De como livrar-se dos pidões

Carlos Chagas
                                            
Allen Dulles, fundador da CIA, dirigia dezenas de estações de espionagem  espalhadas pelo mundo, além de centenas de agentes encarregados de operações nem sempre limpas, melhor dizendo, sujas. Por conta disso, todos os dias recebia montes de relatórios sobre os mais variados temas. Chegou à conclusão de que se fosse ler toda a correspondência a ele destinada, 24 horas por dia seriam insuficientes. Assim, decidiu-se a aprovar ou rejeitar os relatórios pelo peso. Avaliava os textos numa pequena balança colocada em sua mesa de trabalho, sem abrir os envelopes.
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Por que se conta esse episódio? Porque coisa parecida precisam  fazer  a presidente Dilma Rousseff e o chefe da Casa Civil, Antônio Palocci, diante dos numerosos pedidos de nomeação  para cargos no segundo escalão do governo. Quando acompanhados de exposições, diagnósticos e longas perorações a respeito das qualidades dos pidões, poderiam ir  para uma pasta. Trazendo  apenas a solicitação, melhor seria recolhê-los  em outra.  Tanto faz a prevalência do poder de síntese ou da  prolixidade,  o resultado final deveria ser  o mesmo dos relatórios enviados ao  primeiro diretor da Central Inteligense Agency: desconsiderados. 

Outros são  os critérios para o preenchimento de vagas na administração federal e nas empresas estatais:   mérito e  competência  não podem medir-se por pedidos individuais ou partidários, muito menos se assinados pelos interessados ou seus tutores.   Daí a explicação de porque a presidente da República decidiu acionar a ABIN.

CHUMBO GROSSO NOS DISSIDENTES

Mesmo ficando para altas horas da noite, ou decidindo-se rápido, de tarde,  a votação do projeto do novo salário mínimo, a conclusão é de que amanhã de manhã estará na mesa de trabalho da presidente Dilma a lista dos parlamentares da base governista que terão votado contra  o texto oficial. Devem preparar-se os dissidentes, sejam do PT, PMDB, PSB e penduricalhos. Vão ficar ao sol e ao sereno, sem a menor possibilidade de atendimento para seus pleitos, nomeações e liberação das respectivas  emendas individuais ao orçamento.
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Política é como as nuvens, dizia o saudoso Magalhães Pinto: a gente olha estão formando um elefante; segundos depois parecem um avião, e em seguida uma  ovelha desdentada. Ontem, porém, a impressão era de que a imensa maioria das bancadas alinhadas ao palácio do Planalto votará pelos 545 reais de salário mínimo. Confirmando-se a previsão, a hora será do acerto de contas com os dissidentes. A presidente não aceitará desculpas nem subterfúgios, nessa demonstração de rigor absoluto.

GOVERNADORES NA EXPECTATIVA

Os governadores do Nordeste receberão a presidente Dilma Rousseff na segunda-feira, em Aracajú. Até lá, vem trocando figurinhas todos os dias, pelo telefone, unidos num denominador comum supra-partidário: estão sem recursos para implementar suas promessas de campanha, alguns até com dificuldades para saldar dívidas vencidas. Não escapam sequer os reeleitos, porque se o país vai bem, como diz o ex-presidente Lula, os estados vão mal. Aliás, muito mal.
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Espera-se que a chefe do governo possa levar algum refrigério, mas será bom lembrar:  se ela determinou um corte de 50 bilhões no orçamento federal, poderá muito bem exigir dos governadores sacrifícios semelhantes.
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Não haverá discriminação por razões partidárias, Dilma tem dito, mas é preciso atentar para o reverso da medalha e perguntar se os governadores da oposição confiam nela.

ENCONTRO OCASIONAL

Tancredo Neves disputava o governo de Minas e seu adversário, Eliseu Resende, começou a crescer nas pesquisas. Tendo-se comprometido em fazer  Renato Azeredo prefeito de Belo Horizonte, o futuro presidente da República precisou voltar atrás, fixando-se em Hélio Garcia, que lhe garantiria mais votos. Renato ficou bravo, mas não passou recibo, pois seria secretário de estado. Tancredo, sempre preocupado em não desagradar correligionários e amigos, pediu ao presidente da Assembléia mineira, Genésio Bernardino, que encontrasse “ocasionalmente” Renato e lhe dissesse, como quem não quer nada, que ser secretário de estado era mais importante do que prefeito da capital.

Dito e feito, o encontro “ocasional” aconteceu e assim que o deputado  começou a fazer  a observação, Renato o interrompeu dizendo: “Pode parar. Pode parar. Pensa que eu não sei que vocês combinaram tudo? Comentário ocasional uma ova! E prefeito de Belo Horizonte  é mais importante do que secretário…” São coisas de Minas, porque Renato virou secretário e continuou com Tancredo até o fim.

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