Da arte de governar

Carlos Chagas

Nova escorregadela do presidente Lula: em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, declarou  que “governar é palavra inventada por intelectuais pois a palavra correta é cuidar do povo”.

Lembra uma resposta de Nikita Kruschev quando todo-poderoso da União Soviética, em visita a Nova York. Perguntado se encontrava tempo  para governar, já que viajava tanto pelo mundo, disse: “quem governa é o governo…” Não foi por acaso que meses depois estava deposto.

Quando chegou ao poder, preocupou-se o Lula com duas  vertentes de ação: implantar planos de assistência social, inaugurando o fome-zero depois transformado em bolsa-família, e seguir estritamente a política econômica neoliberal  de Fernando Henrique. Justiça se faça, oito anos depois persiste nas duas. Acrescentou o PAC, cooptou partidos políticos e projetou-se internacionalmente. Criou mais universidades do que os antecessores. Reelegeu-se, como parece prestes a eleger Dilma Rousseff. Se isso não é governar, melhor mudar a  semântica, aliás, palavra também usada pelos intelectuais.

O que não dá para entender é essa má vontade presidencial para com a intelectualidade nacional, de resto tão pequena.

Um dia a lamentar

Ontem,  25 de agosto, um dia a lamentar em nossa crônica política. Foi  quando, 49 anos atrás, Jânio Quadros  renunciou  à presidência da República. Tanto pelo gesto tresloucado, de desrespeito à maioria  do  eleitorado que o levara ao palácio do Planalto,  quanto pelos objetivos nele  encobertos.  O projeto envolvia a  protelação  da renúncia pelo Congresso, pois  era uma sexta-feira,  como sempre vazia de deputados e senadores. No fim de semana,  Jânio    imaginava, o povo sairia às ruas exigindo o seu  retorno e os militares completariam o golpe, impedindo a posse do vice-presidente João Goulart, então em viagem pela China Comunista. Janio voltaria como ditador, dotado de poderes especiais e com o Legislativo posto em recesso.

Deu tudo errado. Câmara e Senado tinham número não para apreciar, mas apenas para tomar conhecimento de um ato unilateral que o péssimo advogado não lembrou produzir efeito imediatamente oficializado. O presidente da Câmara foi empossado naquela noite. O povo não saiu às ruas, no fim de semana, e os ministros militares não  conseguiram impedir a  posse de Jango. O já ex-presidente saiu pela porta dos fundos, para entrar na História.

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