Mensaleiros culpados de incapacidade

Vittorio Medioli

Pessoalmente no acredito que precise ser um iluminado ou um privilegiado para conseguir decifrar o justo do errado. A dose de conscincia universal comum a todos, o acesso no passa por um pedgio, no se compra nem se vende. Basta o silncio para se escutar sua harmonia. Requer exerccio para dissipar egosmo e interesse pessoal, firmando o pensamento na honestidade, nas virtudes dos fortes. A surgir o cntico inconfundvel da conscincia universal, tocada por uma inteligncia divina.

Mesmo sem estudos e bero de ouro, o indivduo pode entender que a palavra animal representa algo movido por uma alma, e os animais tm alma grupal governada pelos elementais (entidades modeladoras) de sua raa. As foras modeladoras criam as cores da arara, as manchas da ona, se divertem brincando e diversificando a natureza, se mostram a quem gosta delas. O homem (man, em snscrito mente) algo diferenciado, movido pela mente, pela capacidade mental negada ao animal e portador do livre-arbtrio.

Para o homem, no existe influncia planetria que possa ser enfrentada e evitada. Para o budista ou hindusta na lenta e inarredvel marcha do peregrino do andarilho das estrelas , a escada se sobe de degrau em degrau. Em nossa ronda, as escrituras vdicas reconhecem entre encarnados e desencarnados 60 bilhes de individualidades.

Nesse momento cerca de 10% possuem corpo fsico, palpvel e palpitante no planeta Terra. Voc que l um deles. Quer dizer que 54 bilhes estariam em esferas alm da tridimensional, em outros planetas invisveis atrs do espesso vu que no permitido levantar ao olho humano. Quarta, quinta e mais dimenses abrigariam a legio de individualidades/personalidades que alcanaram a humanizao.

A CONSCINCIA

Pois , voltando do metafsico para o fsico, j que esta coluna no uma aula de doutrinas de cosmogonia, vale ressalvar que a voz da conscincia comum a todos. Se faz perceptvel a quem quer ouvi-la, e inaudvel a quem permanece escravo do caos egosta.

A desarmonia de um mal se reflete no todo, insurge estridente como a gota de veneno no balde de gua pura; depois muitas gotas envenenam mortalmente, assim como a gota de mal envenena uma nao, uma raa, a humanidade inteira.

Pois nesses dias, em que pesem a compreenso com quem foi preso em decorrncia do mensalo e o sofrimento de seus familiares, j passa do limite a ao para desgastar Joaquim Barbosa. Falta de provas, rito sumrio, processo ditatorial, atropelo etc. passaram do limite. Dirceu e Genoino fazem parte de uma histria, relativamente recente, que cassou presidente e deputados por meio de processos de CPIs e devassas, que eles no sofreram, e isso sim os diferenciam de muitos outros.

Mais provas no foram levadas ao processo, mais esclarecimentos no ocorreram, mais dvidas no foram dissipadas, pois foram impedidas investigaes para quem se sentava no Poder. No se realizou CPI, no se deixou que a Polcia Federal avanasse, no se quebraram sigilos bancrios, telefnicos, e nenhuma devassa da Receita Federal ocorreu que pudesse mostrar cabal resultado que desfizesse as provas apresentadas pelo procurador da Repblica.

Eram insuficientes? Os juzes as consideram suficientes para condenar cadeia.

CPI DO COLLOR

Nem as contas bancrias de Marcos Valrio, apesar de ter remetido US$ 10 milhes s contas de Duda Mendona, foram expostas a pblico, quanto menos de condenados e suspeitos como na CPI de Collor. CPI em que Dirceu, Genoino e Mercadante revelavam diariamente provas de cheques e transaes.

A forma de se revelar inocncia estava nas mos dos ministros da Justia, como Mrcio Thomas Bastos e Tarso Genro, ainda o atual. A incrvel capacidade de gerar dossis sobre adversrios no foi suficiente para gerar um antidossi que livrasse os mensaleiros?

Homem pblico deve explicao pblica, inconteste, e no choraminges com indiretas que tangenciam o essencial.

Por muito menos que um mensalo, so apreendidas nas residncias dos suspeitos, com celeridade e firmeza impressionantes, documentaes e provas, so ainda quebrados sigilos de contas bancrias, telefnicas, de arquivos digitais. Algum j viu isso acontecer com mensaleiro?
J ouviu no JN uma gravao de dilogo de mensaleiros, dessas que aparecem todo dia vazadas pela PF? Nunca. Isso sinal de qu?

Para o porteiro de um stio na casa de farra e de lobby frequentada pelo ex-ministro Palocci, a quebra de sigilo de uma caderneta de poupana se deu instantaneamente, e apareceu. E as cadernetas dos mensaleiros? Nunca.

TRANSPARNCIA

Inocncia de homem pblico exige satisfao, rigor e transparncia. Dvida para o ru depois que se esgotou uma investigao por todos os meios. Ru que tinha tudo para provocar uma devassa, e ao Poder com seu grupo cabe o dever de levantar a dvida. Se a manteve, tem que se conformar, seu livre-arbtrio decidiu.

Dirceu, num famoso pronunciamento na Cmara, prometeu pr os pingos nos is, ou seja, abrir tudo que pairava para dissipar cabalmente as dvidas.

Joaquim Barbosa um dos mais lembrados para a Presidncia da Repblica, e numa enquete do jornal O Tempo a priso dos mensaleiros aprovada por 86%. Como mentores do Poder h mais de 11 anos, a vrios mensaleiros no faltou oportunidade de pr pingos nos is, preferiram no coloc-los, como uma CPI, uma devassa tributria, uma investigao radical da PF poderiam gerar.

Dirceu, Genoino, Mercadante souberam caar Collor, Ibsen Pinheiro e um batalho de anes corruptos, mas com mais arsenal e poder no souberam convencer que eram inocentes no maior escndalo de corrupo da Repblica. Se no so culpados de crime, os so de incapacidade de provar a inocncia. (transcrito de O Tempo)

4 thoughts on “Mensaleiros culpados de incapacidade

  1. RODRIGO CONSTANTINO

    Invidia: o socialismo como a idealizao da inveja

    Ainda no tema da inveja como principal fora propulsora das ideias igualitrias do socialismo, segue uma resenha que escrevi sobre o timo livro de Helmut Schoeck, que recomendo na ntegra. preciso desmascarar as intenes nobres da esquerda, que servem apenas para mascarar o mais mesquinho dos sentimentos humanos.

    Invidia

    Envy is a drive which lies at the core of mans life as a social being, and which occurs as soon as two individuals become capable of mutual comparison. (Helmut Schoeck)

    A inveja um sentimento com profundas conseqncias para o progresso da humanidade, e caso no seja devidamente domesticada, pode limitar bastante nossos avanos. O filsofo austraco Helmut Schoeck escreveu um brilhante livro sobre o tema, chamado Envy: A Theory of Social Behaviour. Seu trabalho deveria ser lido por todos, principalmente por aqueles que defendem uma utopia na qual seria possvel construir uma sociedade igualitria, desprovida da inveja. O autor deixa claro, com slidos argumentos e vasta experincia emprica, que no s impossvel a construo de tal sociedade, como o motivador de seus defensores muitas vezes a prpria inveja.

    Em primeiro lugar, interessante traar as diferenas entre a inveja e o cimes. No caso deste, uma terceira pessoa est envolvida, e o ciumento pretende preservar algo que considera sua propriedade. Ele quer preservar seu ativo de terceiros. J no caso da inveja, h um impulso destrutivo, onde o outro no ter algo mais importante que tudo. A eliminao do prprio ativo passa a ser o objetivo. A inveja se mistura muito com o ressentimento, fruto de um sentimento de inferioridade, onde a desgraa alheia mais importante que a satisfao pessoal do invejoso. Se um vizinho quebrar a perna, o invejoso ir regozijar-se, ainda que isso no faa ele andar melhor. Se um rico for bancarrota, o invejoso ir comemorar, ainda que isso no o faa mais rico. O homem intensamente invejoso pode inclusive ser possudo pelo desejo de autodestruio, incapaz de tolerar que outros saibam aproveitar a vida e demonstrar felicidade.

    Helmut conclui pontos interessantes sobre a inveja, como o fato de mnimas diferenas serem suficientes para despertar muita inveja no homem invejoso, ou que normalmente a inveja est mais atrelada proximidade das pessoas. Em outras palavras, um no precisa ser um miservel para invejar um rei, sendo mais provvel a inveja surgir entre empregados de um mesmo nvel onde um deles recebeu um aumento relativo ou um elogio do chefe. Isso derruba o sonho dos igualitrios em criar uma sociedade onde todos fossem materialmente iguais, como se isso pudesse eliminar a inveja do mundo. Pelo contrrio, em tais sociedades caso pudessem existir a inveja seria de um nvel bastante elevado, onde um simples agrado de algum, o olhar de uma mulher, uma msera demonstrao de superioridade intelectual, faria despertar uma inveja incontrolvel no invejoso.

    No livro, o autor vai buscar os indcios de inveja e os mecanismos desenvolvidos para evit-la nas sociedades mais primitivas que se tem conhecimento. A crena na magia negra, por exemplo, teria pouca diferena da f socialista de que o pobre pobre por ser explorado pelo patro, ou a crena das naes subdesenvolvidas de que assim esto por culpa das naes mais ricas. O uso de algum bode expiatrio, seja a magia negra, o desejo dos deuses ou o capitalismo explorador, serve para consolar aqueles invejosos que no suportam o sucesso alheio explicado por mrito ou alguma superioridade qualquer em relao a si prprio. Se o vizinho teve uma colheita melhor, no pode ser pela sua maior eficincia e produtividade, pois isso seria um atestado de superioridade que o invejoso no est disposto a dar. Diferente daquele que observa e admira o sucesso alheio, o invejoso vai buscar refgio nas explicaes fantasiosas, como o uso da magia pelo vizinho, a sorte, o destino traado pelos deuses etc.

    Se todos possuem, em diferentes graus, o sentimento de inveja, a busca de proteo contra o invejoso, o mau olhado, sempre esteve presente nas diferentes culturas tambm. Quanto mais uma sociedade conseguiu controlar os invejosos e dar mais espao e liberdade para os inovadores, mais progresso atingiu. A alocao de escassos recursos no eficiente quando o medo da inveja alheia grande demais. Se o fruto do sucesso ser tomado por medidas claramente invejosas como o imposto progressivo, deixam de existir os incentivos adequados para que o empreendedor se arrisque. Se as desigualdades no so toleradas, se algum souber a priori que seu sucesso ser motivo de forte inveja por parte de seus vizinhos, as realizaes pessoais sero nfimas, e por conseguinte a da sociedade em questo tambm.

    Por isso que as comunas israelenses, os kibbutzin, jamais seriam capazes de evoluir da subsistncia agrria, e o pouco avano existente vem emprestado de fora, dos pases industriais capitalistas. O socialismo, a pura idealizao da inveja, onde todos devem ser iguais como os insetos gregrios so, seria a vitria da mediocridade sobre o talento, sobre as conquistas individuais. Numa sociedade igualitria, a inveja derrota o sucesso, as realizaes pessoais. Eis o ideal dos invejosos, que trabalham para incutir um forte sentimento de culpa naqueles que, de alguma maneira, destacaram-se na sociedade. Temendo a inveja alheia, muitos desses sucumbem tambm ao sonho ou pesadelo igualitrio.

    Com isso em mente, deixo a concluso nas palavras do prprio filsofo: O desejo utpico por uma sociedade igualitria no pode ter surgido por qualquer outro motivo que no a incapacidade de lidar com a prpria inveja.

  2. RODRIGO CONSTANTINO

    Veja on line

    Coutinho contra dois idiotas

    A pacincia dos liberais e conservadores tem que ser muito grande, quase infinita, para viver refutando a estupidez disseminada pela esquerda caviar. Felizmente contamos com gente como Joo Pereira Coutinho. Aps uma coluna divertida sobre uma vizinha bela e socialista, o colunista portugus veio mais srio e cansado hoje. que as imbecilidades esquerdistas tiram o humor de qualquer um mesmo.

    Na coluna de hoje na Folha, Coutinho expe as baboseiras de Zizek e Roger Waters. Um cone da esquerda caviar intelectual, o outro da esquerda caviar artstica. Cada um professa atrocidades como a coisa mais natural do mundo. E pior: encontram eco em uma legio de seguidores!

    Comecemos com Zizek, o novo guru dos idiotas teis. Coutinho mostra o absurdo do texto do pensador no Guardian, condenando Mandela por ter contemporizado demais com o sistema e abandonado sua luta socialista. Zizek no teria compreendido que foi justamente a contemporizao que permitiu a queda do regime nefasto do apartheid.

    Mas o pior vem depois, quando Zizek cita Rogert Mugabe como exemplo de fracasso na regio, sem notar sua contradio: o maior erro de Mugabe foi justamente no ter abandonado o socialismo como meta. Coutinho explica melhor:

    Mas h mais: acusar Mandela de atraioar os seus ideais socialistas ignorar a importncia que o fim desses ideais teve para derrubar o prprio regime.

    A queda do apartheid, ao contrrio do que imagina Zizek, no comeou com a sada de Mandela da priso em 1990. Comeou um ano antes, quando um certo Muro de Berlim foi reduzido a escombros. Com o desaparecimento da ameaa ideolgica de Moscou, a elite branca no apenas deixou de temer a transio para um regime democrtico pleno como, no limite, o permitiu.

    Finalmente, Zizek pergunta: no ser possvel ir alm do legado tmido de Mandela sem cair no extremismo totalitrio de Robert Mugabe, o vizinho do Zimbbue que arruinou o seu pas?

    Curiosamente, Zizek nem se apercebe da contradio da pergunta: Mugabe destruiu o pas porque seguiu a cartilha socialista que Zizek acusa Mandela de ter renegado.

    O resultado desse programa de coletivizao dos meios de produo determinou que um dos mais prsperos pases africanos seja hoje um caso internacional de fome, misria e, claro, guerra civil larvar de negros contra brancos. Ou, pelo menos, contra os brancos que ainda restam por l.

    Quando ser que Zizek cresce e desaparece?

    Respondo: nunca. Gente assim no amadurece jamais. Ou algo muito raro de se ver. cones da esquerda caviar encontram fascnio na devoo e reverncia dos idiotas teis. Os aplausos da plateia com cada nova boalidade escrita como um entorpecente para eles. O que nos leva ao segundo caso: Roger Waters.

    Antes de mais nada, confesso que adoro as msicas do Pink Floyd. Mas como deixo claro bem no comeo do meu livro, precisamos saber separar o artista de suas ideias polticas. Coutinho brinca com isso de forma cruel ao alegar que gosta muito de sua empregada domstica, mas nem por isso presta ateno no que ela tem a dizer sobre aquecimento global ou crise europeia. Por que haveria de ser diferente com artistas?

    Pois bem: o cantor do Pink Floyd acusou Israel de ser como o regime nazista! O quo demente preciso ser para declarar isso assim, abertamente, como uma grande verdade? Coutinho coloca o dedo na ferida:

    Ponto prvio: voc, leitor, pode no concordar com a poltica de Israel; pode condenar vivamente a construo de assentamentos na Cisjordnia; e pode at atribuir todas as culpas do mundo aos judeus pelo fracasso das sucessivas negociaes entre Israel e a autoridade palestina. Est no seu direito e na posse razovel das suas faculdades mentais.

    Mas quando algum compara Israel com a Alemanha de Hitler o mais infame regime da histria, que fabricou a morte sistemtica de milhes de judeus e outras minorias e foi responsvel pela maior catstrofe militar do sculo 20 essa comparao no apenas ofensiva para a memria das vtimas, como dizem os poetas.

    A comparao ofensiva para voc, leitor, tratado como um idiota ignorante por outro idiota ignorante.

    O mundo est mesmo cheio de idiotas. preciso pacincia para rebater suas estultices. Ainda bem que Coutinho tem pacincia. s vezes confesso que ela me falta
    (Veja on line)

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.