Das moscas de Sartre à vergonha do Hospital Pedro Ernesto

Pedro do Coutto

Numa excelente reportagem, autêntica defesa da cidadania, Waleska Borges, O Globo de sábado 17, revelou ao país a suprema vergonha que pode atingir um hospital, expondo o vergonhoso desastre a que chegou a administração de saúde no estado do Rio de janeiro. O centro cirúrgico do Hospital Pedro Ernesto, da UERJ, foi fechado porque moscas varejeiras penetraram (e permaneceram) naquela dependência. Voavam no interior de um espaço decisivo, inúmeras vezes o limite entre a vida e a morte. As fotos que acompanham a matéria são de Paulo Barreto.

Me veio à memória, no momento em que li o trabalho, a peça de Jean Paul Sartre, “As Moscas”, de 1943, escrita na França ocupada pela Alemanha de Hitler. Ela antecede o romance “A Náusea”, e também a obra existencialista “O Ser e o Nada”. Tive a certeza que a administração estadual de saúde não é nada séria. Que faz o secretário Sergio Cortes, afinal?

Em fim de semana recente, o Rocha Maia cerrou os portões por falta de médicos. Logo depois o mesmo sucedeu com o Paulino Werneck. Agora o Pedro Ernesto, também sob os cuidados da reitoria da UERJ. No caso do centro cirúrgico, o problema é gravíssimo. Tanto assim que as cirurgias programadas tiveram de ser suspensas. Um dilema para os médicos: o que pode ser pior? Os pacientes morrerem por falta da internação urgente, ou falecerem em consequência de uma infecção? O médico Alberto Chebabo, infectologista, afirmou que a decisão hamletiana foi a menos ruim. A que ponto chegou a saúde pública. Por isso, com náusea por ladrões e omissos, sustento que a reportagem de O Globo representou um grito de cidadania. Deve ser ouvido pelo governador Sergio Cabral. Deve ser ouvido porque o artigo 196 da Constituição Federal assegura que a saúde pública é um direito de todos. No papel. Porque na prática isso não acontece. Aliás talvez o principal problema brasileiro seja a mendacidade política: o gesto não corresponde à palavra.

A mesma Carta Federal a que me refiro determina que os gastos com o setor devem representar 12% dos orçamentos.No plano federal, assim, a saúde deveria receber, este ano, 240 bilhões de reais. Entretanto a ela estão consignados na lei de meios apenas 75,8 bilhões. No Rio de Janeiro, palco das moscas versão 2011, teriam que ser destinados 6 bilhões em números redondos. Mas estão carimbados somente 3 bilhões de reais, dos quais 1 bilhão e 700 milhões para custeio da administração. No custeio, que se refere a pessoal e manutenção dos equipamentos, pelo que se viu, não está incluído o centro cirúrgico do hospital que leva o nome de um grande médico brasileiro, prefeito da capital de 1931 a 1935. Aliás o primeiro prefeito eleito do Rio, no caso indiretamente. Pelo voto direto, o primeiro foi Saturnino Braga em 1985, cuja administração foi um desastre, culminando com ele próprio decretando a falência do município.

O desastre de 26 anos atrás agora se repete. Uma bomba infectada. Que explode em cima da população pobre, que não possui recursos para pagar um plano ou seguro de saúde. E dessa forma depende diretamente dos serviços públicos. Francamente, a reportagem de Waleska Borges deve ser enviada primeiro ao reitor da UERJ, depois ao governador Sergio Cabral, finalmente à presidente Dilma Roussef. Junto com cópia do artigo 196 da Constituição que Ulisses Guimarães chamou de cidadã.

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