Cuba, pas em que ser dissidente crime

Pedro do Coutto

Se houvesse, atravs do tempo, a partir da revoluo vitoriosa em 59, alguma dvida sobre a existncia de uma cruel ditadura na Cuba de Fidel Castro, ela desapareceria a partir da leitura da excelente reportagem de Cristina Azevedo, O Globo de 13 de julho, focalizando a vspera da libertao das grades do terror de estado, de 52 dissidentes encarregados por um crime que no existe na civilizao: o direito de divergir.

Na antiga Prola das Antilhas, na Cuba de Fidel e agora tambm de Raul Castro, no existe tal direito humano bsico. Ele foi apagado da conscincia poltica e jurdica do pas. Absurdo total. Uma situao repugnante, uma violao absoluta da essncia de existir. Vale citar Sartre neste momento, pois ele e Simone de Beauvoir visitaram a ilha logo aps a derrubada do ditador Fulgncio batista e escreveram o Livro Furaco Sobre o Caribe. Alcanou repercusso internacional. A obra exaltava a importncia do movimento revolucionrio que se instalava para restabelecer a liberdade e a dignidade em Cuba.

No comeo foi assim, mas logo vieram os julgamentos arbitrrios e os fuzilamentos em srie. No regime de Fidel, Ernesto Guevara e Camilo Cienfuegos, com os quais estive em 59, como reprter do Correio da Manh na embaixada da rua Djalma Ulrich e na entrevista coletiva na ABI, a liberdade foi o primeiro direito a ser suprimido. O arbtrio completo passou a imperar.

Discursos com dez horas dez horas de durao se sucediam, Castro frente de comcios articulados pelo poder. O governo cubano exportou sua revoluo para Angola, onde foras suas atuaram ao lado da guerrilha que tomou conta daquela nao africana.

Pode-se lembrar muita coisa a respeito de Cuba. A alucinada invaso da Baia dos Porcos por mercenrios treinados em Miami, ataque aprovado pela CIA, governo John Kennedy, um dos maiores fracassos da histria dos Estados Unidos sob todos os aspectos. Invadir um pas com foras civis para um combate militar? Custa crer tenha acontecido. Mas aconteceu. Como aconteceu tambm o desastre areo que matou Cienfuegos, pouco esclarecido, e o envio de Guevara para as selvas da Bolvia onde foi caado simultaneamente pelas foras bolivianas, pela CIA e pelos rangers, fora de combate americana transportada para liquidar tanto o movimento romntico quanto o prprio Guevara. Fidel ficou ento sozinho no poder. As outras duas principais figuras de Sierra Maestra desapareciam de cena. Mas esta outra questo.

O essencial e Cristina Azevedo deixa claro que no existe a mnima liberdade em Cuba e sua economia despenca, como todos os filmes e documentos demonstram. Fiquemos na liberdade. O que destaca a matria? A libertao de um grupo de dissidentes, resultado de uma negociao internacional envolvendo a Espanha e o Vaticano. Dissidentes na cadeia? Como digo sempre, no basta ver o fato. preciso ver no fato. Se dissidentes esto na priso, depositados nos crceres, porque no h a menor liberdade democrtica no regime cubano, nem ao menos o direito de divergir.

Direito de divergir tiveram Fidel, Guevara, Cienfuegos, Osvaldo Dortics, que presidiu o pas sob o manto do primeiro ministro Fidel Castro. No havendo direito de divergir, est mais do que claro que no existe liberdade de opinio. Pelo menos que colocar-se na oposio no fosse um crime capaz de levar os que assumem esse risco a penas de priso inclusive indeterminadas. A libertao dos 52 dissidentes apenas um passo na histria moderna. Quantos dissidentes haver nos pores cubanos? Quantos dissidentes sero presos, daqui para frente? So perguntas a serem respondidas. Quanto ditadura, no existe a menor dvida. As prises so testemunhas.

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