Datafolha: PT lidera na classe C, seja a do IBGE, seja da FGV

Pedro do Coutto

O excelente ensaio do jornalista Bernardo Mello Franco, com base em pesquisa do Datafolha, publicado na edição de 22 de abril da Folha de São Paulo, revela que o Partido dos Trabalhadores lidera amplamente na faixa do eleitorado contida na classe C, ao contrário da previsão tucana de que, com o aumento da renda obtido nos últimos anos, esse segmento mudaria para o PSDB. Nada disso. Não mudou. Na classe C, seja ela a focalizada pelo IBGE, seja pela Fundação Getúlio Vargas, a predominância do PT é a mesma. O partido da presidente Dilma Roussef alcança 32% contra apenas 8 pontos da legenda do ex-presidente Fernando Henrique. É possível, até provável, que a diferença registrada decorra da popularidade do ex-presidente Lula. Não importa o motivo. O fato é que foi constatada pelo Instituto da FSP.

Para o IBGE, a classe C é que envolve os que têm salário mensal entre 3 a 5 mínimos. Não pode logicamente representar a classe média que figura mais na classe B. Cerca de 20% da população. Na escala A situa-se a alta classe média, na qual também, para efeito de unidade de voto, inclui-se também a escala A, dos considerados ricos. Antes de abordar os conceitos diversos adotados pelo IBGE e pela FGV para qualificar a classe C, vale acentuar que Bernardo Mello Franco, neto do embaixador Afonso Arinos e bisneto do chanceler e senador Afonso Arinos de Melo Franco, ressaltou em seu texto o fato de o PT suplantar o PSDB em todos os segmentos sócio-econômicos, incluindo os setores A/B, alcançando 16%, dois pontos à frente da legenda adversária.

No panorama da preferência geral – curioso este aspecto – o PT lidera com 26%, seguido do PMDB com 6, vindo em terceiro o PSDB com 5 pontos. Agora, 54% não têm preferência partidária e 9% não souberam responder ao Datafolha. A oposição, como o  jornalista  deixou bem claro, não está encontrando um caminho para que possa ter voto, talvez até – digo eu – porque está sem voz, encontrando-se sem mensagem.

Não pode atacar a política de reposição inflacionária nos salários. Não tem condições de criticar o sistema de expansão do crédito. Não pode recuar. Tampouco pode ir além, defendendo uma mais ampla e efetiva distribuição de renda. Porque, nesta hipótese, perde o apoio dos conservadores. Claro que estes financiam igualmente o PT. Mais uma razão concreta, portanto, para deixar o vôo dos tucanos sem um alvo certo.

Mas falei na diferença essencial entre os conceitos do IBGE e da Fundação Getúlio Vargas quanto a definição da classe média. Melhor dizendo: relativamente à inclusão ou não de toda classe C como sendo de classe média, estou mais com o IBGE. Acho muito forçado considerar o poder aquisitivo de quem recebe por mês de 3 a 5 salários mínimos. Com muito boa vontade, pode-se tornar elástico o acesso para os que recebem 5 pisos. Mas de modo algum é possível incluir-se no grupo médio quem recebe 3 SM. Devo acentuar que os enfoques do IBGE e da FGV são diferentes.

Nesta última pesquisa do IBGE, publicada sábado, 30 de abril, o cálculo parte de renda familiar. A análise da FGV baseia-se na receita individual. Não muda muito. Como a do IBGE cita a existência de 57,3 milhões de domicílios, com a média de 3,3 pessoas por unidade, a renda encontrada tem que ser dividida também por 3,3 para que o número final coincida com o do método da FGV.

Mas este detalhe não é de grande importância. Importante – e triste – é ver que 45% das residências brasileiras, assim da população, não têm rede de esgotos. E que, como demonstraram Cássia Almeida, Isabela Martin e Letícia Lins, O Globo também de sábado, 60,7% das famílias têm renda per capita de 1, apenas um, salário mínimo. Onde está a classe média? Em algum outro plano, mas não neste.

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