Cultores da verdade ou da censura?

Carlos Chagas

Piscou a luz, na Comissão da Verdade, antes mesmo de instalada. Pode ser sinal de próxima falta de energia, quando começarem os trabalhos, a partir de quarta-feira. Pelo menos dois dos sete nomeados admitiram, em conversas e entrevistas, a realização de sessões secretas, seja para oitivas, seja para deliberações. Quer dizer, atropelada pela censura, a sociedade fica afastada da verdade que deveria conhecer. Parece que a moda pegou, vinda da CPI do Cachoeira, atualmente realizando sessões secretas que quinze minutos depois de encerradas tornam-se do conhecimento público pela inconfidência de seus integrantes.

O que se discute não é falta de informações, pois elas acabam circulando por obra e graça da natureza das coisas. Contesta-se a essência da proibição. A negação do direito universal do ser humano de saber tudo o que lhe diz respeito. Mesmo em tempos de democracia, prevalece o absurdo dos decretos secretos dos tempos do general Garrastazu Médici.

O exemplo da Comissão da Verdade, se vier a caracterizar-se, assim como o da CPI do Cachoeira, já caracterizado, exprimem momento sombrio nas instituições nacionais. Afastar a imprensa das sessões significa discriminar as investigações, por mais corretos e competentes que possam ser os sete membros do grupo.

O falecido Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, que há mais de dez anos deixou de reunir-se no ministério da Justiça, adotou a prática de só realizar sessões abertas para analisar, ouvir e investigar delitos contra a dignidade do indivíduo. Talvez por isso tenha morrido de morte morrida, simplesmente não se reunindo mais sob a presidência do ministro e, depois, do secretário dos Direitos Humanos, em seguida transformado em ministro. Será esse o fim da Comissão da Verdade? Esperança ainda existe para que todos os trabalhos possam ser acompanhados pelos meios de comunicação. Afinal, cidadãos que se destacaram na defesa dos mais humanitários princípios da civilização não podem correr o risco de aparecer como cultores da censura.

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TEMPESTADE EM COPO D’ÁGUA

Informa-se ter a presidente Dilma Rousseff ficado uma fera quando viu seu nome citado por um delegado de polícia, na CPI do Cachoeira, como uma das centenas de pessoas referidas pelo bicheiro nas gravações de suas conversas telefônicas. Não deveria. A simples citação de uma pessoa não significa estar ela envolvida nas tramas investigadas, muito menos ser chamada para depor. Fosse assim e teriam que ser convocados Nossa Senhora, Jesus Cristo e o próprio Padre Eterno, que Cachoeira citou incontáveis vezes para manifestar seu espanto ou apelar para suas graças.

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OPERAÇÃO INCONCLUSA

Merece análise mais profunda, por parte do governo, a venda da Delta Construções para uma empresa especializada em vender carne de vaca, com o suporte do BNDES. A operação, senão ilegal, parece imoral na medida em que dinheiro público será usado para salvar o instrumento de uma quadrilha empenhada em lesar o erário.

Seria por conta das centenas de obras que a Delta realiza para o PAC? O prejuízo não pode ser socializado, muito menos sabendo-se que empresários vigaristas acabarão salvando seu patrimônio e indo comemorar nos melhores restaurantes de Paris.

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