiênico, para esquentar no inverno.
      18) Subir no ônibus e falar que errou, para descer no próximo ponto.
      19) Suco de limão com sabugo de milho cura a frieira.
      20) Pode se usar papel crepom para tingir os cabelos.

  5. Já começaram os apagões da Tia Yossef :
    ” Distribuidoras de energia em vários estados das regiões Sudeste, Sul e Centro-Oeste, entre elas a Eletropaulo e a Light, que distribuem energia nos estados de São Paulo e do Rio de Janeiro, informaram nesta segunda-feira (19) reduções no fornecimento de luz. Segundo as empresas, o corte foi orientado pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), órgão federal responsável pela gestão de energia no país.
    O G1 confirmou, até o momento, que houve corte de energia em São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Minas Gerais, Paraná, Goiás e Distrito Federal.
    A TV Globo apurou que o motivo foi o pico de consumo que superou a capacidade de geração.
    Até a última atualização desta reportagem, nem o ONS, nem o Ministério de Minas e Energia, haviam se pronunciado sobre o assunto.

  6. Não será surpresa se, em futura reencarnação esta moça voltar bem pobrinha. Escreveu e publicou um texto que não acrescenta nada… só acrescentou negatividades em seu currículo… Deus a abençoe muito… ela vai precisar bastante… tanto quanto os pobres precisam de uma vida melhor.

  7. Ela já andou de ônibus, e já foi ao supermercado de preferência o Mundial, o Guanabara, já fez feira, sabe diferenciar uma sardinha de um arraia, já foi ao Jardim Zoológico ou a quinta da boa vista de ônibus, conhece pelo menos a central do brasil, e de metrô já viajou, certamente já lambeu tampinha de iogurte, ih que nojo, já fez compra na rua da alfandega e adjacências, já foi para Petrópolis de ônibus e fez compra na rua tereza, e em Nova Friburgo comprar lingerie, hein, hein…
    Eis as perguntas que não querem calar.

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