Danton na Petrobras

 Sebastião Nery

Danton Jobim era diretor do “Diário Carioca”, Pompeu de Sousa redator-chefe e Carlos Castelo Branco colunista político. Foram ao palácio do Catete falar com Dutra, presidente da República. A palavra, naturalmente, por força do cargo, era de Danton:

 – Senhor presidente, nós estamos aqui ….

 E parou. Parou, ficou parado, não disse mais nada. Pompeu nervoso, Castelo aflito, Dutra sem entender. E Danton, ali em frente, silencioso como um poste, como uma esfinge verbal, metade palavra, metade silêncio. O presidente, criado e vivido na sua tradicional mudez, olhava para os três imaginando, quem sabe, uma ironia.

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POMPEU

De repente Danton olhou para o teto, respirou fundo, foi abrindo a boca. Era a salvação. Ia, enfim, falar, para alívio de todos e felicidade geral do encontro. Abriu a boca mais um pouco, mais um pouco. E deu um longo bocejo morno. Pompeu sentiu, como no Evangelho, que era chegada a sua hora. E falou o que o “Diário Carioca” queria.

Nem Pompeu nem Castelo jamais conseguiram explicar o bloqueio inesperado de Danton. E nem esqueceram o olhar perturbado, quase alarmado, de Dutra, catedrático do silêncio. Mas não tão demais assim.

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SÃO CRISTOVÃO

Campanha eleitoral na Guanabara. Danton Jobim foi ao São Cristovão Futebol Clube com Nelson Carneiro, Benjamim Farah e um grupo de candidatos a deputados pelo MDB. Era uma solenidade em homenagem a um ex-presidente benemérito do clube. Danton começou a dormir profundamente, respirando fundo a paz dos mortos-vivos.

O presidente do clube apareceu com uma taça enorme a ser oferecida ao ex-presidente homenageado. E anunciou que a saudação, a entrega, seria feita pelo jornalista Danton Jobim. Ao lado, o industrial Gilberto Rabelo, a muito custo, acordou Danton, que abriu os olhos vendo à sua frente um homem entregando-lhe uma taça.

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TAÇA

Danton não teve dúvida, levantou-se, pegou o microfone:

– Meus senhores, agradeço esse galardão, acima de meus merecimentos. Jamais poderia imaginar, ao vir para esta solenidade, que me estava destinada a alegria de receber do São Cristovão Futebol Clube uma taça tão linda, que levarei para minha casa como imagem duradoura da amizade e do carinho desse clube.

Nelson ria desbragadamente. Benjamim Farah dizia  a Danton:

– A taça não é para você não, Danton. É para o homenageado, o ex-presidente do clube.

E Danton ia em frente, os olhos fechados, falando e bocejando, bocejando e falando, agradecendo. O presidente do clube, depois de muito hesitar, interrompeu Danton e lhe comunicou que havia um equívoco. A taça não era dele. Era do outro.

Danton sentou, o outro recebeu.

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PETROBRÁS

Está parecendo que o saudoso diretor do “Diario Carioca” e  sonolento senador Danton Jobim assumiu a presidência da Petrobrás. 

“Nos últimos meses, os investidores pequenos e médios em ações da Petrobrás estão vivendo momentos de angústia. A desvalorização dos seus papéis vem se dando de maneira expressiva. O valor patrimonial das ações preferenciais da empresa está abaixo do seu patrimônio líquido”.

“A ação vale menos do que o total do seu patrimônio. Em maio de 2008, o valor de mercado arbitrado para a Petrobrás registrava R$510,4 bilhões. Na semana passada o valor foi reduzido para R$ 325,6 bilhões. De janeiro a junho de 2011 a desvalorização das ações foi de R$ 55 bilhões”.

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GOVERNO

“Uma das maiores empresas do  mundo, com plano de investimentos para os próximos anos de US$ 224 bilhões, viabilizando duplicar a sua produção ao final da década, qual a razão para a desvalorização das suas ações?  E mais: segundo a “Society of Petroleum Engineers” a Petrobrás deve subir dos atuais 16 bilhões de barris de reservas para 30 bilhões”.

“Só em 2010 a reposição de reservas foi elevada em 229%, garantindo que somente o que está contabilizado assegura a atual produção por 19 anos. Acresça-se o fato de o pré-sal ser estimado em reservas prováveis e possíveis de 50 a 120 bilhões de barris. O valor econômico de qualquer empresa petrolífera está vinculado às suas reservas”.

Qual a razão para a evaporação das ações da Petrobrás? Sem dúvida a submissão da sua direção às vontades do governo. De janeiro a junho de 2011 a Petrobrás perdeu R$1,5 bilhão na gasolina e R$2,2 bilhões no diesel.

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